quarta-feira, 20 de junho de 2012

Entrevista com Cris Monteiro

Entrevistei Cristina Monteiro, principalmente porque quando a conheci me surpreendi por quanta experiência ela tinha na área da psicologia, e pela diversidades de trabalhos que ela realizou. Logo pensei que era uma pessoa interessante para eu entrevistar para o CientíficaMente, que trata também das possibilidades de carreira na psicologia. Um breve resumo sobre ela, e abaixo, a entrevista.

Cristina Fonseco Monteiro se formou em psicologia em 2007 (PUC), e fez pós-graduação em psicopedagogia clínica pelo Instituto Sedes Sapientiae. Desde 2008 ministra palestras sobre vários temas, e é instrutora empresarial desde 2010. Em 2011 lançou um livro de crônicas junto com outros autores.


       CientíficaMenteCris, por que você escolheu fazer Psicologia?

Sempre tive interesse em ajudar as pessoas, assim como sempre precisei de bastante ajuda para lidar com diversas situações da vida. Aos treze anos, passei por um momento bastante turbulento na vida, quando me mudei para o Colégio Palmares que tem um regime rígido, em que fui submetida por muito tempo a bullying, além de muito stress e medo de não conseguir dar conta daquela missão. À base de vários auxílios – das amigas, da família, de professores, de professores particulares e de uma psicóloga do colégio – consegui vencer o pavor de estar ali e ainda permanecer até o final do Ensino Médio. Desde então, escolhi fazer Psicologia para ajudar as pessoas a viverem melhor e a superar seus medos.

       CientíficaMente - Onde fez o curso, e o que achou dele?

Fiz Psicologia na PUC-SP e gostei muito. Achei que o curso me ajudou a voltar a sonhar, a perceber que eu poderia olhar mais para dentro de mim e me compreender. Desde o primeiro ano fiz terapia, depois análise e não parei mais. Conheci pessoas que têm o meu estilo de ser e pensar, que têm profundidade, característico das pessoas que cursam Psicologia. Isso valeu muito a pena.

       CientíficaMente - Quando estava na graduação, fez algum estágio, algo prático? Como foi?

Fiz muitos estágios em diversas áreas, notadamente sociais, até porque a graduação exige isso. Foi importante poder ir para a prática e ver que eu podia existir para além dos muros da universidade. Fui criada com muita proteção e ali foram os primeiros ensaios para apalpar a realidade. Não foi uma tarefa fácil. Tive que quebrar uma bolha e me refazer novamente. Com muita ajuda, paciência e perseverança, praticamente nasci de novo e hoje estou mais forte.

      CientíficaMente - Depois que se formou, o que fez?

Fui cursar Psicopedagogia, pois sabia que a clínica psicológica não era fácil. Acreditava que se eu entrasse em uma escola, poderia ter um respaldo institucional e não estar totalmente sozinha. Trabalhei como voluntária para projetos de ação social em abrigos (em São Paulo e em SBC), em escola especial (Colégio Winnicott), em uma clínica-empresa (atendendo particular e convênios saúde), em hospital com atuação com grupos de apoio em Psicodrama (Ipq-HC-USP), ministrei palestras para estudos em um cursinho preparatório para concursos públicos (Pró-Concurso Educacional), buscando ser uma coaching do estudo, ministrei treinamentos sobre Trabalho em Equipe na Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo (em São Paulo e Campinas) e outros tantos para algumas consultorias (como a MultiMeta Treinamentos). Cogitei fazer mestrado em Psicologia Social na USP, onde assisti a algumas aulas e conheci algumas pessoas.
No entanto, após passar por um processo de coaching, pude acreditar no meu desejo e na minha capacidade de entrar em uma empresa e efetivamente ganhar dinheiro. Atualmente atuo no LAB SSJ, uma consultoria de aprendizagem corporativa, e me realizo por utilizar a escrita e a orientação para a aprendizagem, assim como me desenvolver no trabalho em equipe.

        CientíficaMente - Você clinicou? Como era?

Atuei em clínica e no hospital. Por um lado, foi bastante realizador poder ajudar as pessoas. No entanto, a Psicologia Clínica é para aqueles que têm paciência com o tempo de formação da clínica, tanto em termos financeiros, quanto em termos do quanto você precisa estar preparado para não se misturar com o paciente e ter técnicas e métodos eficientes que lhe forneçam o suporte necessário para lidar com o dia a dia desse tipo de trabalho. Além disso, o trabalho precisa ser reconhecido, o que não acontece diante dos convênios-saúde e das clínicas de convênio que desestimulam o terapeuta e atravancam o bom desenvolvimento do processo terapêutico, em relação ao lado financeiro e ao modo como o processo terapêutico é visto (limitação de sessões, atrelado a um diagnóstico médico).

          CientíficaMente - O que você faz hoje? Gosta do que faz?

Gosto bastante do fato de ter um emprego registrado em carteira, ter um salário e me sentir mais pertencente a um mundo real. Gosto da questão temporal: ter que ficar 8 horas por dia trabalhando num mesmo lugar, com as mesmas pessoas, em equipe. Isso me dá estrutura e me dá o chão que eu precisava e ainda preciso. Além disso, o trabalho que realizo é criativo, dinâmico, lida com os recursos de aprendizagem nossos e daqueles que receberão treinamentos e isso me mostrou que podemos nos desenvolver buscando o desenvolvimento pelo incentivo àquilo que motiva e não apenas no processo de cura atrelada à dor. Isso descola o psicólogo daquele papel de “curador psíquico” e o coloca num lugar mais popular, fato que também me deixou mais confortável. Mas um dia ainda quero voltar a poder atuar nesse papel, mais próximo de desenvolver outras pessoas.

     CientíficaMente - O que pensa da sua trajetória na psicologia?

Por um lado, é complicado ter um currículo tão variado, porque aparenta que eu não sabia onde queria chegar. Por outro, sei também da minha diversidade de interesses, das dificuldades que enfrentei, das lutas que eu venci. Sinto que a Psicologia é algo praticamente intrínseco a mim: desde pequena incansavelmente mergulhei na minha subjetividade e minha lente de enxergar o mundo foi esta. Isso me traz bônus e ônus. E apesar de ir para lá e para cá, garanto que meu foco é um só: o ser humano.

CientíficaMente - O que pensa da área da Psicologia em geral, sobre o mercado de trabalho, as possibilidades de atuação? Como era antigamente e como está hoje?

A Psicologia é o mundo dos sonhos. A realidade é bem diferente. Acredito que a Psicologia deveria ser difundida de um jeito que arrancasse os preconceitos e aquilo que é vendido como Psicologia e não é. As pessoas ainda têm uma ideia muito irreal da Psicologia: ou você é um santo ou é o demônio... Ou ainda é alguém que vai falar de mim o que eu já sei, então para que pagar? Mas o importante é perceber que não dá para estudarmos as coisas e as situações como algo à parte ao ser humano: aquilo que estudamos veio de alguém e vai para alguém. A transferência é um fenômeno fortíssimo em nossas vidas. E o papel da Psicologia é nos possibilitar uma maior expansão da consciência, para esclarecer nossas ideias, refinar nossas escolhas, ao percebermos melhor a nós mesmos e aos outros. Enfim, dar aos nossos olhos, novas lentes que nos mostrem outras possibilidades.

Gostaria de agradecer novamente a Cris pela disposição em ser entrevistada.


4 comentários:

Ana Luiza Blancato disse...

Muito bom, fiquei mais entusiasmada para ingressar no curso de Psicologia depois de ler esse depoimento! Ainda não tenho muito o que discutir mas ainda terei. hahaha Agradeço o post, deveriam postar mais depoimentos para auxiliar os adolescentes em dúvida do que 'seguir'; como eu.
Abraços!

Ela tem um probleminha disse...

Excelente entrevista! Gostei muito dos comentários da Cris.

Pedro Figueiredo disse...

Oi Cris, fiquei muito feliz de ver sua trajetória e só tenho a parabenizá-la, pois lembro de você no Colégio Palmares, estudei no mesmo ano que você. Sofri dos mesmos problemas que você. Me pergunto o que ainda se pode fazer com um problema tão, mas tão grave de cujo trauma até eu não me livro hoje: O BULLYING.
Só posso deixar registrada aqui a INCOMPETÊNCIA do Colégio Palmares para lidar com um problema como esses e com mais tantos outros. Para mim resta a esperança de que psicopedagogos como você e outros que direta ou indiretamente passaram por isso tenham muito interesse em se ocupar com isso. Porque nesse sentido ainda há muita coisa a ser feita.

E Parabéns mais uma vez!!

Unknown disse...

Nossa, que interessantes esses comentários pessoal. Pedro, te entendo perfeitamente. Infelizmente, em muitos lugares, as pessoas não estão preparadas para lidar com as dores uqe as instituições e as pessoas que ali habitam causam nelas. Temos que desenvolver resiliência e procurar ajuda. Ainda bem que existem pessoas aptas a nos facilitar isso. Afinal, estamos todos no mesmo barco.

Bjs,

Cris