quinta-feira, 28 de agosto de 2008

O luto na morte de animais de estimação


Possuir animais de estimação é uma atividade muito comum entre os humanos, e as pessoas dedicam muita afeição e dinheiro a eles. Vários exemplos como oferecer recompensas quando eles são perdidos, pagar por cuidados médicos, comprar-lhe presentes, alimentá-los e até mesmo disputar sua guarda judicialmente mostram a importância do apego emocional dos donos com seus animais de estimação (Archer, 1996).

Há poucos estudos sobre a relação humanos e animais de estimação em termos de apego, um conceito elaborado por Bowlby e usualmente aplicado para relações próximas entre membros da mesma espécie, incluindo humanos. O apego remete à formação do vínculo com as pessoas e às características das interações sociais vivenciadas entre elas.

Katcher e colaboradores (1983, citado em Archer, 1996) construíram um questionário contendo sentenças que indicavam um possível apego com um cachorro de estimação, como, por exemplo, carregar a fotografia do cachorro, deixá-lo dormir em sua cama, freqüentemente falar e interagir com ele, e defini-lo como um membro da família. Os dados indicaram altos níveis de apego entre donos e seus cachorros. Quase a metade definia seu cachorro como um membro da família, 67% carregava uma fotografia dele em sua carteira, 73% deixava eles dormirem em sua cama e 40% comemorava o aniversário do cachorro. As mulheres apresentaram um apego mais forte com seus animais do que os homens.

Um outro estudo mais elaborado, feito por Archer e colaboradores (citado em Archer, 1996), também mostrou forte apego por parte de muitos donos, com uma considerável proporção endossando itens tais como ver o animal como uma importante parte de suas vidas e como aquele que promove um senso de conforto.

Estudos sobre as reações à perda de um animal de estimação mostram como é forte o apego desenvolvido. Usando o modelo da teoria de apego (Bowlby, 1969, 1973, citado em Archer, 1996), Parkes (1986, citado em Archer, 1996) se referiu ao pesar de perder um animal de estimação como o custo de perder uma pessoa amada. O processo de luto envolve angústia e pensamentos e sentimentos que acompanham o lento processo mental de se despedir de uma relação estabelecida. Evidências sistemáticas indicam que há claros paralelos entre as variadas reações que as pessoas apresentam seguidamente à perda de um animal de estimação àquelas sentidas por uma perda de um relacionamento entre humanos (Archer, 1996). Várias investigações específicas de luto seguido à perda de um animal de estimação têm sido feitas.
Há estudos que tendem para uma descrição mais qualitativa, mostrando paralelos entre o luto seguido da morte de um humano e da morte de um animal de estimação. Stewart (1983, citado por Archer, 1996) relatou que uma minoria de sua amostra (18%) ficou tão perturbada que foi incapaz de continuar com sua rotina normal, e um terço descreveu si mesmos como muito angustiados. Dunn e colaboradores (1992, citado por Archer, 1996) estudaram uma amostra de aproximadamente 1.000 donos de animais de estimação aflitos nos Estados Unidos e encontrou que o luto foi breve, porém intenso. Tristeza ainda era aparente em metade da amostra um mês após a perda, e choro e culpa em aproximadamente um quarto.

Archer e Winchester (1994, citado em Archer, 1996) incorporaram aspectos da reação de luto conhecidas de estudos de luto por perdas humanas (Parker, 1986, citado em Archer 1996) em um questionário de 40 itens, que foi completado por 88 britânicos que haviam perdido um animal de estimação no ano antecedente. Muitos itens foram endossados pela maioria da amostra: por exemplo, 74% disseram que seus pensamentos voltavam e voltavam para a perda do animal de estimação, e 60% disseram que se sentiram atraídos por animais que lembravam o animal perdido. Contudo, comparado com o que podemos esperar no caso de aflição humana, havia uma proporção menor de pessoas que se sentiram depressivas ou ansiosas ou nervosas como um resultado da perda.

Similarmente, em uma pesquisa com grande amostra de casais de meia idade nos Estados Unidos, Gage e Holcomb (1991, citado por Archer, 1996) encontraram que a morte de um animal de estimação é percebida como menos estressante que a morte de um parente ou amigo próximos. Em outra amostra grande, com pessoas idosas nos Estados Unidos, Rajaram e colaboradores (1993, citado por Archer, 1996) encontraram que a morte de um animal de estimação foi associada com índices de depressão bem menores do que nos casos de morte de uma pessoa significativa, como o cônjuge.

Em contraste, dois outros estudos nos Estados Unidos que usaram uma versão adaptada das escalas usadas para verificar o luto humano (The Grief Experience Inventory [GEI]; Sanders et al, 1985; citado em Archer, 1996) encontraram que os níveis seguidos da perda do animal de estimação são comparáveis àqueles encontrados após a perda de um ser humano amado. Drake-Hurst (1991, citado por Archer, 1996) comparou as respostas de luto de pessoas que haviam perdido um animal de estimação com aquelas que haviam perdido um cônjuge e não encontraram diferenças significativas em 9 de 12 escalas GEI. Gerwolls e Labott (1994, citado por Archer, 1996) fizeram um estudo longitudinal do luto seguido à perda do animal de estimação e encontraram valores comparáveis com figuras de modelos de perda de um dos pais, do filho ou cônjuge (Sanders et al, 1985, citado por Archer, 1996).

Archer e Winchester (1994, citado por Archer, 1996) projetaram uma avaliação grosseira do apego emocional com seus animais de estimação e encontraram paralelo com o escore total de luto obtido de um questionário. Outros estudos (Gerwolls e Labott, 1994; Gosse, 1989; Gosse e Barnes, 1994, citado em Archer, 1996) também encontraram a avaliação da intensidade do apego com o primeiro animal de estimação como preditora de medidas de intensidade de luto. Esses achados dão apoio à posição geral de Parker de que a intensidade do luto indica a intensidade do apego - em outras palavras, o custo do relacionamento.

Essas são evidências de várias fontes de que o apego com animais de estimação pode ser intenso, e quebrar esse laço pode, em vários casos, induzir a uma reação de luto de severidade comparada à perda de uma relação humana próxima (Archer, 1996). Apesar de o luto seguido à perda de um animal de estimação ser comumente severo, Baydak (2000) considera que ele não é largamente reconhecido em nossa sociedade. Ele seria um luto não-autorizado, entendido como o luto que uma pessoa vive quando tem uma perda que não pode ser abertamente reconhecida, chorada publicamente, ou socialmente apoiada.

Para Baydak, quando a perda está de acordo com as normas sociais, o luto individual é suportado pela rede social, o que facilita tanto o processo de luto quanto a coesão social. Quando isso não acontece, e a sociedade não reconhece e nem legitima o luto, as reações de estresse podem ser intensificadas, e os problemas relacionados ao luto podem ser exacerbados. Em caso de animais de estimação, normalmente frases como “Era só um cachorro...” mostram esse não reconhecimento. A morte do animal é tratada como um acontecimento trivial e de pouca importância.

Baydak fala também que além do luto social não-autorizado existe o luto intrapsíquico não-autorizado. Nós internalizamos crenças, valores e expectativas sociais. Está implícito no comentário “Era só um cachorro...” que os animais não são dignos de luto e a noção de que há algo inerentemente errado com alguém que entra em processo de luto após a morte de um animal. Assim, quando um animal de estimação morre, muitos donos estão totalmente despreparados para a intensidade de seu luto, e ficam embaraçados e com vergonha dele. A sociedade tende a dar mais suporte à criança que perde um animal de estimação do que a um adulto.

Até agora se falou em luto de adultos, mas e as crianças? Corr (2003) estudou livros infantis que contam histórias de morte de animais de estimação. Sua atenção foi para como é tratado esse tema nesses livros. Ele diz que os animais de estimação são importantes para as crianças por muitas razões: eles servem como amigos, companheiros de brincadeiras, e fonte de amor incondicional. Além disso, os animais de estimação ajudam a ensinar às crianças sobre as responsabilidades que estão envolvidas em cuidar de uma outra criatura viva. E também, por causa do ciclo de vida mais curto deles, os animais de estimação podem ensinar às crianças importantes lições sobre perda, morte e luto.

Corr achou, nos livros infantis que pesquisou, que a relação entre uma criança e seu animal de estimação é tratada como algo muito importante, e a perda do animal é um evento muito significativo. Os livros costumam também passar a idéia de que é importante a criança viver a experiência e expressar o luto, e que rituais podem ajudar a comemorar a vida do animal que já foi perdido. Outras questões comumente tratadas nos livros são o tipo de morte do animal (natural, por eutanásia ou acidental), se é ou não desejável adquirir outro animal logo após a perda de um, e questões envolvendo a reflexão do que é a vida e do que é a morte.

Kaufman & Kaufman (2006) consideram que o luto infantil normalmente inclui conseqüências imediatas e no longo prazo, tais quais depressão, ansiedade, retraimento social, distúrbios comportamentais e queda no rendimento escolar. A perda do animal de estimação não é menos importante, porque freqüentemente ele é considerado pela criança como membro da família. Para eles, a sociedade não reconhece sempre o significado do luto do animal de estimação para a criança - assim como já falamos em relação ao adulto - o que pode resultar em um luto não resolvido. Esses autores enfatizam que os pais precisam não considerar a morte do animal de estimação como algo trivial. Os pais devem apreciar o papel que o animal tem na vida da criança e assistir às crianças em variadas formas de expressão de sua dor, seja verbalmente, artisticamente (através de desenhos, por exemplo) ou na escrita.

Referências

Archer, J. (1997) Why do people love their pets? Evolution and Human Behavior, v. 18, p. 237-259.

Baydak, M.A. (2000). Human grief on the death of a pet. National Library of Canada, Faculty os Social Work. University of Manitoba.

Corr, C.A. (2003). Pet Loss in death-related literature for children. Omega, 48 (4), 399-414.

Kaufman, K.R.& Kaufman, N.D. (2006). And then the dog died. Death Studies, 30 (1), 61-76.

Kovács, M.J. (1992). Morte e desenvolvimento humano. Casa do Psicólogo.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Gêmeos idênticos

Os estudos modernos com gêmeos demonstram que aqueles que foram separados no nascimento ou pouco depois dele são mais semelhantes do que os que foram criados juntos ou separados com uma idade mais avançada. Como isso pode ser explicado?

O estudo com gêmeos é muito importante para a psicologia, pois se trata de uma situação natural que parece ter sido bolada por cientistas: pessoas com carga genética idêntica (no caso dos monozigóticos), que tanto podem ter a mesma criação, quando criadas juntas, como criações totalmente diferentes, quando são separadas no nascimento. O debate nature versus nurture ou natureza versus criação se enriquece através de estudos empíricos com esse grupo de pessoas.


Até a década de 70 os estudos com gêmeos não eram confiáveis, pois envolviam invenção de dados, falta de ética etc. Hoje, a maioria dos estudos com gêmeos são realizados com mais cuidados, e são comuns principalmente na disciplina conhecida como genética do comportamento. Entre humanos, aproximadamente 1 em cada 250 nascimentos é de gêmeos idênticos e muitos das pesquisas são feitas em países escandinavos, onde os governos mantém gigantescos bancos de dados sobre seus cidadãos.

Voltando à questão inicial, Ridley (2003) provê uma possível explicação para o fato de que as pesquisas apontam que gêmeos idênticos criados separados sejam mais semelhantes do que os criados juntos:

“Pequenas diferenças no caráter inato são exageradas pela prática, não aplainadas por ela. Isso é o que acontece entre gêmeos idênticos. Se um é mais extrovertido que outro, eles gradualmente exagerarão esta diferença” (Ridley, 2003, p. 323).

Portanto, os gêmeos criados juntos tenderiam a reforçar suas diferenças para se diferenciarem um do outro, já os separados não teriam essa preocupação. De qualquer forma, os testes confirmam que os gêmeos idênticos, separados ou não ao nascer, são muito parecidos, mas não idênticos, em praticamente qualquer característica que se possa medir, seja em se tratando de personalidade, de hábitos ou de desenvolvimentos de doenças.

“(...) a esquizofrenia é acentuadamente concordante com gêmeos idênticos, que têm em comum todo o DNA e a maior parte do ambiente, porém muito menos concordante com gêmeos fraternos, que têm em comum apenas metade do DNA (do DNA que varia na população) e a maior parte do ambiente” (Pinker, 2004, p. 74).

Muitas outras condições que são encontradas em famílias são mais concordantes em gêmeos idênticos do que em gêmeos não-idênticos, são mais acertadamente prognosticadas com base em parentes biológicos do que em parentes adotivos e mal prognosticadas com base em qualquer característica mensurável do ambiente. São algumas dessas condições: autismo, dislexia, atraso na linguagem, deficiência na linguagem, depressões graves, distúrbio bipolar, distúrbio obsessivo-compulsivo, orientação sexual etc.

Gêmeos idênticos são muito mais semelhantes do que os não-idênticos, sejam criados juntos ou separados, gêmeos idênticos criados separadamente são muito semelhantes; irmãos biológicos, sejam criados juntos ou separados, são muito mais parecidos do que irmãos adotivos. Além disso, gêmeos idênticos criados separadamente são muito mais similares que gêmeos não-idênticos criados separadamente.

“Gêmeos idênticos pensam e sentem de modos tão semelhantes que às vezes desconfiam estar ligados por telepatia. (...) São semelhantes em inteligência verbal, matemática e geral, no grau de satisfação com a vida e em características de personalidade como ser introvertido, aquiescente, neurótico, consciencioso e receptivo à experiência. Têm atitudes semelhantes diante de questões polêmicas como pena de morte, religião e música moderna. São parecidos não só em testes de papel e lápis, mas no comportamento consequencial como jogar-se, divorciar-se, cometer crimes, envolver-se em acidentes e ver televisão. (...)”. (Pinker, 2004, p. 74).

Assim, os estudos demonstram que diferenças em mentes podem provir de diferenças em genes. Isso não significa que o papel da criação seja nulo, pelo contrário, a herdabilidade depende inteiramente do contexto. De qualquer forma, o papel dos genes não pode ser ignorado.

Para saber mais

Pinker, S. (2004) Tábula rasa - negação contemporânea da natureza humana. São Paulo: Companhia das Letras.

Ridley, M. (2003) O que nos faz humanos. Editora Record.

terça-feira, 8 de julho de 2008

Homens e mulheres: iguais ou diferentes?

Meninos gostam de carrinhos, meninas gostam de bonecas. Esses gostos são facilmente explicáveis pela cultura; afinal, desde que nascem as crianças são estimuladas pela sociedade a adotarem o comportamento típico de seu gênero. Será então que as meninas brincam de boneca e os meninos de carrinho porque são dados a eles esses brinquedos?

Se eles vivessem em um mundo sem diferenciação, em que pais não estimulassem seus filhos a brincar de certas formas e com determinados brinquedos, o que aconteceria?

Antes de responder à questão, gostaríamos que você imaginasse o seguinte experimento. Suponha que pesquisadores dessem a macacos fêmeas e machos brinquedos humanos, tais quais bonecas, carrinhos e livros. O que você acha que aconteceria?

Esse experimento foi feito. Pesquisadores deram esses brinquedos a 44 macacos-vervet machos e 44 fêmeas e depois avaliaram as suas preferências por cada brinquedo, medindo quanto tempo passavam com cada um. As análises estatísticas demonstraram que os machos mostraram um interesse significativamente maior pelos brinquedos considerados masculinos e as fêmeas, pelos femininos. E os dois sexos não demonstraram diferenças na preferência pelo livro (Miller & Kanazawa, 2007).

O velho domínio masculino
De acordo com uma história antiga o homem foi feito primeiro por Deus e a mulher era apenas parte de seu corpo, mais precisamente sua costela. A grande ironia nessa história é que a Biologia moderna mostrou que o default do programa genético fetal é o desenvolvimento de um corpo feminino, ou seja, se seis semanas após a concepção o cromossomo Y não desencadear uma certa proteína, um feto feminino será gerado automaticamente (Pinel, 2005). Sim, nesses termos, é como se o homem saísse da “costela” da mulher.

A lenda bíblica revela a supremacia masculina que têm ocorrido há tempos, em que homem é sinônimo de ser humano. O feminismo do século passado foi uma reação a esse domínio, e graças a esse movimento e a outras mudanças sociais as mulheres alcançaram grandes conquistas. Junto com tudo isso, porém, surgiu uma tendência que continua até hoje: a de se negar as diferenças entre homens e mulheres. As únicas diferenças que não estão envolvidas em polêmicas acaloradas são as que se referem aos aparelhos genitais.

A negação da natureza humana
O gênero de um indivíduo é uma de suas dimensões mais essenciais. Trata-se da primeira característica que notamos em outro indivíduo, e isso nos fornece modos de nos comportar frente ao outro. Cada gênero tem uma forma de se vestir, de agir, de se relacionar e ele é um referencial para a nossa identidade. Tamanha é esta importância, não se limitando somente à nossa cultura, que em grande quantidade dos idiomas da Terra os pronomes são declinados com base no gênero do substantivo ao qual se referem. Em todas as culturas humanas, homens e mulheres são vistos como possuidores de naturezas diferentes.
Todas as culturas dividem o trabalho por sexo, com mais responsabilidade pela criação dos filhos para as mulheres e mais controle das esferas pública e política para os homens. Essa divisão de trabalho emergiu mesmo em uma cultura em que todos haviam se comprometido a erradicá-la, os kibutzim israelenses (Pinker, 2004). Dada tão grande influência seria de se esperar que as ciências do homem, sejam as sociais ou as da saúde, se ocupassem grandemente com o estudo das particularidades de cada sexo.

Surpreendentemente durante grande parte do século XX, em que as ciências em geral se desenvolveram de forma nunca vista na história da humanidade, não só os estudos das diferenças entre gênero foram raros como muito esforço foi feito no sentido de provar que tais diferenças eram somente de ordem cultural e que, por esse motivo, poderiam (e deveriam) ser eliminadas. A “negação contemporânea da natureza humana” (Pinker, 2004) encontra terreno fértil no campo dos gêneros.

Evidências
Falar em genes e biologia com relação às diferenças comportamentais entre os sexos foi, por muito tempo, uma heresia. Todas as supostas diferenças entre meninos e meninas seriam devidas à criação, a uma sociedade machista que faria imposições comportamentais de modo que a dominação masculina continuasse. Contudo, diversos estudos mostram que muitas das diferenças comportamentais dos sexos podem ser devidas a nossa natureza.

As diferenças entre meninos e meninas já aparecem no primeiro dia de vida. Simon Baron-Cohen e colegas realizaram um experimento com bebês de um dia de idade. Apresentaram simultaneamente a fotografia do rosto de uma mulher e um móbile mecânico a 102 bebês recém-nascidos, sem saber o sexo de cada um. Isso foi filmado e uma comissão julgadora avaliou em qual objeto cada bebê prestou mais atenção, e somente depois de tudo foi revelado o sexo dos bebês. A análise mostrou que mais meninos preferiram olhar para o móbile mecânico e as meninas, para o rosto (Miller & Kanazawa, 2007).

Experiências realizadas com crianças de aproximadamente dois anos demonstram que, nessa idade, o individuo não tem a noção exata dos estereótipos. Quando questionado a respeito de quais brinquedos são classificados como de meninas ou de meninos, ele não é capaz de identificar carrinho como sendo de garoto ou boneca como sendo de garota. Mas quando questionado a respeito de sua preferência, a menina escolhe bonecas e o menino escolhe carrinhos (Baron-Cohen, 2003).

Pesquisas mostram o que o senso comum já sabia: que os homens demonstram maior tendência a realizarem sexo casual, ou seja, sexo sem envolvimento afetivo prévio. A maioria dos homens também desejara ter um número maior de parceiras sexuais, teria um maior desejo por variedade sexual (Varella, 2007).

Além disso, temos o experimento citado no início, que revela que as diferenças entre os sexos são compartilhadas pelos macacos. Os macacos do experimento não foram socializados por humanos e jamais haviam visto aqueles brinquedos antes. Se as diferenças entre os sexos fossem apenas culturais, deveriam variar muito conforme a sociedade e a espécie, e não é o que os estudos revelam.Em todas as sociedades humanas conhecidas, e entre muitas espécies, principalmente entre os mamíferos, os machos são, em média, mais agressivos, violentos e competitivos, e as fêmeas, em média, mais sociáveis, atenciosas e dedicadas à criação, nutrição e educação (Pinker, 2004; Miller & Kanazawa, 2007).

Isso significa que nada é cultural?
Voltando à pergunta do início, meninos brincam de carrinho e meninas de boneca porque são dados a eles esses brinquedos? A resposta é sim. Porém são dados a eles esses brinquedos porque gostam deles. Os pais provavelmente mais reagem aos gostos das crianças do que os causam (Baron-Cohen, 2003).

Além disso, a oposição entre natureza e criação é falsa. A criação reforça a natureza. Não é possível afirmarmos que a sociedade é a única responsável pelo fato de que meninos e meninas diferem significativamente entre si. Causa e efeito são provavelmente circulares. As pessoas tanto gostam de fazer aquilo em que elas acham que são boas como são boas no que gostam de fazer (Ridley, 2003).

[Meninos] gostam mais de brinquedos, armas, competição e ação do que bonecas, romance, relacionamentos e famílias. É claro que eles não vêm ao mundo com todas essas preferências plenamente formadas, mas nascem com alguma preferência inefável a se identificarem com coisas de meninos. Isso é o que a psicóloga infantil Sandra Scarr chamou de “escolha de nicho”: a tendência de escolher a criação que é adequada a sua natureza (Ridley, 2003, p. 80-81).

Portanto, a resposta à questão “as diferenças entre homens e mulheres são culturais?” é sim. Mas não só. O problema não está em admitir o papel da cultura, que é óbvio, o problema é negar o papel da nossa biologia.

Falácias
A polêmica em torno dos estudos com base genética/cerebral/biológica envolve muitas concepções equivocadas. A primeira delas já vimos, que é colocar natureza e criação como excludentes. Outras envolvem falácias que concernem ao “ser” e ao “dever ser”.

Será que o que é natural é necessariamente bom? A falácia naturalista, termo cunhado pelo filósofo inglês George Edward Moore no início do século XX, embora tenha sido identificada bem antes por Hume, é o salto do ser para o dever ser, ou seja, a tendência a acreditar que o que é natural é bom; que o que é deve ser. Por exemplo, pode-se cometer o erro da falácia naturalista e dizer: “Como as pessoas são geneticamente diferentes e dotadas de diferentes habilidades e talentos inatos, elas devem ser tratadas de forma diferente” (Miller & Kanazawa, 2007).

Já a falácia moralista é o oposto da falácia naturalista. Refere-se ao salto de dever ser para o ser, a alegação de que o modo como as coisas deveriam ser é o modo como são. É a tendência de acreditar que o que é bom é natural; o que deve ser é. Por exemplo: “Como todos devem ser tratados igualmente, não existem diferenças genéticas inatas entre as pessoas”. Ridley a chama de falácia naturalista reversa.

Tanto a falácia naturalista quanto a moralista estão envolvidas na negação das diferenças entre homens e mulheres. No primeiro caso, negam-se estudos de base genética porque há um grande medo de que se for confirmado que existem diferenças naturais entre os sexos, logo é correto tratá-los de forma diferente. No segundo caso, negam-se estudos de base genética porque não pode haver diferença genética alguma, já que todos devem ser tratados igualmente. De acordo com Miller & Kazanawa (2007) a falácia moralista tem sido um problema muito maior do que a falácia naturalista em discussões acadêmicas.

Estereótipos
Os estudos também são rechaçados por se considerar que fortalecem estereótipos.
Não se pode descartar uma observação por considerá-la um estereótipo - como se isso, repentinamente, a tornasse uma inverdade, que não merece discussão ou explicação. Muitos estereótipos são generalizações empíricas com uma base estatística e por isso, em média, tendem a ser verdadeiros. O único problema com estereótipos e generalizações empíricas é que eles nem sempre são verdadeiros para todos os casos individuais. Sempre existem exceções individuais para estereótipos. Existem muitos pais dedicados e mulheres criminosas, mesmo que as generalizações ainda sejam verdadeiras.

O perigo está na aplicação das generalizações estatísticas a casos individuais, que podem ou não ser exceções (Miller & Kazanawa, 2007).

As generalizações sobre um sexo sempre serão falsas para muitos indivíduos (Pinker, 2004).

Os estudos normalmente se referem a médias, isso significa situar um grupo, e não um indivíduo em particular. Muitas pessoas não se encaixam nas médias, e isso não é algo condenável. Ninguém tem a obrigação de se ajustar aos parâmetros médios do seu gênero.

Diferença e desigualdade
Outra noção corrente é a de que homens e mulheres somente terão direitos iguais se forem exatamente iguais. Em última instância, ninguém é igual. As pessoas da mesma idade, da mesma classe econômica, da mesma cidade podem ser parecidas, mas exatamente iguais não são. Nem mesmo gêmeos idênticos são idênticos em seus traços de personalidade, no modo de se vestir, nos gostos, nas crenças etc. A singularidade é uma regra entre os humanos. E apesar disso, existem várias leis que concernem a grupos, como idosos, crianças, motoristas, mulheres, aposentados etc.

Isso se relaciona com a idéia de que a diferença implique necessariamente em desigualdade. Não se pode achar que escondendo ou negando as diferenças é que a igualdade será conquistada. A afirmação de que existe diferença entre as pessoas não é contraditória com a igualdade de direitos, pois todos somos diferentes. Essa onda de negação das pesquisas sobre homens e mulheres é uma tentativa de se evitar que a igualdade não seja conquistada. Todavia, não é suprimindo diferenças e nem forçando uma igualdade de comportamento que se conquista a igualdade de direito e de respeito. Forçar uma igualdade de comportamento é que é cruel.

Os estudos das diferenças não afirmam que os atributos típicos de um dos gêneros sejam intrinsecamente superiores aos do outro. É um equívoco comum acreditar que as conclusões de estudos fornecem uma base para a discriminação, afirmando qual sexo é melhor e qual é pior. Estudar as diferenças comportamentais entre homens e mulheres não acarreta, necessariamente, discriminação. As pesquisas sérias não são feitas com esse intuito. As áreas das ciências cognitivas, das neurociências, e até mesmo da medicina, por exemplo, têm avançado muito nos últimos anos no estudo das diferenças entre homens e mulheres, tanto no que diz respeito ao comportamento quanto à anatomia, mecanismos neuronais, influências hormonais, entre outros. Tais avanços promovem mudanças no sentido de tratar os corpos de homens e mulheres mais de acordo com as suas singularidades.

O medo, evidentemente, é que diferença implique desigualdade – de que se os sexos diferem em qualquer aspecto, os homens teriam de ser melhores, ou mais dominantes, ou ficar com toda a diversão (Pinker, 2004).

Um sexo nunca será melhor que o outro e, embora um sexo possa ser melhor em determinado ramo de habilidades, isso de maneira nenhuma serve para generalizar, julgando-o como superior. Algumas pessoas consideram que exaltar as diferenças entre gêneros diminui as mulheres, entretanto achar que as características típicas dos homens são melhores que as das mulheres é o maior machismo de todos.

Além disso, homens e mulheres são muito mais semelhantes do que diferentes. Não somos idênticos, mas

Homens e mulheres possuem todos os mesmo genes, com exceção de um punhado no cromossomo Y, e seus cérebros são tão semelhantes que é preciso um neuanatomista com olho de águia para enconstrar as pequenas diferenças entre eles. Seus níveis médios de inteligência são iguais, segundo as melhores estimativas psicométricas, e eles usam a linguagem e pensam sobre o mundo físico e vivo da mesma maneira geral. Sentem as mesmas emoções básicas e ambos gostam de sexo, buscam parceiros conjugais inteligentes e gentis, sentem ciúme, fazem sacrifícios pelos filhos, competem por status e parceiros sexuais e às vezes cometem agressão ao se empenhar por seus interesses (Pinker, 2004).

Referências

Baron-Cohen, Simon (2003) Diferença essencial - A verdade sobre o cérebro de homens e mulheres. Rio de Janeiro: Objetiva.

Miller, A.S.; Kanazawa, S. (2007) Por que homens jogam & Mulheres compram sapatos. Rio de Janeiro: Editora Prestígio.

Pinel, J. P. (2005) Biopsicologia. Porto Alegre: Artmed, cap. 13 - Hormônios e desenvolvimento sexual (pp. 349-366).

Pinker, S. (2004) Tábula rasa - negação contemporânea da natureza humana. São Paulo: Companhia das Letras.

Ridley, M. (2003) O que nos faz humanos. Editora Record.

Varella, M.A.C. (2007) Múltiplos parceiros. Revista de divulgação científica Psiquê, número 18.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Férias!

Quem acha que abandonei meu blog está muito enganado!
Pessoal, estou em um período breve de afastamento, devido ao excesso de compromissos acadêmicos do fim do semestre. Aguardem, logo voltarei a postar...
Abraços e forças a todos que precisam nessá época caótica de desfecho de semestre!

sábado, 17 de maio de 2008

Entrevista: carreira do psicólogo

Esta semana conversei um pouco com o professor Marcelo Afonso Ribeiro, do departamento de Psicologia Social e do Trabalho da USP, sobre a carreira do psicólogo. Bom, acabamos falando de outras coisas também, como a representação social da psicologia. Confira!

CientíficaMente - O que é Psicologia?
Eu acho que a psicologia é uma área de saber que vem do cotidiano, da filosofia, e que se dedica, com coragem e ousadia, a tentar entender o comportamento humano. A psicologia, de alguma maneira, tem como objetivo estudar o que acontece na relação entre o corpo biológico e uma sociedade constituída, entender a relação indivíduo e mundo social e construir teorias que possam dar conta de ajudar também. Pensando na parte mais prática, ajudar as pessoas com as suas questões, com os seus conflitos nessa relação.

CientíficaMente – Professor, você acha que as pessoas, em geral, sabem o que é a psicologia?
Eu acho que tem um estereótipo do que é o psicólogo, muito via mídia: o psicólogo clínico, aquele que atende problemas, que faz diagnóstico, com quem você vai conversar porque tem um problema. Essa é uma das áreas da psicologia que ainda existe, não que tenha deixado de existir, mas acho que como todas as outras profissões, há uma fragmentação. Os limites já não estão mais claros entre o que é uma atribuição do psicólogo, atribuição do administrador, do médico, do cientista social, e de todas as outras profissões. Isso é interessante em um nível, porque você tem aí mais possibilidades de trabalho. Não é exclusivo da psicologia estudar o ser humano, outras áreas também se dedicam a atuar. Por outro lado, também é perigoso, porque você tem a entrada de áreas, pessoas, que não têm o rigor necessário. Então essa fragmentação é positiva porque faz crescer, mas também é negativa porque entram mais coisas que não são necessariamente boas. E no senso comum as pessoas não conseguem definir o que é o quê.

CientíficaMente - E qual você acha que é a principal causa dessa visão senso comum da psicologia?
De alguma maneira, quem não tem acesso via escola, via educação a alguma área do saber, acaba tendo contato pela mídia impressa e televisiva. Há muitos profissionais que vão à mídia e falam em nome da área, alguns com propriedade, outros não. Alguns nem mesmo são da área e as pessoas os identificam como se fossem. Como exemplos temos aqueles programas de auditório cujos apresentadores não são psicólogos, no entanto as pessoas acham que são. Eles inclusive fazem interpretações ao vivo, que são duvidosas. Então as pessoas vão construindo uma representação social do que é o psicólogo a partir disso, daí acontecem muitas misturas. Eu acho que o que mais forma o senso comum é a mídia. Em muitas revistas há seções sobre comportamento em que supostos profissionais dão a sua opinião quando não teriam condição de fazê-lo.

CientíficaMente - Você vê alguma saída para isso?
Eu acho que a psicologia deveria - na verdade o Conselho Federal (CFP) há alguns anos tenta fazer isso - freqüentar mais a mídia só que com qualidade, com rigor, até de forma institucional, explicitando o que é a psicologia. Esse espaço está sendo conquistado aos poucos, por exemplo, o CFP teve, por algum tempo, um espaço no canal Futura. Contudo, eu fico pensando, quem é que tem acesso a um canal de TV paga? É restrito a pessoas que provavelmente já têm outra visão da psicologia. Acho que deveria haver um espaço para mostrar o que é a psicologia, explicitando aquilo que parece estar formando a opinião das pessoas. Não sei exatamente como, porque é uma tarefa difícil.

CientíficaMente - E com relação à carreira do psicólogo, hoje em dia há mais possibilidades além da clínica?
A psicologia tem as áreas mais tradicionais, instituídas, em que algumas já não mais tão seguras. Por exemplo, o consultório antigamente era a opção óbvia – você se formava, abria seu consultório e pronto. Hoje em dia você até pode abrir seu consultório, tentar uma estabilidade, porém há mais pessoas fazendo isso e não está tão simples assim você manter essa atividade. Você pode trabalhar em escolas, que abriram mais espaço para nós, e as empresas, que sempre tiveram vagas e provavelmente sempre terão. Essas áreas já são instituídas, mas hoje se abriram mais possibilidades. Áreas em que nem se pensava que o psicólogo poderia contribuir, como na política, na gestão, em instituições, em comunidades, no trânsito, com engenheiros, enfim tudo que envolva impactos no comportamento humano cabe também ao psicólogo. O problema é que, por exemplo, pensando em alguém que está em formação, você acaba tendo contato com as áreas mais tradicionais, e tem outras áreas que você vai constituindo seu espaço. Isso é algo bom, porque agora você pode chegar e dizer que tem um conhecimento, que pode contribuir. Você pode construir um espaço, apesar de que leva um tempo para isso ocorrer. O risco é as pessoas não te reconhecerem como psicólogo, dão outro nome, fica como outra coisa. Estamos nessa abertura de novos campos de trabalho, mas que ainda não estão consolidados como tal. Alguns já estão, como a psicologia jurídica, a psicologia do esporte, a psicologia hospitalar, que há dez, quinze anos ninguém saberia dizer o que eram. Também podemos aproveitar áreas que estão consolidadas em outros países. Hoje há mais abertura, por outro lado isso deixa as pessoas sem referências, mais confusas com relação ao que o psicólogo é e faz.

CientíficaMente - E o que você acha que diferencia o psicólogo dos demais profissionais que lidam com humanos?
Eu acho que é o olhar. Nós desenvolvemos um olhar que é muito específico. O curso - teoricamente, não que todos tenham isso - te dá uma chave de leitura da realidade muito particular (chamo de realidade as pessoas, as instituições, as organizações, dimensões da vida). Isso nos ajuda a entender para além da superfície. Acho que a maioria das profissões não vai para além da superfície, até porque não se propõem a isso. As nossas grandes ferramentas são o diagnóstico, em um sentido mais amplo, pensado em termos de leituras, interpretação, análise da realidade, e a forma como se acessa essa realidade. A entrevista, por exemplo, é um instrumento fantástico que nós temos, e nós extraímos coisas dessa entrevista que outros profissionais não extraem. É uma leitura muito particular da realidade, que consegue entender um pouco as pessoas, as relações das pessoas, e ajudar no que estabelece o cotidiano de todas as outras profissões.

CientíficaMente - Você acha que as faculdades, os cursos de psicologia em geral, conseguem mostrar esse campo aberto de atuação do psicólogo?
Olha, mais ou menos. O campo tradicional é apresentado. Não dá para dizer genericamente, acho que algumas faculdades têm isso, essa preocupação, outras não têm. Algumas fazem isso de um modo mais integrado, dentro do currículo, outras não, fazem palestras, por exemplo. As faculdades estão preocupadas, mas varia o nível de preocupação e ação para dar conta disso. Até porque tem muita coisa nova, e muitas áreas ainda não estão consolidadas, umas são legais, outras não. Às vezes você traz para dentro do curso de psicologia alguém que mistura psicologia e coisas esotéricas, o que é um problema. A formação em psicologia é algo complicado. Você fecha a grade curricular e aí surge uma nova área.

CientíficaMente - E o que você acha que os alunos podem fazer para entrar mais em contato com as possibilidades de carreira?
Eu acho que tem que conversar muito com os professores, e também com os colegas. Às vezes o colega que senta a seu lado está fazendo um estágio muito legal, em algo que você nem imaginava. Principalmente conversar com os professores, porque às vezes ele dá uma aula que tem que dar, mas a experiência dele é outra. Uma coisa que não se faz, eu como aluno não fazia e não vejo meus alunos fazendo, é conhecer um pouco o professor. Ver o que ele faz, o que ele pesquisa, o que ele estuda, onde ele trabalhou, o que já fez... Saber a história de vida dele é interessante, até porque ele pode te dar dicas de por onde ir, como caminhar. É importante conversar com vários, não com um só. Hoje em dia temos a Internet, mas nem sempre você sabe se a informação é válida. É legal ter alguém como uma referência, que te ajude nesse caminho. Eu ainda acho que a graduação é um espaço de exploração e de experimentação. Esse é o objetivo. Quanto mais se explorar e se utilizar do material físico e humano da universidade, melhor. Não que isso vá garantir que quando você se forme terá uma inserção perfeita no mercado de trabalho. No entanto, quanto mais informação, mais fácil você consegue. Claro que há também outros fatores, como características pessoais, contingências do momento, da área que você escolheu. Tem áreas que a inserção é fácil, e em outras você terá que inventar e batalhar para abrir seu espaço.

Queria agradecer ao professor Marcelo pela entrevista e por nos fazer refletir um pouco sobre psicologia e carreira. E claro, por dar a dica de que nós, alunos de graduação, devemos ser mais ativos e aproveitar ao máximo as possibilidades do curso, não ficando apenas restritos ao âmbito das aulas.

Concordo plenamente com o professor Marcelo que a graduação deve ser um espaço de experimentação, e conversar com professores é algo realmente importante. Aguardem as próximas entrevistas do CientíficaMente.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Terapia Cognitiva x Psicologia Cognitiva

Confundir terapia cognitiva com psicologia cognitiva é comum. Apesar de terem algumas semelhanças, elas não são sinônimas.

A terapia cognitiva (TC) foi desenvolvida por Aaron Beck no início da década de 60, na Universidade da Pensilvânia, EUA. Nessa época, Beck tinha como objetivo investigar os mecanismos inconscientes propostos pela psicanálise para explicação da depressão a partir de estudos empíricos e observações clínicas sistemáticas. Os resultados de suas investigações não se mostraram compatíveis com as pressuposições psicanalíticas, levando-o a buscar outros construtos que explicassem mais satisfatoriamente os dados empíricos observados.


Sua preocupação era oferecer um modelo abrangente do funcionamento cognitivo (inicialmente de depressivos), que apresentasse coerência interna e compatibilidade com as observações clínicas, possibilitando que novas intervenções psicoterápicas pudessem ser desenvolvidas.

A terapia de Beck foi então concebida como uma psicoterapia breve, estruturada, orientada para o presente, direcionada para a resolução de problemas atuais e para modificar comportamentos disfuncionais. Desde então, Beck e seus seguidores vêm adaptando com sucesso essa terapia para um conjunto surpreendentemente diverso de populações e desordens psiquiátricas, como depressão, fobias, transtorno obsessivo-compulsivo etc.

Logo depois houve uma junção com pressupostos da terapia comportamental, e daí nasceu a terapia cognitivo-comportamental (TCC). Ultimamente esse termo acaba abrangendo muitas formas de terapia, algumas com enfoque mais cognitivista, outras mais comportamentalistas, porém em geral todas buscam mudanças adaptativas e a avaliação de resultados da terapia é fundamental.

A TCC se baseia no modelo mediacional, ou seja, uma mudança cognitiva media ou leva a uma mudança comportamental. Assim, sentimentos, pensamentos e comportamentos são inter-relacionados, isto é, eles influenciam uns aos outros. Os pacientes são ensinados a reconhecer os padrões afetivos, cognitivos (crenças) e comportamentais que pioram os seus sintomas. Uma vez que o padrão seja reconhecido, técnicas da TCC podem ser usadas para "quebrar o ciclo" por meio de modificação de respostas cognitivas ou comportamentais.

Apesar de ser contemporânea ao desenvolvimento da terapia cognitiva, a psicologia cognitiva teve outra trajetória. Seu surgimento se insere num movimento mais amplo, o das chamadas “ciências cognitivas” e pode ser circunscrito a um período particularmente fecundo que vai de 1955 até inicio dos anos 60, que envolve a chamada “revolução cognitiva”, com seu caráter eminentemente interdisciplinar e como “a nova retomada por parte da ciência, das questões filosóficas mais antigas acerca da mente humana, sua natureza, as relações que ela mantêm com o organismo (o cérebro), com outrem e com o mundo.”

Alguns dos fatores desencadeantes do movimento cognitivista foram, por um lado, o fracasso do behaviorismo em explicar os aspectos mais elevados do comportamento humano a partir do paradigma estímulo-resposta e, por outro, pesquisas que reintroduziram no repertório da pesquisa psicológica os termos “mentalistas”, banidos pelo rigor artificial do behaviorismo. Somam-se a isso os trabalhos de Chomsky sobre a linguagem e principalmente o surgimento da modelagem computacional da mente, que só foi possível graças ao movimento cibernético e ao advento da Inteligência Artificial.

Em termos de metodologia de pesquisa, os avanços nas pesquisas em pacientes com lesão cerebral, a retomada do tempo de reação na medida dos processos mentais, e, no campo da epistemologia, as mudanças paradigmáticas levaram alguns cientistas de renome a se unirem em torno desse novo paradigma para a investigação dos fenômenos mentais. O estudo dos processos cognitivos da perspectiva do processamento da informação tem, então, caracterizado a psicologia cognitiva nos últimos 50 anos.

Embora esse novo movimento tenha surgido numa tentativa interdisciplinar de estudar a mente, é preciso lembrar que o enfoque dos eventos mentais foi dado sob a ótica da metodologia experimental em psicologia, que recebeu grande contribuição dos psicólogos que levaram adiante o objetivo de estudar o homem como um processador de informações.
Considerado, então, um arcabouço, uma espécie de “guia” para as pesquisas em psicologia cognitiva, o processamento da informação se constitui numa maneira de focalizar os aspectos mentais, mas de forma alguma é a única maneira. Algumas áreas de pesquisa da psicologia cognitiva são: área ligada à representação da informação na memória, incluindo imagem e memória semântica, bem como a representação do conhecimento lingüístico; área ligada aos modelos de memória estruturados temporalmente, recuperação da informação na memória e níveis de processamento; área ligada à atenção e processamento perceptivo e área ligada à pesquisa em psicolingüística.

Assim, historicamente, houve desenvolvimentos praticamente independentes da TC, por um lado, e da psicologia cognitiva, por outro – muito embora houvesse plena compatibilidade entre conhecimentos construídos em cada um desses dois âmbitos.Em diversos momentos, foi apontada uma carência de integração entre o campo da pesquisa básica (ou seja, pesquisas que visam a construir conhecimentos sobre um objeto de estudo específico, sem quaisquer comprometimentos com áreas aplicadas) e a psicoterapia. Na área da TC são realizadas pesquisas mais voltadas para a prática psicoterápica, enquanto na psicologia cognitiva busca-se estudar a cognição humana em geral, sem compromisso com terapia.

Atualmente, existe um movimento de integração entre psicologia cognitiva e TC, em que se buscam unificar, na prática psicoterápica, refinamentos em termos explicativos acerca do funcionamento cognitivo nos mais diversos transtornos psiquiátricos. Tais sofisticações teóricas - construídas usualmente a partir de pesquisas experimentais - apresentam implicações no que tange a estratégias de intervenção, revelando um importante ganho que se obtém quando há uma prática de psicoterapia com sólidos fundamentos empíricos.
Referências
Juruenal, M.F. (2001). Terapia cognitiva: abordagem para o transtorno afetivo bipolar. Rev. Psic. Clín. 28(6), 322-330.
Pergher, G.K.; Stein, L.M.; Wainer, R. (XXXX). Estudos sobre a memória na depressão: abordagem para o transtorno afeitvo bipolar. Revista de Psiquiatria Clínica.
Rodrigues, C.M.L.; Lopes, E.J. (XXXX) A Psicologia cogntiva no Brasil: um panorama dos anos 90.