domingo, 13 de dezembro de 2009

Sociossexualidade

Sociossexualidade é uma palavra grande e aparentemente assustadora, mas cujo significado é simples: se refere às diferenças individuais na propensão a fazer sexo sem proximidade ou compromisso. O termo surgiu com os estudos de Alfred Kinsey sobre a sexualidade na década de 50, em que ele encontrou grande variação individual quanto à prática do sexo casual, que é aquele em que há pouco compromisso e não há paixão envolvida.


Em 1991, Simpson e Gangestad recuperaram o termo e começaram a fazer novas pesquisas, com uma abordagem evolutiva. Na teoria que desenvolveram, os indivíduos chamados de “restritos” (isso não tem conotação moral!) são aqueles que necessitam de uma maior proximidade e comprometimento para poder fazer sexo com um parceiro com quem tem uma relação amorosa, enquanto os indivíduos chamados de “irrestritos” ficam confortáveis em fazer sexo sem compromisso, o sexo casual.


Na verdade, não se trata de uma situação tudo ou nada, em que você é restrito ou é irrestrito e ponto final. Para tentar abarcar melhor uma dimensão tão complexa, os pesquisadores têm entendido a sociossexualidade das pessoas em um contínuo, em que você pode estar em qualquer ponto da linha, tanto em um dos extremos, quanto nas muitas variações dos meios.


Afinal, qual a importância desse tema? A sociossexualidade, como o próprio nome sugere, se relaciona com o social da sua sexualidade, ou seja, você é uma pessoa que precisa estar apaixonado e muito envolvido com uma pessoa para transar, ou nada disso, se sente à vontade para isso ao conhecer a pessoa em uma balada? Seu comportamento sexual, crenças e motivações estão relacionados a esse tema.


Para acessar a sociossexualidade, Simpson e Gasgestad desenvolveram um questionário, o Inventário de Orientação Sociossexual, que reúne, em uma medida, atitudes e comportamentos sociossexuais, tais como: freqüências atuais e desejadas de relações sexuais, número de parceiros sexuais, freqüência de sexo extraconjugal, freqüência de sexo sem comprometimento. O instrumento permite distinguir aqueles que têm propensões mais permissivas quanto ao sexo casual daqueles que não têm.


Um dos achados mais significativos e bem estabelecidos nessa área é a da diferença entre homens e mulheres quanto à sociossexualidade. Diversos estudos foram feitos em muitos países e em muitas culturas, e em todos os homens são mais irrestritos do que as mulheres, ou seja, mais propensos ao sexo casual. Isso pode indicar que os sexos sofreram diferentes pressões evolutivas, com diferentes estratégias sexuais sendo mais bem sucedidas. O mais notável desses estudos foi o de Shmitt e colaboradores, que entrevistaram 14.059 pessoas em seis continentes, dez ilhas, 26 línguas e 48 nações, inclusive no Brasil, e em todos os homens apresentam maior propensão ao sexo casual do que as mulheres.


Os estudos de sociossexualidade também podem nos ajudar a entender diversas culturas, pois apesar de os resultados entre homens e mulheres serem diferentes, em alguns países homens e mulheres estão mais próximos na linha da sociossexualidade, e em outros, mais distantes. Ao longo do tempo, as mulheres também parecem estar aceitando melhor o sexo casual, pode-se estudar essa variação em diferentes gerações, ou diferentes idades. Enfim, muitos estudos podem ser feitos utilizando esse conceito.


Referências


Schmitt, D. P. et al. (2005). Sociosexuality from Argentina to Zimbabwe: A 48-nation study of sex, culture and strategies of human mating. Behavioral and Brain Sciences, 28, 247-311.


Simpson, J. A. Gangestad, S. W. (1991). Individual differences in sociosexuality: evidence for convergent and discriminant validity. Journal of Personality and Social Psychology, 60, 870-883.


Varella, M.A.C. (2007). Variação individual nas estratégias sexuais: alocação de investimentos parentais e pluralismo estratégico.


terça-feira, 17 de novembro de 2009

Ciúme – o que é pior para você?

Responda rápido, o que te incomodaria mais, (a) imaginar que seu parceiro teve relações sexuais com outra pessoa, tendo a certeza de que não formaram um vínculo emocional ou (b) imaginar que seu parceiro está apaixonado por essa outra pessoa, tendo a certeza de que não tiveram relações sexuais?


Se você é homem, é mais provável que tenha respondido (a), e se é mulher, que tenha respondido (b). Essa pergunta foi feita por pesquisadores em várias partes do mundo: Estados Unidos, Holanda, Alemanha, Coréia, Japão e Suécia, que encontraram, em todos esses países, que homens ficam mais perturbados com o primeiro cenário, e as mulheres, com o segundo. O que pode explicar isso?


Bem, para começar, o ciúme pode ser definido como uma reação negativa ao envolvimento sexual e/ou amoroso real ou imaginado do seu parceiro com outra pessoa. Muitos estudos procuraram investigar se homens e mulheres diferem em seu ciúme, e não encontraram que um sexo seja mais ciumento do que outro.


As diferenças, porém, poderiam estar em algum outro aspecto que não o nível de ciúme. E as circunstâncias específicas que o geram? Poderiam ser diferentes para os gêneros?


Alguns psicólogos evolucionistas sugeriram que sim. Certamente haveria alguma diferença entre homens e mulheres, já que suas biologias reprodutivas são diferentes. Nos humanos, assim como na maioria dos mamíferos, a gestação ocorre dentro das mulheres, e não dos homens. A Teoria do Investimento Parental, de Trivers, afirma que o sexo que tem gastos obrigatórios maiores com a reprodução será mais seletivo na sua escolha do parceiro do que o sexo que investe obrigatoriamente menos.


Assim, as mulheres carregam custos maiores pela gestação interna, porém não sofrem com a dúvida de que o filho é seu. Nenhuma mulher duvida de que o filho que carrega é seu, já o homem não tem 100% de certeza de que é mesmo o pai (“Mama´s baby, papa´s maybe”). A infidelidade sexual da mulher, para o homem, é um forte indicativo de que ele poderia estar criando um filho que não é seu.


Já para a mulher, que com a longa gestação e infância dependente do filho necessita da ajuda do parceiro para adquirir recursos (comida, abrigo, defesa etc), uma infidelidade sexual do parceiro pode não significar necessariamente que ele irá abandoná-la, porém se estiver emocionalmente envolvido com a outra, esse é um indício mais forte de que ele poderá deixá-la ou desviar recursos para a outra.


Por isso, David Buss criou sua teoria dos tipos de ciúme – emocional e sexual – que difeririam em homens e mulheres. Claro que tanto a traição sexual quanto a emocional são ruins para ambos os sexos, mas Buss afirma que quando temos que escolher necessariamente entre uma das duas, as mulheres acham pior a segunda, e os homens, a primeira.


Essa tendência de os homens terem um ciúme sexual maior do que as mulheres, e essas, um ciúme emocional maior do que os homens na escolha forçada, provavelmente se relaciona com nosso passado evolutivo, em que as pressões seletivas foram diferentes para homens e mulheres, por seu papel reprodutivo diferenciado.


Você pode estar pensando, mas eu não tenho filhos e não penso nisso quando penso em traição. Sim, claro, praticamente ninguém pensa nisso (embora alguns pensem). O que está em jogo quando se fala em passado evolutivo e nessa explicação são as causas últimas, ou seja, por que razões, durante nossa evolução biológica, tal comportamento teria sido selecionado? Quando, porém, se fala do comportamento ou da situação em si, ocorrendo agora, a pergunta é outra: que fatores desencadeiam tal comportamento? A resposta pode envolver vários níveis de explicação, como hormônios, neurotransmissores, causas emocionais, cognitivas, infância, traumas etc.


Imagine a cena: você combina de almoçar com sua namorada e quando chega no restaurante, ela está na mesa conversando com outro cara, e os dois estão sentados bem próximos e dando risadas. Você sente ciúme agora porque viu sua namorada conversando com outro de um jeito que considera diferente, o que pode indicar que os dois têm ou podem ter um caso, e não porque ela pode carregar um filho que é dele e você terá que criar!


O raciocínio evolucionista vem como uma outra pergunta, que não é excludente com as causas próximas, e não pode ser confundido com ela: os tipos de ciúme provavelmente foram selecionados ao longo da nossa evolução pelos motivos acima descritos, essa é a resposta distal para “por que homens têm mais ciúme sexual e as mulheres, mais emocional?”. Uma resposta proximal envolve nossa cognição, emoção, hormônios, situações da vida que desencadeiam ciúme, mudanças no comportamento do parceiro. Somos psicologicamente voltados para perceber certos sinais que desencadeiam o ciúme, homens e mulheres diferem nesses sinais, e provavelmente essa nossa psicologia de hoje é fruto de uma história evolutiva.


Alguns pesquisadores, contudo, notaram algo de estranho na explicação dos tipos de ciúme de Buss. Eles sugerem que as diferenças encontradas nas pesquisas não se deve a uma suposta história evolutiva diferenciada, e sim ao fato de que homens e mulheres interpretam a situação de infidelidade de modo diferente. Chamaram essa hipótese de double-shot (dose dupla): a infidelidade sexual e a emocional não ocorreriam independentemente, e os indivíduos não escolheriam aquele cenário que mais o perturbariam, e sim o que mais confiavelmente indicaria a ocorrência do outro tipo de infidelidade.


Os homens achariam a infidelidade sexual da parceira mais perturbadora porque se ela está tendo relações sexuais com outro, provavelmente é porque está apaixonada, e o contrário não ocorreria, necessariamente. As mulheres achariam a infidelidade emocional mais perturbadora porque se ele está apaixonado, provavelmente está também tendo relações sexuais com a pessoa, mas não necessariamente o contrário.


Pesquisadores, foram, então, atrás de evidências para essa nova hipótese, até mesmo o próprio Buss. Eles realmente encontraram que tanto homens quanto mulheres acreditam que homens podem fazer sexo sem estarem apaixonados, e que os que estão apaixonados provavelmente estão fazendo sexo. Em contraste, tanto homens quanto mulheres acreditam que as mulheres podem se apaixonar sem fazer sexo, e que as que estão fazendo sexo provavelmente estão apaixonadas.


Contudo, Buss e outros pesquisadores argumentaram que a teoria da dose dupla não provê uma explicação de porque os homens e as mulheres diferem na sua escolha pelo cenário de traição sexual ou emocional. Além disso, a teoria da dose dupla também não explica porque as mulheres tendem a fazer sexo quando estão apaixonadas, e os homens não necessariamente, o que a explicação evolutiva explica. Em resposta a essa teoria, Buss modificou seus questionários, e ainda assim encontrou que o sexo do sujeito explica a diferença entre ciúme sexual e emocional.


Veja vídeos de David Buss no Marco Evolutivo.


Referências


Buss, D.M., Larsen, R.J., & Western, D. (1996). Sex differences in jealousy: Not gone, not forgotten and not explained by alternative hypotheses Psychological Science, 7, 373-375.


Dijkstra, P. Groothof, H.A.K. Poel, G.A., Laverman, T.T.G.., Schrier, M., Buunk, B. P. (2001) Sex differences in the events that elicit jealousy among homosexuals. Personal Relationships, 8, 41-54.


Trivers, R. (1972). Parental investment and sexual selection. In B. Campbell (Ed.), Sexual selection and the descent of man, 1871-1971. Chicago: Aldine.


terça-feira, 10 de novembro de 2009

Ciência e religião - a saída pacífica de Stephen Jay Gould

Todos conhecem o velho debate evolucionismo x criacionismo, que ainda tem rendido embates, o mais conhecido deles é a tentativa de se eliminar o ensino da evolução nas escolas, ou de, pelo menos, que as duas supostas “teorias” tenham o mesmo tempo de dedicação nas salas de aula.


Sthephen Jay Gould foi um destacado paleontólogo, biológo evolucionista e filósofo da ciência, que lecionou em Harvard, e faleceu em 2002. Seu nome é freqüentemente ligado a argumentos contra a Teoria da Evolução, sendo utilizado por muitos “do lado” do criacionismo. Isso principalmente pela teoria do equilíbrio pontuado, que desenvolveu junto a Niels Eldredge, propondo um mecanismo diferente ao de Darwin para a mudança evolutiva.


A ironia é que Gould foi um dos nomes mais influentes na derrota de leis que permitiam o ensino do criacionismo nas escolas em lugar do evolucionismo nos EUA. Sua obra tem sido mal-interpretada e usada a favor do criacionismo por aqueles que pouco entendem de ciência.


No livro “Pilares do tempo”, Gould trata da relação entre ciência e religião. Longe de ter uma atitude radical contra a religião, Gould, que nesse livro se diz agnóstico, propõe uma solução para o conflito entre ciência e religião, sem desvalorizar nem atacar nenhuma delas.


O próprio admite que não é uma idéia original. Muitas pessoas têm em mente que ciência é uma coisa, religião é outra, cada uma deve ficar restrita a seu lugar, e pronto. É exatamente isso que ele propõe, ou seja, uma separação respeitosa. Apesar de alguns outros acharem que o ideal seria uma unificação entre ciência e religião, Gould é cético:


Não vejo como a ciência e a religião podem ser unificadas, ou mesmo sintetizadas, sob qualquer esquema comum de explicação ou análise: mas tampouco entendo por que as duas experiências devem ser conflitantes. A ciência tenta documentar o caráter factual do mundo natural, desenvolvendo teorias que coordenem e expliquem esses fatos. A religião, por sua vez, opera na esfera igualmente importante, mas completamente diferente, dos desígnios, significados e valores humanos – assuntos que a esfera factual da ciência pode até esclarecer, mas nunca solucionar. De modo semelhante, enquanto os cientistas devem agir segundo princípios éticos, alguns específicos à sua profissão, a validade desses princípios nunca pode ser deduzida das descobertas factuais da ciência” (p. 12).


Sua proposta é simples: a não interferência respeitosa, em que ambas seriam magistérios não-interferentes. A palavra magistério se refere aqui a uma área de autoridade acadêmica; um magistério é uma área em que um modo de ensinamento tem suas ferramentas apropriadas para um discurso e solução significativos.


O autor chama a atenção para a falácia da guerra entre a ciência e religião, que diz ter sido forçada muitas vezes. Por exemplo, na questão da terra plana. Na escola, ouvimos a história de que Colombo, o fiel representante da ciência, lutou bravamente contra as trevas da religião e ousou navegar numa Terra que os medievais acreditavam ser plana. Gould diz que todos os maiores pensadores acreditavam que a Terra era esférica, e que não houve esse embate entre Colombo e Igreja, não do modo como nos foi contado, para forçar uma batalha.


São citadas duas obras, de Draper e White, que forçam uma suposta guerra entre ciência religião, e ambas iniciam com o exemplo da terra plana. Essa guerra foi se desenvolvendo como um tema-chave da história ocidental, e nos é ensinada nas escolas. É como se as duas fossem incompatíveis, não pudessem existir juntas, e a humanidade tivesse que escolher entre uma delas. A idéia que nos é passada é a de que a ciência significa liberdade e progresso, por oposição à repressão, escuridão e ignorância da religião. Esse ponto de vista ainda é adotado por muitos intelectuais.


Gould prefere uma visão menos maniqueísta, em que ambas têm a sua importância, suas características e seu lugar na vida humana (na plenitude da vida!). O ponto de vista dos magistérios, em que cada uma se restringe ao seu âmbito, impediria maiores conflitos.


A imposição do criacionismo nas escolas é um claro exemplo de não-separação-respeitosa, pois a religião invade o que é terreno da ciência. Por isso, Gould lutou bravamente contra as leis americanas que permitiam que isso ocorresse. Ele deixa claro que não lutou contra a religião, e sim pela invasão de um magistério por outro.


“ (...) nossa batalha com o criacionismo é política e específica, de modo algum religiosa, nem sequer genuinamente intelectual. (Perdoem minha agressividade, mas, até onde pude perceber, o criacionismo da Terra jovem não oferece nada que tenha algum mérito intelectual – apenas um punhado de alegações julgadas dentro do magistério da ciência e desacreditadas de maneira conclusiva há mais de um século)” (p.102).


O inimigo não é a religião, mas o dogmatismo e a intolerância, uma tradição tão antiga quanto a espécie humana e impossível de ser extinta sem uma eterna vigilância (...)” (p.118).


O autor mostra que a resistência contra a teoria de Darwin aparece também porque as pessoas tiram lições morais de fatos científicos. “(...) a verdade factual, da maneira como for constituída, não pode ditar nem sequer sugerir a verdade moral.”, interpretando que o darwinismo é uma defesa da guerra, dominação e exploração doméstica. Esse seria um exemplo de invasão da ciência para outros magistérios, não só a religião, como os valores sociais e culturais. “(...) a ciência não pode ditar uma política social” (p.133).


Referência


Gould, S.J.(2002) Pilares do tempo. Rocco: Rio de Janeiro.


quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Simpósio em Psicobiologia





Para inscrição online: www.cb.ufrn.br/simpsicobio

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Você prefere ganhar R$ 100,00 hoje ou R$ 200,00 no mês que vem?


Muitas pessoas respondem que preferem ganhar R$ 100,00 hoje, mesmo que o valor no mês que vem seja maior. Por quê?

A preferência por uma recompensa imediata a uma maior, mas mais tarde, é um dos comportamentos mais conhecidos no reino animal. Não são só os humanos que o fazem, como também os outros animais. Pombos famintos que têm que escolher entre bicar um aparato que lhes fornece comida imediatamente por dois segundos ou um que lhes fornece comida por seis segundos, porém 10 segundos mais tarde, preferem a primeira situação.

Foi feito um experimento com crianças pequenas, que tendo que optar entre receber um brinquedo atrativo em cinco minutos ou um menos atrativo imediatamente, escolhiam o último (Mischel, 1984 citado em Baron, 2008).

Nós parecemos ser, de certo modo, injustos com nossos futuros, como que temporariamente míopes quando encaramos uma situação em que temos que decidir entre o agora ou o depois. Dar menos peso para o futuro do que para o presente é chamado de desconto do futuro (discounting the future). Trata-se de preferir consumir e adquirir recursos de modo mais imediato do que esperar pelo futuro – desconto do meu futuro para ter agora. Na psicologia em geral, o desconto do futuro é mais conhecido como impulsividade (Ainslie, 1975 citado em Baron, 2008). Por que isso acontece?

Para Daly & Wilson, pesquisadores envolvidos com o tema, o imediato é preferido porque o adiamento do ganho de recursos ou benefícios aumenta o risco de que ele seja perdido de alguma maneira. Sob uma perspectiva evolucionista, em condições equivalentes, a seleção natural favorecerá a reprodução que ocorrer mais cedo em comparação com a tardia. Esses autores fizeram várias pesquisas relacionadas à violência, pois tal indiferença em relação ao futuro pode encorajar formas imprudentes e violentas de comportamentos de risco.

Quanto à diferença entre os sexos, encontraram que os homens apresentam-se mais propensos que as mulheres a correr riscos e a descontar o futuro, provavelmente porque os ancestrais masculinos tinham que competir pelas fêmeas, sendo favorecidas adaptações para a competição intra-sexual e avaliação de risco. Essa hipótese, hoje em dia, parece apresentar uma resposta às evidências de diferença intersexual quanto às altas taxas masculinas de acidente, homicídio, suicídio, uso de drogas e contração de doenças sexualmente transmissíveis, em comparação às femininas (Daly & Wilson, 2001).



Baron (2008) traz um outro argumento. Para ele, o desconto do futuro faz sentido porque eventos imprevistos podem afetar a importância ou utilidade do bem de consumo (ou outra coisa) para um indivíduo. Por exemplo, no tempo decorrido entre agora e quando você conseguir ganhar R$50,00, a economia pode ser assolada por uma onda de inflação que faça com que o dinheiro valha menos, ou então você pode morrer, ou, numa versão mais otimista, você pode ganhar na loteria e se tornar um milionário, sem necessidade de tal quantia insignificante. Ainda que o desconto possa ser útil, as pessoas têm descontado seu futuro demais, de modo que pode ser danoso para elas.

Exemplos envolvem casos de violência, como os estudados por Daly & Wilson, mas também podem ocorrer em eventos mais corriqueiros, por exemplo, na hora de comer. Descontar o futuro na comida ocorre quando, por exemplo, você vai a uma festa e come muito mais do que precisaria para ficar satisfeito. Isso pode refletir, dentre outros fatores, a tendência a acumular o máximo possível de recursos de uma vez, antes que eles acabem e que haja uma chance de você não ter mais acesso a eles no futuro.

Exemplos de desconto do futuro na área econômica são fartos. Um exemplo é o estudo de Thaler & Shefrin sobre compra de ar-condicionado. Os aparelhos de ar-condicionado diferem em seu custo inicial e nas despesas de uso. Esses pesquisadores encontraram que as pessoas prestam mais atenção ao custo inicial do que nas despesas de uso, que só serão pagas no futuro, depois que o ar-condicionado já tiver sido instalado. Essa mesma situação provavelmente ocorre na compra de muitos outros produtos: carro, computador, geladeira etc.

Muitas pessoas são conscientes da dificuldade de auto-controle e de sua tendência a negligenciar o futuro. Quando vêem uma situação que requer auto-controle, normalmente dão um jeito de se auto-restringir (bind themselves), mesmo se tiverem que pagar para fazer isso. O auto-controle é assunto para outro post...

Referências

Baron, J. (2008) Thinking and deciding. Cambridge university press.

Daly, M. & Wilson, M. (2001) Risk-taking, intrasexual competition, and homicide. Nebraska Symposium on Motivation, v. 47, p. 1-36.

Daly, M. & Wilson, M. (2005) Carpe Diem: Adaptation and Devaluing the Future. The Quarterly Review of Biology, v. 80, p. 55–60.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Cognição social


Para falar dessa área de estudo pouco conhecida por essa denominação, que é a cognição social, é preciso falar de outras, que a precederam. Uma é a psicologia social, que pode ser entendida sucintamente como o estudo do modo como os pensamentos, sentimentos e ações das pessoas são influenciados pelo ambiente social. Um famoso experimento da psicologia social é o de Milgram (1974), sobre a obediência.

Outra área é a da psicologia cognitiva, que é o estudo das habilidades mentais, como a percepção, a linguagem, a memória, a aprendizagem, a resolução de problemas, em que a mente é pensada numa analogia com um computador, uma processadora de informações. Um estudo famoso da área é sobre o fenômeno stroop (Stroop, 1935).

A cognição social nasceu da soma da psicologia social com a psicologia cognitiva, e é o estudo de como as pessoas fazem sentido do seu mundo social: como percebem, representam, interpretam e lembram de informação sobre elas mesmas e sobre outros indivíduos e grupos. As teorias e as metodologias da psicologia cognitiva são aplicadas às questões da psicologia social clássica.

O que a cognição social pode estudar? Um exemplo é o fenômeno de estereotipia. Na psicologia social clássica temos experimentos sobre competição e aprendizado social e influência da norma. A cognição social foca no processamento de informações, introduzindo novas metodologias e teorias. Por exemplo, no fenômeno de estereotipia pode ser citado o estudo sobre o fenômeno stroop e a percepção de pessoas (Karylowski, Motes, Curry & Van Liempd, 2002), em que nomes de pessoas famosas negras e brancas foram escritos com as cores branca e preta. As pessoas liam mais rapidamente a cor em que as palavras estavam escritas quando correspondia à cor da pessoa famosa do que quando não correspondia.

Outros possíveis estudos são: o que leva as pessoas a verem o copo “metade cheio” ou "metade vazio”? Por que tendemos a achar que estamos acima da média? Por que achamos errado comermos nossos animais de estimação, mas não as vacas?

Para Lewis e Carpendale (2008), o termo cognição social é enganosamente simples. Aparentemente se refere ao entendimento do mundo social, mas esconde um longo debate entre os modelos cognitivos do comportamento social e o desenvolvimento, e tem, ainda, a pretensão de entender as origens sociais da cognição.


Referências


Karylowski, M.A. Motes, D.C., Van Liempd. (2002) In what font color is Bill Cosby's name written? Automatic racial categorization in a Stroop effect. North American Journal of Psychology.

Lewis, C., Carpendale, J. (2008) Social cognition: introduction. Cognitive systems research 9, 375-393.

Milgram, S. (1974). Obedience to authority. New York: Harper & How.

Stroop, J.R. (1935). Studies of interference in serial verbal reactions. Journal of Experimental Psychology, 18, 643–662.

domingo, 27 de setembro de 2009

Publicar em Psicologia - disponibilização de livro


Vários autores colaboraram para a confecção do livro Publicar em Psicologia, que tem o objetivo de auxiliar estudantes, autores, editores e demais interessados na publicação científica em Psicologia. Estou falando desse livro aqui no blog porque os autores fizeram um blog sobre o livro, e disponilizaram o livro inteiro para download!!

Ainda não tive a oportunidade de lê-lo, mas o farei assim que possível. Pelo gabarito dos autores, com certeza é uma boa publicação.

Muitos bons pesquisadores, seja da graduação, pós-graduação e até mesmo pessoas mais experientes e há mais tempo na área científica às vezes têm dificuldades para publicar. Para os mais experientes, a maior dificuldade costuma ser ter o artigo aceito para publicação, porque muitos são recusados. Para os mais novos, a dificuldade pode ser: como escrever? como organizar meu texto? em que língua escrever? em que revista publicar?

Fora que há questões mais específicas sobre a área da psicologia, e penso que o libro também teve esse intuito. Há, no mercado, muitos manuais de ajuda em escrita científica, mas é difícil encontrar algum voltado para a psicologia, que tem suas características específicas. É comum os manuais citarem exemplos da área da física, química e biologia, falando menos das Ciências Humanas. Além disso, a psicologia está num campo de intersecção entre vários campos de conhecimento, envolvendo as humanas, as biológicas e as exatas.

Enfim, gostaria de parabenizar os autores e organizadores pela iniciativa de disponibilizar o livro inteiro para download gratuito, além de criarem um blog para a discussão e trocas de ideias. Boas iniciativas como essa merecem divulgação.