domingo, 9 de dezembro de 2007

Entrevista na AllTV sobre linguagem

Fui convidada por Renata Antonelli para ser entrevistada em seu programa Web Divã, na AllTV.

A AllTV é empresa pioneira de TV da Internet, ganhadora do Prêmio Esso de Jornalismo, como o melhor site de notícias (2005), do Prêmio da Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (Aberje), pela convergência de mídias (2002/2006) e Top Comm Award, no segmento IPTV, pelos Mistérios de Comunicações e de Ciência e Tecnologia (2006).
"Web Divã" vai ao ar das 20 h às 21 horas, todas as sexta-feiras. O programa, apresentado pela psicóloga Renata Antonelli, aborda em psicologia todos os temas ligados a nossa subjetividade. O programa conta com a possibilidade interetiva de um chat ao vivo que permite que a conversa seja expandida às curiosidade dos que estiverem assitindo.

Estive lá no dia 09 de novembro para falar sobre linguagem, já que Renata leu minha matéria na revista Psique (edição número 20, ano II - o texto adaptado está na postagem anterior). Foi muito legal, fui muito bem recebida e adorei conversar com a Renata e com o pessoal do chat.

Agradeço principalmente à Renata, à Maria Helena (produtora) e ao Marco (meu namorado), por me dar aquela força no dia da gravação.

Ah, e claro, não poderia deixar de agradecer às minhas professoras Vera Bussab e Patrícia Izar, que me deram a oportunidade de trabalhar o tema da linguagem sob a visão etológica na monitoria. E também ao professor Fernando Capovilla, pelos vastos conhecimentos na área da linguagem sob a abordagem do processamento de informação. São nesses profissionais que eu me espelho.

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sábado, 8 de dezembro de 2007

Um instinto para adquirir a arte da linguagem

“A linguagem humana se adquire por exposição a ela, não por treinamento. É exatamente como se aprende a respirar”. Essa frase, pronunciada em meados do século passado por Noam Chomsky, representa a revolução feita por ele na área da lingüística: o foco dos estudos deve ser a capacidade inata da linguagem, dizia.
Chomsky é crítico da corrente dominante naquela época, que concebia a língua como algo externo ao homem e que é aprendida por imitação. Para ele, a linguagem é uma capacidade humana natural; temos um cérebro ativo que nos capacita a construir e a entender sentenças nunca antes pronunciadas, mesmo na ausência de instrução dirigida.

A linguagem é uma das características humanas mais distintivas porque o homem é o único ser vivo que faz uso desde tipo de comunicação em ambiente natural. Por esse motivo, popularmente e na tradição das ciências humanas e sociais, a linguagem foi retirada do campo da Biologia. Ser capaz de, por meio de um número restrito de símbolos e sons articulados, produzir uma quantidade infinita de significados, dos mais concretos aos mais abstratos, que podem ser compreendidos por outra pessoa, parece uma habilidade admirável. Parece quase um dom sobrenatural que coloca os homens no patamar do semidivino, inalcançável aos outros animais.


Contudo, a capacidade de comunicação não é exclusiva dos seres humanos. Os golfinhos, por exemplo, são capazes de se localizar, caçar e se comunicar por meio de um tipo de sonar. As abelhas possuem uma dança em que um membro do grupo indica para os demais a localização exata de uma fonte de alimento encontrada; já os elefantes conseguem se comunicar a quilômetros de distâncias por infra-som. Além disso, compartilhamos com os outros primatas o desenvolvimento de múltiplos processos gestuais, faciais e sonoro-verbais, acompanhados de especializações hemisféricas elaboradas. Por isso, há uma polêmica em andamento sobre que parte das faculdades necessárias para a existência de linguagem seria exclusivamente humana.

Uma das pesquisas mais importantes sobre a comunicação vocal natural em primatas não-humanos é a pesquisa de Cheney & Seyfarth com os macacos vervet, que possuem vocalizações de alarme funcionalmente referenciais para três tipos de predadores. Os ouvintes exibem as reações adequadas para cada caso sem ver diretamente o que o autor do alarme está vendo. “Mas, trata-se de um vocabulário rígido, sem propriedades generativas, e não há indicações de que os vervets tenham qualquer representação da relação de referencialidade entre os chamados e os predadores, daí o funcionalmente referencial”, diz Eduardo Ottoni, especialista em comportamento animal e professor da Universidade de São Paulo.

A linguagem faz parte do que é ser humano, porque ela só existe em tamanha complexidade no Homo sapiens. Mas a postura ereta, as mãos livres não ocupadas com a locomoção, e... a mente humana também. A razão pela qual a linguagem nos atrai tanto é que ela é a parte mais acessível da mente. Saber sobre a linguagem nos ajuda a compreender a natureza humana. Para nos entendermos, é necessário entender a linguagem. E para entender a linguagem, nós precisamos saber sua origem, seu funcionamento e os mecanismos pelos quais adquirimos a língua materna.

Para Steven Pinker, um dos mais destacados lingüistas da atualidade e que segue na linha de Chomsky, a linguagem não é uma invenção cultural, assim como tampouco a postura ereta o é. Ela é uma adaptação biológica para transmitir informação, é parte de nossa herança inata. Teríamos um instinto para aprender, falar e compreender a linguagem. Pinker é um dos autores que estuda o porquê de popularmente e nas ciências humanas a palavra “inato” jamais ser colocada em mesmo contexto que o da linguagem.

Ele acredita que a resistência em considerar a evolução da linguagem ocorre principalmente devido ao domínio do Modelo Clássico das Ciências Sociais (MCCS) na vida intelectual a partir dos anos 20. Esse modelo considera que os seres humanos são livres de coerções biológicas, são determinados pela cultura e que essa pode variar arbitrariamente e sem limites. As crianças aprendem sua cultura por meio da doutrinação, da recompensa e punição, e do modelo de papéis sociais. O MCCS ainda continua servindo como ideologia, negando a existência de uma natureza humana.

Uma alternativa a esse modelo surgiu, no fim do século XX, inspirada nas pesquisas sobre linguagem realizadas por Chomsky e outros lingüistas e em estudos de outras áreas, como a Antropologia e a Psicologia. Nesse contexto, a ciência cognitiva se desenvolveu; é uma área que reúne ferramentas da Psicologia, da Ciência da Computação, da Lingüística, Filosofia e Neurobiologia para explicar o funcionamento da mente humana.

O Modelo Causal Integrado (MCI) procura explicar como a evolução favoreceu a emergência em nosso cérebro de módulos cognitivo-afetivos, com lógica e leis peculiares, voltados para funções específicas e abertos a informações ambientais. Eles permitem e direcionam a aquisição de valores e de conhecimentos que na dinâmica populacional possibilitam e influenciam o contexto cultural. O MCI é denominado dessa maneira porque integra Psicologia e Antropologia ao restante das ciências naturais, sobretudo Neurociência e Biologia Evolutiva.

A afirmação de Pinker de que a linguagem é um instinto pode ser entendida como a defesa de que somos dotados de um módulo cognitivo-afetivo para a linguagem. A linguagem é uma habilidade complexa e especializada, que se desenvolve espontaneamente na criança, sem qualquer esforço consciente ou instrução formal, que se manifesta sem que se perceba sua lógica subjacente, que é qualitativamente a mesma em todo indivíduo, e que difere de capacidades mais gerais de processamento de informações ou de comportamento inteligente. Quando se trata da linguagem, o cérebro contém uma receita ou programa que consegue construir um conjunto ilimitado de frases a partir de uma lista finita de palavras.

E qual é o papel da aprendizagem nesse modelo? Nessa concepção, a aprendizagem não é entendida como algo arbitrário, nem aconteceria por meio de um dispositivo genérico. Considerar a linguagem um instinto ou um módulo mental não implica automatismo ou independência da aprendizagem. Instintos não são impulsos brutais que nos compelem a fazer coisas apenas em situações extremas, eles também incluem predisposições inatas para aprender comportamentos relevantes para o organismo, como por exemplo, para adquirir a linguagem. “A aprendizagem não é uma alternativa ao inato; sem um mecanismo inato para aprender, ela simplesmente não ocorreria”, afirma Pinker em seu livro O Instinto da Linguagem.

O programa do módulo da linguagem pode ser denominado gramática mental, ou seja, é um plano comum às gramáticas de todas as línguas, um software mental intricado. Diferentes falantes de uma comunidade calibram sua gramática mental segundo as gramáticas específicas da cultura em que nascem, e isso é o que chamamos de língua ou dialeto. Dessa maneira, embora as línguas sejam ininteligíveis entre si, por baixo dessa variação encontra-se o design de programação único da gramática mental, com seus substantivos e verbos, estruturas sintagmáticas e estruturas de palavras, casos e auxiliares, etc. Até hoje, não foi encontrada nenhuma tribo muda, ou seja, a capacidade de falar parece ser universal – um dos universais culturais.

A existência de línguas diversas não é prova de que a linguagem é uma invenção cultural. Pelo contrário, a universalidade dessa forma de comunicação, com funcionamentos lógicos tão semelhantes, fornece mais apoio ao modelo da existência de uma base mental comum. Seria improvável que todos os grupos humanos de todas as épocas, cada um por si só, inventasse essa forma de trocar informações, com complexidade semelhante. De qualquer forma, a universalidade da linguagem não é uma prova cabal de sua base inata. O ponto central da tese de Pinker é que a linguagem complexa é universal porque as crianças efetivamente a reinventam, geração após geração.

Comumente se pensa que as crianças adquirem a língua imitando os outros, principalmente a mãe. Porém, quando a criança diz “Eu se sentei” ou “Eu não cabo aí dentro”, não se trata de imitação. Isso mostra a existência de uma lógica interna, na verdade uma gramática interna. As crianças não apenas papagueiam o que seus pais dizem, elas extraem regras e as aplicam para formar novas frases.

Porém, existem outras evidências de que as crianças adquirem sua língua de modo ativo. Quando falantes de línguas diversas têm de se comunicar para realizar tarefas práticas, mas não têm a oportunidade de aprender as línguas uns dos outros, desenvolvem um jargão provisório denominado pidgin. Isso aconteceu, por exemplo, no tráfico de escravos para o Atlântico, em que os senhores, provavelmente cientes do poder de união que uma língua comum promove, misturaram escravos de diferentes origens lingüísticas.

Pidgins são cadeias precárias de palavras tomadas da língua dos colonizadores ou donos de plantações, que variam muito em sua ordem e são pobres no que se refere à gramática. Não há uma ordem coerente das palavras, não há sufixos ou prefixos e tempos verbais. O lingüista Derek Bickerton demonstrou que em muitos casos um pidgin pode se converter numa língua complexa plena: basta que um grupo de crianças seja exposto ao pidgin na idade em que adquire a língua materna. Isso acontecia quando crianças eram separadas dos pais e ficavam todas juntas sob a responsabilidade de um trabalhador que falava com elas em pidgin.

O que se observou é que as crianças injetavam complexidade gramatical ali onde ela não existia, resultando numa nova língua, muito rica em termos expressivos. A nova língua que surge quando as crianças transformam um pidgin em sua língua nativa se chama crioulo. Crioulos são línguas genuínas, com ordens e palavras padronizadas e marcadores gramaticais que faltavam no pidgin dos imigrantes e que, afora o som das palavras, não foram tomados da língua dos colonizadores. E crioulos gerados a partir de línguas não relacionadas entre si apresentam estranhas semelhanças, algo como a mesma gramática básica.

Outras evidências vêm do estudo das línguas de sinais dos deficientes auditivos. Na Nicarágua, em 1979, foram criadas as primeiras escolas para deficientes auditivos. A Lenguaje de Signos Nicaragüense (LSN) é hoje usada por jovens deficientes auditivos, com idades entre dezessete e vinte e cinco anos, e ela é basicamente um pidgin. Mas crianças que entram na escola bem pequenas, antes dos quatro anos, são diferentes das que ingressam mais velhas. Sua expressão gestual é mais fluida e compacta, os gestos são mais estilizados. Trata-se de uma língua de sinais tão diferente da LSN que recebe outro nome, Idioma de Signos Nicaragüense (ISN), e parece um crioulo. O ISN se padronizou espontaneamente; todas as crianças pequenas o expressam da mesma maneira, o que mostra que somos munidos de regras gramaticais semelhantes. Uma nova língua nasceu.

Para Pinker é às crianças que cabe boa parte do crédito pela linguagem que adquirem. Elas sabem coisas que não poderiam ter sido ensinadas. Por volta dos três anos e meio, ou antes, elas usam o sufixo de concordância “s” em mais de noventa por cento das frases que assim o exigem e praticamente nunca o empregam nas frases em que isso está proibido. Essa perícia é parte do surto de gramática que elas vivem num período de vários meses no terceiro ano de vida, durante o qual subitamente começam a falar frases fluentes, respeitando a maioria dos aspectos sutis da língua falada por sua comunidade.

A concepção da linguagem como parte de nossa biologia a pressupõe como uma adaptação sujeita à seleção natural. Porém, para ter sido selecionada, a linguagem deveria ter uma localização identificável do cérebro, e possivelmente um conjunto de genes relacionados a ela.

Algumas áreas cerebrais parecem estar relacionadas ao processamento da linguagem, como a área de Wernicke, e à produção da fala, como a área de Broca. Uma lesão na área de Broca pode causar uma afasia que compromete a articulação da linguagem, mas o restante da inteligência continua a mesma. Na afasia de Wernicke a pessoa apresenta dificuldade de compreensão da linguagem, contudo sua fluência e gramaticalidade ficam relativamente normais, o que mostra a relativa independência e especificidades dos diferentes módulos mentais.

Se a linguagem fosse apenas o exercício da inteligência humana, seria de se esperar que lesões e deficiências tornassem as pessoas menos capazes em todos os sentidos, inclusive na sua linguagem. Já na concepção de módulos especializados uma lesão em determinada área cerebral só comprometeria alguma habilidade, ou parte dela. E é exatamente o que ocorre na afasia de Broca e na afasia de Wernicke.

Podemos nos perguntar por que, na linhagem humana, a linguagem teria sido selecionada. A ênfase de alguns pesquisadores é na troca de informações sobre o mundo físico e técnico – eles acreditam que o modo de vida de caça e coleta que começou a se arquitetar nos homens primitivos dependia de uma comunicação eficiente. Para outros, como Robin Dunbar, o essencial foi a troca de informações sociais – a evolução da linguagem humana foi possível por possibilitar o contato com mais pessoas em um ambiente com número crescente de relações sociais.

A análise do registro fóssil e arqueológico da evolução humana e os estudos comparativos do homem contemporâneo com os demais primatas vivos revelam que ao longo do processo de evolução o homem se tornou essencialmente cultural. De qualquer modo, nas diversas teorias há certa concordância de que a cultura, ao longo da evolução, foi se tornando nossa marca principal. As predisposições inatas para a linguagem foram selecionadas por permitir uma maior troca de informações. Provavelmente foi essa intensa troca de informações e a possibilidade de uma melhor comunicação no trabalho em equipe que possibilitou ao homem operar mudanças profundas no planeta e a ocupá-lo vastamente.

Na verdade, a idéia da linguagem como um instinto foi concebida pela primeira vez por Darwin, em 1871. Em seu livro The Descent of Man, ele escreveu que a habilidade da linguagem é uma “tendência instintiva a adquirir uma arte”, desígnio não peculiar aos humanos como também encontrado em outras espécies, como os pássaros que aprendem a cantar. Essa idéia talvez tivesse ficado esquecida até Chomsky resgatá-la e defendê-la bravamente. Isso ocorreu possivelmente porque Darwin nos colocou no mesmo nível dos outros animais, e porque a diversidade de línguas parecia impossibilitar explicações universalistas. A linguagem, como prova de nossa superioridade, não poderia ser nada menos do que obra humana, e em nada se assemelharia à comunicação dos outros animais.

Só que ao olharmos para os outros animais percebemos a diversidade de espetáculos proporcionados pelas habilidades singulares de cada espécie. Nós, humanos, fazemos nosso show com nossa capacidade de linguagem falada complexa, que só nós possuímos, mas isso não nos torna menos animais, nem um animal superior aos outros, e muito menos o topo da evolução. Todos os seres vivos são especialmente únicos, e nós não somos uma exceção.

Além disso, a concepção evolucionista não é incompatível com as explicações culturais. Ver o comportamento humano como sujeito à seleção natural nos ajuda a entender porque ele ocorre dessa forma e não de outra. Segundo o Modelo Causal Integrado, os fenômenos culturais não podem ser explicados sem a Biologia, o que não significa que possam ser inteiramente explicados por ela, do mesmo jeito que os fenômenos da Bioquímica não podem ser explicados sem a Química Orgânica, o que não significa que são inteiramente explicados por ela. Um nível de análise não explica o outro e não é redutível a ele, mas não pode ignorar os seus princípios.

Da mesma forma, a nossa constituição biológica não explica a linguagem, mas pô-la de lado pode fazer com que uma dimensão importante do fenômeno seja perdida. Darwin já havia notado que a explicação evolutiva não era uma alternativa à explicação cultural: é por meio da natureza, pelo que ele chamou de instintos, que a arte da cultura acontece.

Adaptado de minha publicação original na revista PSIQUE Ciência & Vida, ano II nº 20.

Referências

Chomsky, N. A Review of B. F. Skinner's Verbal Behavior. In: Language, 1959.

Darwin, C. A origem do homem e a seleção sexual. São Paulo, Hemus, 1974 (1871).

Pinker, S. O Instinto da linguagem, 1994.

Seyfarth, R.M.; Cheney, D.L. e Marler, P. Monkey responses to three different alarm calls: evidence of predator classification and semantic communication, 1980.

sábado, 1 de dezembro de 2007

Existe olhar antes do interpretar?

Imagine a seguinte situação: um físico experiente e seu filho de poucos meses no colo. Eles estão em um laboratório repleto de fios, parafusos, caixas e botões. No meio de tudo isso, há um tubo de raios X. Quando o pai e a criança olham para esse objeto, vêem a mesma coisa?


Aparentemente é uma questão simples, mas por trás dela há toda uma discussão que envolve filosofia, e quem diria, até mesmo a ciência. Deixemos isso para mais à frente. Afinal, qual a importância disso para a vida das pessoas? O que interessa saber se um físico e um bebê olham a mesma coisa ou não? Não parece óbvio que sim?

Esse exemplo foi dado por Hanson, importante filósofo do século XX, em seu texto “Observação e interpretação”. Ele responde à pergunta inicial da seguinte forma: sim e não. Sim, porque eles têm consciência visual do mesmo objeto. Não, pois o modo como têm essa consciência é profundamente diferente. A criança pode estar apreendendo exatamente os mesmos dados óticos, mas pode não estar observando nada em particular. Já o físico vê um instrumento, que tem certa utilidade, que pode ser usado em tais casos e de tal maneira.

O físico não está fazendo nada mais do que a criança ou uma pessoa comum que nada entende de física e de instrumentos. Ele está apenas olhando – porém o resultado não é o mesmo. Do mesmo modo, quando ouvimos uma língua estrangeira perto do nativo estamos tendo as mesmas impressões auditivas que ele. Para ouvir o mesmo que ele ouve, porém, precisamos aprender sua língua. Podemos não notar que as cordas do violão estão desafinadas, contudo isso é dolorosamente óbvio para o músico. Podemos não perceber que aquele amontoado de panos é a mais nova criação do estilista. Há muitíssimas maneiras de ouvir sons, assim como de ver um monte de linhas, formas, manchas.

Fourez, matemático e filósofo francês, em seu livro “A construção das ciências” diz que a observação não é puramente passiva: trata-se antes de uma certa organização da visão. Para observar é preciso sempre relacionar o que se vê com noções já possuídas anteriormente, normalmente compartilhadas culturalmente. Essa noção já vem desde Kant na filosofia, e a psicologia cognitiva é uma abordagem que segue nessa linha, insistindo no caráter construído de nossos conhecimentos.

Fourez diz ainda que o que nos dá a impressão de imediatez à observação é que não se colocam de maneira nenhuma em questão as teorias que servem de base à interpretação: a observação é uma certa interpretação teórica não contestada (pelo menos inicialmente). Como normalmente estamos próximos a pessoas que compartilham nossa cultura, e, portanto, uma visão de mundo semelhante a nossa, a ausência de um elemento novo dá um efeito de observação direta de um objeto. Portanto, mesmo não nos dando conta, nossa observação dos fatos é sempre a construção de um modelo de interpretação, que depende também de nossa história individual, nossas emoções, nosso estado motivacional, nosso gênero, nossa faixa etária.

Pode não parecer, mas esse assunto tem grande importância para a ciência. Isso porque muitas versões dela (alguns citariam o positivismo – movimento científico do século XIX -, por exemplo) consideram que observar diz respeito às coisas tais como são. O cientista deve relatar o que observa, de modo fiel à realidade. Nesse caso, a observação seria uma atenção passiva, pura recepção. Dois observadores científicos se defrontariam com os mesmos dados, caso divergissem, isso ocorreria posteriormente, no momento em que interpretam esses dados. O que Hanson salienta é que a interpretação não ocorre a posteriori porque ver já é interpretar. Não existe algo como órgãos “puros” da visão isolados da pessoa. Por isso, a observação científica e a interpretação científica são inseparáveis. No caso das ciências, os saberes compartilhados por certo grupo de cientistas, ou seja, suas teorias, também fornecem uma maneira de se ver tal fenômeno.

E o que uma pessoa comum tem a ver com tudo isso? Popularmente é comum se pensar que a observação é direta, global, imediata. Ela não é. É importante que se desenvolva a noção de que os cientistas não são indivíduos observando o mundo com base em coisa nenhuma, são na verdade participantes de um universo cultural e lingüístico no qual inserem os seus projetos individuais e coletivos. Deve-se questionar a visão ingênua da ciência que a encara como um processo absoluto e não histórico. O cientista não é um observador fiel dos fatos, ele é um sujeito que se situa histórica e culturalmente. Assim, a ciência não é neutra e absoluta. Isso faz com que não seja válida?

Referências bibliográficas

Fourez, G. (1991) A construção das ciências – introdução á filosofia e à ética das ciências. São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista, 1995.

Hanson, N.R. “Observação e interpretação”. In: Filosofia da ciência. Org. Morgenbesser, São Paulo: ed. Cultrix, s/d.