quarta-feira, 16 de abril de 2008

Como lidamos com o sofrimento

Não, não darei 10 dicas de como acabar com o sofrimento. Se você conhece meu blog, sabe que não sou adepta desse tipo de coisa. Quero é pensar um pouco em como temos encarado o sofrimento. Acho que sei como começar. Certa vez estava eu em uma determinada aula, de uma professora X, que disse o seguinte: “Só com o sofrimento é que nós crescemos” e continuou a referida aula sustentando esse discurso.

Trata-se de uma noção corrente, bem popular, eu diria. E que, à primeira vista, não tem nada de errado, e até soa bonito. É algo bem legal de se dizer a alguém que está passando por maus bocados: “pelo menos isso vai te deixar mais forte, vai te fazer crescer...”. A minha primeira pergunta é o que significa ser mais forte e crescer. Já vimos em postagem anterior que um bom jeito de não se dizer nada ou de ludibriar alguém é não definir bem os termos, usar conceitos vagos. Vou tentar uma definição: vou considerar que ser mais forte e crescer é ter mais experiência de vida, saber lidar com mais situações, ter bagagem para enfrentar mais acontecimentos.

Se for esse o caso, porque só o sofrimento me permitiria isso? Não aprendemos também com a alegria? Com a raiva? Com o amor? Com a paixão? Com o medo? Com a ansiedade? Com a felicidade? Enfim, com toda a gama de emoções e sentimentos humanos?

Essa idéia de que só o sofrimento nos leva a crescer, para mim, tem duas raízes. Uma delas está em nossa própria psique ou mente, que são mecanismos de defesa e de diminuição de dissonância cognitiva. Vou explicar. Imagine uma mãe cujo filho é brutalmente assassinado pela violência urbana. Essa mãe sofre. Para acalmar a si mesma ou para os outros a acalmarem, seria bom pensar que pelo menos esse sofrimento vai levar a alguma coisa, vai me deixar mais forte, vai me fazer crescer. A situação é tão desoladora que temos que achar algo de bom nela, daí falamos que sofrer tem uma grande utilidade.

A segunda raiz está nas religiões. Achar um porque para as coisas é uma especialidade das crenças religiosas. Por que nós, perfeitos cristãos, sofremos tanto? Deve ter um porque, claro, se não seria injusto (e o mundo não é nada injusto para as religiões). Claro que, como Deus pensa em tudo e nada é por acaso, o sofrimento por qual você está passando é uma provação. Vai te fazer ser ainda mais religioso, vai te fazer prestar mais atenção em seus pecados, assim, vai te fazer bem. “Paulo afirma que o sofrimento é um meio que Deus usa para aperfeiçoar o caráter dos cristãos”; “Quando você estiver sofrendo pelas mais variadas razões, lembre-se de que você não é um desafortunado, mas um amado de Deus. Os sofrimentos pelos quais você tem passado são maneiras belamente estranhas de Deus fazer bem à sua vida”; “É Deus que nos capacita para confortar no sofrimento de outros – O sofrimento é uma excelente escola, onde aprendemos a consolar e confortar as pessoas da mesma maneira como Deus o faz” (trechos pegos em sites religiosos).

Quem fica feliz com essa bobagem toda são líderes políticos, afinal, para quê se revoltar contra a pobreza, miséria, violência, desigualdade social, se tudo está aí porque tem um motivo? Você que está passando fome, cujo filho morreu assassinado, que leva três horas para chegar ao seu local de trabalho, cuja casa foi levada pela enchente, cujo salário é roubado em forma de impostos, não se revolte, afinal seu sofrimento te faz bem. E nada é por acaso, tudo é destino. Logo, se você está tendo que enfrentar isso, é porque mereceu, seja nessa vida ou na outra você fez muita besteira e agora deve pagar por isso. Com seu sofrimento, você vai crescer, aprender, e se livrar do karma, dívida ou algo que o valha, e receber sua merecida recompensa depois da morte (porque em vida, nem pense!).

E como esse discurso fraco, mas ao mesmo tempo sedutor tem nos enganado...

Voltemos ao exemplo da mãe cujo filho foi brutalmente assassinado. Sim, eu até acho que pode ser importante ela pensar que o sofrimento a fará crescer, afinal, é mais uma experiência de vida, por terrível que seja, e pensar assim pode confortá-la por um momento. O que eu discordo totalmente é de que o filho dela tinha que morrer para ela crescer, ou que ele veio para isso (sua missão na Terra), e que ela considere que só o sofrimento a levará ao tal crescimento. Não, eu não acho que ninguém se torna melhor por ter seu filho assassinado ou por sofrer o diabo na vida. Essa é uma maneira de pensar que nos ajuda a lidar com as injustiças, dando sentido a elas. Porém isso faz com que a realidade seja distorcida. O fato é que o filho dela foi assassinado e isso não tinha que acontecer!
Ele foi assassinado porque existem pessoas muito ruins, porque falta policiamento, porque nosso país tem uma desigualdade social avalassaladora que permite que o crime floresça etc e etc. Dizer que tinha que acontecer é se enganar e se dopar frente a realidade. Ontem mesmo quando via televisão escutei um entrevistado dizer: “A menina (que foi jogada do sexto andar de um prédio e morreu) veio para nos dar a lição do amor”. Essa pessoa vive no mundo da fantasia e dos duendes felizes – porque no meu mundo, a menina foi vítima de uma grande maldade, que poderia e não deveria ter ocorrido.

Discordando do que “só o sofrimento nos faz crescer” não quero cair para o lado oposto de que nunca deveríamos sofrer. Até porque a venda de antidepressivos tem estourado e os psiquiatras os receitam até para unha encravada. Todas as experiências humanas são válidas, evitar o sofrimento a qualquer custo pode não ser nada bom, ele faz parte de um processo humano, como no luto, por exemplo. Eu só não acho que precisemos sofrer para crescer. Até porque essa idéia levada ao extremo faria com que ficássemos jejuando, nos batendo com instrumentos dolorosos, pensando repetidamente das desgraças da vida.... hum, isso não me é tão estranho...
Um apoio da neurociência para essa discussão:
" Prazer faz bem - Temos no cérebro uma estrutura de cerca de 1 cm de diâmetro chamada de Núcleo Accumbens, com poderes particularmente interessantes: ela nos permite sentir prazer. Quanto mais intensa for a sua ativação, maior é a sensação alcançada, que vai da leve sensação à franca euforia. Ativar esse processo é algo simples e ao nosso alcance, que podemos fazer várias vezes ao dia. Basta fazer algo que o cérebro considere que deu certo: resolver mentalmente um problema, concluir um trabalho, passar de fase no video game, beijar pessoas amadas, comer algo que gostamos ou ouvir boa música. Ao reconhecer que fomos bem sucedidos em algo, que atendemos às expectativas, ou admitimos que somos interessantes por alguma razão, o córtex cerebral providencia uma dose de dopamina para o núcleo accumbens, quanto mais o núcleo recebe esse neurotransmissor, mais prazer nos proporciona. Os mecanismos que promovem essa sensação, porém, ainda são um mistério para a ciência. Este prazer com o que fazemos corretamente - proporcionado pelo accumbens e estruturas associadas a ele, que formam o sistema de recompensa do cérebro - é a base neurológica da satisfação e a auto-estima. A motivação, que nos impulsiona às mais diversas realizações, quando o sistema de recompensa é precocemente ativado, antevemos um resultado positivo. O otimismo funciona de maneira semelhante: ter atitude e expectativas positivas em relação à vida, favorece a ativação antecipada do sistema de recompensa, aumenta a satisfação com os feitos alcançados, suas chances de fazer algo dar certo, faz você lidar melhor com situações negativas e até melhora a resistência a doenças."
Fonte: revista Mente & Cérebro, setembro de 2008. "De bem com seu cérebro", por Suzana Herculano.

9 comentários:

Wild disse...

Concordo com você em parte Isa, porém me parece lógico afirmar que o sofrimento é um sentimento que nos faz aprender mais do que os outros.
Uma vez ouvi dizer de um professor de biologia que o ser humano tem um sistema instintivo de reconhecimento de erros onde ele marca bem na memória as falhas, para que elas não se repitam mais. Dessa forma, aprenderíamos mais com nossos erros do que com nossos sucessos. Eu nunca vi nenhuma linha de raciocínio na psicologia que falasse sobre isso, então talvez meu professor tenha inventado a coisa toda =P. Porém, acredito que até faça um certo sentido.
Nossas falhas são sempre lembradas muito mais facilmente que os sucessos e me parece que quando o resultado de algum curso de ação é o sofrimento, existe uma mudança de comportamento que pode ser caracterizada como aprendizado.
Eu sei que não tenho muita base teórica pra afirmar tudo isso, mas esse é um parecer que tenho de acordo com o que conheço até o momento. Resumindo, concordo que o sofrimento não é a única maneira de potencializar um aprendizado, mas me parece que é uma das maneiras mais efetivas.

Alef disse...

Concordo muito com você, Isa. Gosto de pessoas que desafiam o senso comum.

E Wild, me desculpe, mas não me parece nada lógico pra mim afirmar que o sofrimento é o que nos faz aprender mais do que os outros. Baseado em que você diz isso? Não é só porque Nietsche disse que faz algum sentido, aliás, ele é filósofo e não cientista. Eu acho que com o ócio vc aprende muito mais sobre as coisas, porque tem tempo pra pensar. Assim que os grandes pensadores da antiguidade descobriam coisas: eles não tinham mais nada pra fazer a não ser pensar! Sofrimento não necessariamente faz vc aprender mais coisas... em premissa vc se baseia pra falar que é uma das maneiras mais efetivas? Por que é tão efetivo assim? O que você já aprendeu com o sofrimento?

E tudo bem reconhecer erros, mas imagina que alguém invade sua casa que é toda protegida com todos os recursos, vem e mata seu filho. Não houve erro de sua parte no caso, e mesmo assim vc sofre.

Mas concordo que aprendamos mais com os erros do que com os acertos.

Abraços

Isabella Bertelli disse...

Acho que aprender com o sofrimento é diferente de aprender com o erro. Claro que aprendemos com nosso erros (também, eu diria). O que critico é uma visão de que o sofrimento, em si, seria a única forma de crescimento.

kk disse...

Me embasei num texto da professora Vera Silvia Raad Bussab e da professora Emma Otta para afirmar algumas coisas. Se a associação que fiz pode ser considerada correta, onde depressão = sofrimento, veja o que diz o texto:
"A suspensão de atividades comportamentais na depressão, acompanhada de intensa atividade cognitiva, sugere esforço de reconstrução de modelos do mundo, eliminando as condições que levaram à própria depressão, muitas vezes associadas a fracassos em investimentos comportamentais intensos, incapacidade de manter contato afetivo com uma determinada pessoaou conservar uma situação social."
Se definimos aprender como alterar seu comportamento de maneira relativamente permanente e resultante de prática anterior, acho lógico dizer que se aprende mais na depressão do que na alegria.
No caso citado do assassinato de um filho, talvez uma mãe possa aprender em relação à segurança do lar que ela mantinha, coisas como localização, tipo de proteção e etc... é difícil imaginar um caso de assassinato onde os envolvidos são completamente alheios às condições que os levaram ao caso. Concordo, porém, que talvez essa mãe tenha menos a aprender do que na maioria dos casos.

Dusi disse...

Achar que o sofrimento é destino realmente me parece um equivoco.
não discordo do caráter ideológico de alguns elogios ao sofrimento, mas não acho que tenha como negar que o sofrimento, assim como a felicidade, sao parte do processo "pedagogico" interno do cerebro. O sofrimento esta para o pensamento assim como a dor está para o tato.

O sofrimento da mãe que vê o filho morrer é um instinto. Não teria funçao evolutiva?

rafael dusi
google: clube da evidencia

Cerli disse...

Não tenho embasamento cintífico nenhum, mas apenas como bservadora e alguma história de vida, aprendi muito com as perdas e o sofrimento.
afirmo. o crescer muito ou pouco depende de como você se coloca diante de uma sistuação 'sofrida', de como encara suas dores.

para um, perder um dedo num acidente pode ser uma lição pra valorizar a vida, pra outro pode ser uma lamentação eterna. quem aprendeu mais?

eu não precisei perder um dedo, mas se hoje perdesse (com a graça de deus que me abençoe) iria agradecer pela vida.

Sds.

o comentário não tem pretenssão nehuma, apenas quis me expressar.

Sds
CErli
vila velha es
c_capixaba@hotmail.com

Silas disse...

como eu disse num post anterior, o prazer tende a bastar-se a sí próprio enquanto a dor tende a buscar uma razão.
quando a razão é visívelmente uma injustiça as pessoa inventam esses "era pra ser assim" para fugir do sofrimento.

o sofrimento é analogo tanto no corpo (dores fisicas) quanto na mente(decepções amorosas, perdas de entes queridos)

quanto mais nós sofremos mais enestesiados vamos ficando.

há momentos em que sofremos tanto que as sensações boas vão embora:ficamos com uma armadura protetora contra o mundo injusto e acabamos por não sentir nenhum prazer.

quero crer que não devemos fugir de sentimento nenhum pois em cada situação nós vamos descobrindo nossa própria individualidade.

Dennina disse...

Penso que toda experiência vivenciada traz crescimento e aprendizado, seja ela de sofrimento ou alegria; porém, acho que ao passar por situações de sofrimento, o indivíduo começa a questionar muitas coisas, a buscar respostas, a refletir sobre o ocorrido. Talvez essa seja uma característica (além das citadas por você)que faça com que aqueles que viveram intensamente uma dor acreditem que é só através do sofrimento que se cresce.
De maneira geral, penso que essa reflexão não ocorre em situações de felicidade. As pessoas tendem a desfrutar dos bons momentos, mas não a analisá-los, a tentar compreendê-los. Talvez essa seja uma diferença a ser considerada nessa questão.
Parabéns pelo blog, Isabella!

roberton bene disse...

Olá parabéns pelo blog não concordo com a ideia de valorização do sofrimento. Conheço Algumas pessoas que valorizam o sofrimento uma parte delas não sofre, mas já sofreu no passado outra parte sofre e não tem respostas a esse sofrimento, ambas partes com essa ideia se mantem em um lugar de conforto. Acredito que o conforto que eles acharam é o que os fez, ou os fazem crescer. ‘Fazer algo que o cérebro considere que deu certo: resolver mentalmente um problema, concluir um trabalho. Ao reconhecer que fomos bem sucedidos em algo, que atendemos às expectativas, ou admitimos que somos interessantes por alguma razão, Este prazer com o que fazemos corretamente - proporcionado pelo accumbens e estruturas associadas a ele, que formam o sistema de recompensa do cérebro. O prazer, que os cientistas chamam recompensa, é uma força biológica mui¬to poderosa para nossa sobrevivência. Se fizer algo prazeroso, isso é registra¬do no cérebro de tal modo que tende a fazer isto novamente. A satisfação com os feitos alcançados, aumenta suas chances de fazer algo dar certo, faz você lidar melhor com situações negativas e até melhora a resistência a doenças. O desprazer ou aquilo que o faz, sofrimento, dor, é registrado também e de tal modo tende a ser evitados expulsos do corpo, como defesa. A termos cristãos “Paulo afirma que o sofrimento é um meio que Deus usa para aperfeiçoar o caráter dos cristãos” caráter não crescimento. Sofrimento sempre como um estado temporário para um estado permanente desejável, prazer “aperfeiçoamento”. Prazer e sofrimento: • A verdade e a mentira; • O bem e o mal; • O amor e o ódio; • A recompensa e a cobrança; • O crédito e o débito; • O moral e o imoral; • O positivo e o negativo; • As trevas e a luz; • O céu e o inferno; • O direito e o dever e muitas outras. Ética moral é uma reação irracional baseada no “tudo vale”, diante de fatos ou momentos previsíveis ou não. Costuma-se dizer que a ética é algo que todos sabem, mas que não é fácil de explicar. Isto ocorre justamente porque ela está muitas vezes na dependência de fatos e sentimentos abstratos ou o que não conseguimos ver ou tocar. A sua aplicação é infinita, principalmente quando nos dispomos a considerar novos paradigmas, isto é, novas formas, novos modelos, o que significa possibilidades de mudanças. Lembre-se às mudanças são traumáticas e exigem cautelas.