sexta-feira, 11 de abril de 2008

Não temos direito ao conceito, só ao preconceito

Preconceito: pré-conceito, juízo preconcebido, conceito formado antecipadamente.

Tenha reparado que a palavra preconceito está na moda. Praticamente tudo é preconceito. Agora não temos mais direito ao conceito, só ao pré-conceito. Vou dar um exemplo da psicologia, porque é minha área. Ouvi alguém fazendo um comentário sobre o behaviorismo, dizendo que sente horror ao ler os textos dessa linha, porque acha que são muito frios, considerando que o ser humano funciona como um robô. A outra pessoa então retrucou: Mas que preconceito! Tem muito preconceito com o behaviorismo!

E assim temos considerado várias outras coisas: se não gostamos de algo, logo, a atitude é preconceituosa. Essa classificação generalizada pressupõe um absurdo: que, se realmente conhecêssemos aquilo (e assim sairíamos do preconceito e chegaríamos ao conceito) gostaríamos daquilo. Ou seja, temos que gostar e aceitar tudo, porque do contrário, é preconceito.

E quando teremos direito a não gostar ou aceitar algo mesmo conhecendo bem o assunto, ou a coisa? Quem disse que aquela pessoa que falou que não gosta do behaviorismo, não o conhece direito? E se conhecer? Não terá direito de achar que os textos são muito frios, considerando o ser humano um robô? Será que a pessoa não tem direito a uma interpretação dela mesma?

Outro absurdo do não direito ao conceito é a pressuposição de que todo mundo é igual. Se aquela pessoa realmente conhecesse o behaviorismo, gostaria dele. Se aquela pessoa conhecesse de verdade a psicanálise, gostaria dela. Porque se o indivíduo não tem direito a criticar o behaviorismo ou a psicanálise, já que seria enquadrado em preconceito, ele não tem individualidade, não tem opinião própria, é só um desinformado que ainda está na fase do juízo preconcebido.

Nesse mundo em que a palavra preconceito ganhou alto status, em que você reconhecê-lo em você mesmo ou nos outros é atitude politicamente correta, temos usado o termo muito mal. Claro que não estou propondo o abandono do termo, coisa impossível e sem sentido. Há preconceito, ele existe e deve ser combatido em muitos casos (exemplos: preconceitos racial, de classe social, de gênero etc). O que proponho é que o uso da palavra em toda e qualquer situação também seja combatido, até para a palavra não se tornar tão banal que já não signifique mais nada.

3 comentários:

OK disse...

Oi, estou visitando os novos blogs do ABC. Não li mas já gostei! (por causa da lista de tags). Isabella, não sei se é um preconceito meu, mas como as pessoas não tem tempo para ler e se inteirar de tudo, em geral dão opinião sobre coisas que conhecem pouco. Nada é preto ou branco, tudo são gradações de cinza (ou morenice?). Ou seja, não seria melhor perguntar: 1) quais as questões que o tal escola de pensamento considera ou tenta responder; 2) quais são as virtudes de sua abordagem; 3) quais são suas fraquezas ou problemas em aberto. Agora, precisamos lembrar que reações emocionais não são argumentos. Já imaginou no futuro dois robôs conversando, e um deles dizendo que não aceita o behaviorismo por que isso implicaria que ele seria "um mero robô"? Mas é claro que as pessoas em geral defendem opiniões por suas consequencias emocionais, não por argumentos lógicos. Será que a definição de preconceito é "basear sua opinião em suas reações emoionais em vez de argumentos?" Por outro lado, sabemos que as emoções podem ser um processamento de informação importante por vias não conscientes. Ou seja, há muito preconceito não só contra a razão, mas também contra a emoção.

Isabella Bertelli disse...

Sim, "ok", concordo com você. As pessoas falam muito do que não sabem. E, realmente, o argumento de que "a abordagem vê as pessoas como um robô" não é forte. Foi só um exemplo exagerado. De qualquer forma, não sei se eu chamaria isso de preconceito. E quanto a essa divisão entre emoção e razão, eu acho complicada. Não dá para separar. Sem emoção a cognição não acontece, como diria Damásio. Eu acho que há vieses cognitivos que nos levam para certos caminhos, interpretando certas coisas de um certo jeito. Ainda assim não diria que isso é preconceito, é um conceito, adequado para uns, inadequado pra outros.

Silas disse...

aos 16 anos de idade alguém disse que eu tinha preconceito a respeito do cristianismo.

eu pensei:será que tenho?

simplesmente analisei a palavra que estava pronunciando e vi que preconceito seria pré-conceber.
ou seja, dar palpites sobre o que eu não conhecia e eu não estava sendo preconceituoso.
eu tinha um conceito, só que as pessoa geralmente não avaliam o que dizem, só dizem, talvez para ter algo pra dizer e não parecer que têm uma mente vazia.

isso é uma questão básica de saber o que está falando:se um indivíduo abre a boca para falar palavras das quais não conhece o significado exato provavelmente ele emitirá uma idéia da qual ele não conhece o significado.

daí poderíamos concluir, talvez, que um individuo que acusa outros de serem preconceituosos sem conhecer o significado do termo estão sendo preconceituosos sem saber.

quanto a não respeitar a opinião dos outros eu aprendi na marra discutindo religião.

não há verdades absolutas e eu fico com Nietzsche:convicções são prisões.

posso estar errado mesmo nisso que escrevo e rio dos ensaios sobre psicologia que e escrevia a uns anos atrás.

comentei alguns posts e fui muito indelicado ao não te dar os devidos cumprimentos:
que vivam para sempre pessoas como você que dão ouvidos ao bom senso!