Mostrando postagens com marcador intercâmbio. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador intercâmbio. Mostrar todas as postagens

domingo, 20 de setembro de 2009

Intercâmbio na UMinho – o que aprendi – parte II


Continuando a falar sobre meu intercâmbio (leia a parte I), sobre o que a UMinho tinha de diferente.

5 – Uso de softwares – Nas matérias do mestrado integrado em Psicologia Experimental, aprendemos bastante sobre o uso de softwares para realizar pesquisa. Foi algo que eu nunca tinha tido contato, e que mudou meu conceito sobre pesquisa. Aprendemos a usar o Praat (utilizado na área da linguagem), o G-power (ferramenta de estatística) e o SuperLab. Esse último oferece muitas possibilidades, o utilizamos para pesquisas na áreas da memória e na de linguagem, mas pode ser usado em muitas outras áreas. As aulas eram bastante práticas, voltadas para o aprendizado dessas ferramentas. As avaliações eram, por exemplo, realizar uma pesquisa utilizando o SuperLab, ou então provas realizadas no computador, em que tínhamos que elaborar uma pesquisa para avaliar X aspecto, usando o SuperLab. Isso fez com que eu aprendesse a dominar essas técnicas, o que foi muito importante. Agora sei outras formas de pesquisa além do questionário e da entrevista.

6 – Grupos pequenos – Só fiz uma matéria em que havia muitos alunos, as outras cinco eram grupos bem pequenos, entre 6 e 15 alunos. Há um acompanhamento mais de perto do aluno, um aprendizado mais tutorial, como foi proposto por Bolonha. As vantagens são óbvias, há mais espaço para a participação, acompanhamento, discussão, enfim, o grupo cresce mais rápido, na minha opinião, do que em um grupo muito grande.

7 – Participação em pesquisas – na UMinho os alunos podem ter como parte da nota nas matérias a participação, como sujeitos, em pesquisas. Isso facilita, e muito, a vida do pesquisador, porque consegue mais facilmente os participantes. Por outro lado, trata-se de alunos de Psicologia, o que pode enviesar algumas pesquisas (é uma crítica conhecida na área da Psicologia – a das pesquisas serem feitas, em sua maioria, com estudantes de Psicologia). Na ótica do aluno, pode ser incômodo ter que participar de pesquisas a todo o momento (não é obrigatório, mas como é uma parte da nota, a maioria tende a aceitar), mas ao mesmo tempo o leva a ter um contato maior com pesquisas, com formas e temas o que considero importante.

Esses são só alguns pontos, os que ficaram mais marcados. Essa foi minha experiência, outras pessoas podem ir à mesma universidade e ver outros aspectos. O intercâmbio foi muito marcante, porque mudou minha visão da Psicologia, mudou meus planos de carreira, não fugindo do clichê, abriu meu horizonte. Às vezes, ficamos muito fechados em nossa universidade, e não temos a possibilidade de ter uma vivência de algo diferente. O mesmo curso, em outra universidade, em outra cidade, em outro país, pode ser muito diferente. Não necessariamente você vai gostar de tudo, concordar com tudo, porém terá algo com que confrontar sua visão habitual, o que já é enriquecedor.

Quanto à minha experiência, só posso dizer que a UMinho acrescentou muito em minha vida. Agradeço muito aos professores, que em geral me aceitaram bem, e me ensinaram muito, mesmo. Ser intercambista não é fácil, você já parte de uma desvantagem com relação aos alunos regulares, que tiveram a educação inteira naquele país, têm a cultura daquele país, e fizeram toda a graduação ali. Quando o professor diz, “Como já vimos antes...” a vida de um Erasmus se complica. Ainda assim, o desafio é interessantíssimo. Procurar entender aquela visão, aquela forma de entender a Psicologia, de trabalhar e pesquisar nela, correr atrás de pelo menos um pouco que já foi dado, tentar, em alguns momentos ser como um aluno regular de lá, e ao mesmo tempo, saber, a todo momento, que é um estrangeiro (não só de outro país, mas de outra Psicologia!). Por isso, nem sempre nosso rendimento, nossas notas, são como a dos alunos regulares. As minhas não foram. Encarei o desafio de fazer muitas matérias, por isso nem sempre consegui me dedicar a todas como deveria, mas esse desafio me fez crescer bastante. Não me arrependo, portanto, da minha escolha de cursar seis disciplinas. O que trouxe delas foi muito maior do que as notas que estão escritas no meu papel do intercâmbio. Foi uma mudança de postura, de entendimento, de ponto de vista, de planos, de rumos, que ninguém conseguirá medir facilmente.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Intercâmbio na UMinho – o que aprendi – parte I

Todos sabem que um intercâmbio de estudo não se resume somente ao estudo – ganha-se experiência de vida, conhece-se lugares, etc e etc. Sim, ganhei muito em termos pessoais, mas nesse blog vou falar da minha experiência acadêmica (para dicas gerais sobre viagens, fiz outro blog, o Europa para Poupadores).

Mesmo falando da experiência acadêmica, ainda assim é difícil resumir, e o que aprendi não vai se limitar a esse post. Está em todos meus outros posts anteriores sobre a UMinho, e refletirá em todos daqui para a frente, ainda que eu nem fale no meu intercâmbio, na UMinho ou em Portugal.

Em janeiro desse ano, fui contemplada com uma bolsa do programa ISAC-Eramus (leia o post sobre). Ela cobriu um semestre de graduação na Universidade do Minho, e parti no final de fevereiro e voltei no começo de agosto. Cursei o que se refere ao segundo semestre europeu, pois o primeiro vai de setembro a janeiro, e o segundo, de fevereiro a julho. Lá pude assistir a várias matérias, para depois definir meu plano de estudos – as que eu iria realmente cursar.

Para decidir as que eu iria assistir, olhei antes a lista das matérias, que não mostrava o ano que cada qual se referia, apenas os nomes das disciplinas. Pelos nomes, escolhi mais de dez. Cortei algumas e consegui selecionar apenas seis. Depois de assistir às seis, gostei de todas. Uma era do primeiro ano, “Neurociências Cognitivas”, outra era do segundo ano, “Laboratório de Cognição Social”, e as outras quatro eram justamente todas as obrigatórias do segundo semestre do mestrado em psicologia experimental (para quem não sabe, lá o mestrado é integrado, nos dois anos seguintes aos três da licenciatura. Saiba mais no post sobre grade curricular). Essas eram: “Laboratório de memória humana”, “Laboratório de linguagem”, “Metodologia e análise de dados em psicologia experimental” e “Comportamento e cognição animal”.

Como tinha gostado de todas resolvi cursá-las, porém descobri que passavam dos créditos máximos permitidos pela universidade, que eram 35 por semestre. Cada matéria tinha 6 créditos, então eu estava com um total de 36, passando do limite. Conversei com a minha coordenadora, responsável por aprovar meu plano de estudos, e mostrei a ela quão importante era para mim estar ali e cursar todas essas matérias. Ela entendeu, disse que ninguém poderia impedir alguém que quer estudar de estudar, daí conseguiu a aprovação do Gabinete de Relações Internacionais (GRI) para que eu cursasse mais créditos que o permitido.

No GRI, falaram-me que se eu pegasse quatro matérias já estava bom, que eu deveria pegar cinco se quisesse estudar muito, e que seis era inviável. Insisti, disse que na USP eu cursava até dez matérias em um semestre, e eles aceitaram. Confesso que na hora achei que eles estavam exagerando com relação aos cuidados com o excesso de créditos, porque considerei que seis matérias não era muito, afinal na USP eu realmente costumava fazer muitas, mais do que seis com certeza. Só depois de um tempo é que percebi do que eles estavam falando...

Voltando um pouco na história, confesso também que antes de ir para a UMinho eu tinha algum preconceito com relação à universidade e à Portugal. Acho que isso infelizmente, acontece muito com os brasileiros, talvez pelas piadas de português, por desconhecimento, acabamos tendo preconceito. A UMinho não é uma universidade conhecida, eu mesmo nunca tinha ouvido falar dela antes de optar na hora da bolsa. Escolhi Portugal porque eu tinha que ser fluente na língua. As universidades mais conhecidas de Portugal são a de Lisboa, Porto e Coimbra. Eu podia escolher entre Coimbra e a do Minho. Optei pela última pelos títulos das matérias, que me interessaram mais. Depois de ter conseguido a bolsa, fiquei me perguntando se tinha mesmo sido uma boa escolha. Portanto, cheguei à Portugal com baixas expectativas.

Minhas primeiras impressões sobre as aulas foram as melhores possíveis. Achei os professores super novos, e muito bons. A única matéria que era em uma sala grande, de mais de 50 pessoas, era a “Neurociências Cognitivas”, para o primeiro ano. Nessa aula havia um pouco de conversa paralela entre os alunos, o que eu não gostava muito. Mas nas demais, eram grupos pequenos, de menos de 15 pessoas, e em salas com computadores. Cada aluno se sentava em frente a um computador. Fiquei impressionada com essa infra-estrutura.

Depois descobri que havia o uso de um sistema online, o e-learning (leia mais no post). Na primeira semana, recebi os programas das matérias. Minha sensação era de estar em um lugar muito moderno. Senti-me, pela primeira vez, na psicologia do século XXI.

Cabe aqui um parêntesis. Muitos devem saber que faço algumas críticas ao curso de psicologia da USP. Gostaria de esclarecer que o curso tem suas qualidades e seus pontos fracos, como em qualquer outro lugar. Para mim, em especial, não é um curso adequado, para o que gosto de estudar e para o que almejo em minha carreira. Para outras pessoas, pode ser um curso ótimo. Por isso, queria deixar claro que essas são as minhas impressões sobre a psicologia da USP, que estão longe de ser gerais, pois há pessoas que não gostam, outras que gostam mais ou menos, outras que adoram.

Minhas principais críticas ao curso de psicologia da USP são o viés excessivo de matérias na área da clínica, de orientação psicanalítica. A carga de matérias obrigatórias vinculadas à clínica psicanalítica é absurda. As optativas não passam longe disso. Tive que passar os anos da minha graduação estudando psicanálise sem ter o mínimo interesse, enquanto podia ter me dedicado ao que realmente importa e é relevante para mim. Isso seria possível com um currículo mais aberto, que contemplasse mais áreas, com uma menor carga de obrigatórias e com mais opções nas chamadas erroneamente de “optativas” (porque sua carga horária é pesadíssima, e com poucas opções, ou seja, viram “optatórias”). Outra crítica é quanto à atualidade do que lemos. Os textos são antigos, muito antigos. Nada contra, claro que é necessário ler originais, muitas vezes. O problema é ficar restrito nisso. Eu praticamente nunca tive que ler nada da década de 90 para frente, na USP. É considerada uma universidade voltada para a pesquisa, mas eu discordo, pelo menos no curso de psicologia. O incentivo à pesquisa existe, mas ainda é muito fraco e construído sobre bases fracas.

Voltando à UMinho, minha história de intercâmbio é uma história de quebra de preconceitos. Cheguei achando que a universidade era inexpressiva e de pouca qualidade, e me enganei. Para minha surpresa, lá encontrei a psicologia que sempre quis. Senti que estavam ali quase todas as minhas idéias sobre o que deveria ser o curso, mas que eu nem mesmo cheguei a pensar claramente. Senti uma mistura de surpresa e alívio. É bom quando você não se sente mais um peixe fora d´água.

O que a UMinho tinha de diferente?? Bem, várias coisas. Vou listar algumas delas.

1 – Estrutura do curso. Gostei muito da liberdade dada ao aluno desde o início, em que ele pode optar pelas matérias que vai fazer, tendo que escolher por um tanto de cada área. (Leia mais em grade curricular). O mestrado integrado é muito bom, pois nos dois últimos anos você já está se especializando e se dedicando exclusivamente ao que gosta. Com cinco anos de graduação, como no Brasil, você é obrigado a agüentar por 5 anos estudar várias áreas que, em determinado ponto, já sabe que não se identifica. A psicologia é um campo heterogêneo. Tem muita coisa, muitas linhas teóricas, muitos autores, muitas formas de intervenção, de pesquisa. É esperado que o aluno de aproxime mais de uma área. Com o mestrado integrado, o aluno encurta o tempo de contato com as várias áreas e depois já se dedica ao que gosta. Sim, claro que nem tudo é mil maravilhas. Existem críticas a esse sistema. Conversando com alunos de lá, as principais críticas são que isso encurta o tempo de contato com as áreas, e o aluno indeciso fica prejudicado. A acusação é a de que isso diminui o tempo de estudo, apressa-o, o que pode ser prejudicial. Eu concordo um pouco com isso. Por outro lado, penso que é importante um direcionamento, porque aqueles, como eu, que decidem por uma área, ficam extremamente prejudicados com uma graduação longa.

2 – Modernidade. Com isso quero falar tanto da infra-estrutura, como as salas com computadores, quanto com relação ao material. As salas com computadores são usadas da seguinte forma: na graduação, normalmente o professor pede para entrarmos em sites, para vermos alguma coisa, por exemplo, no laboratório de cognição social entrávamos em sites de pequisa em inglês, para vermos como são feitas pesquisas nessa área. Respondíamos a algumas online, e discutíamos como eram feitas, seus objetivos e se eram atingidos. Nas aulas do mestrado, usávamos o Excel ou outros softwares para aprender a fazer pesquisa, seja tabular ou analisar dados, seja montar o experimento. Quanto ao material, os textos lidos são muito atuais. Isso não significa que é condenado que se leia algo antes dos anos 2000, claro, mas o grosso do que é lido é de 2000 para cá. Isso, para mim, foi uma novidade atordoante. Por exemplo, no laboratório de cognição social, do segundo ano, nós tivemos que ler um especial de uma revista científica sobre cognição social. Eram oito artigos em inglês, de 2008. Inacreditável. Fiquei tão feliz que poucos podem imaginar. Sabe o que é se sentir, finalmente, estando com o mundo? Falar a língua que o mundo está falando, dos temas que os cientistas relevantes estão falando? Na USP, praticamente não me lembro de ter que ler um artigo científico para uma matéria obrigatória, muito menos em inglês, muito menos um texto atual.

3 – Uso da língua inglesa. Todos os textos que tive que ler na UMinho, sem exceção, eram em inglês. Os professores muitas vezes usavam slides em inglês. Todos os trabalhos podiam ser entregues em inglês. Isso servia a uma dupla função, a primeira era a de facilitar a vida dos intercambistas, que vinham de vários lugares do mundo e que muitas vezes não eram fluentes em português. A segunda era a de incentivar os alunos a usar o inglês, que é a língua da ciência. Achei isso impressionante, muito bom. Se eu tivesse que ter lido textos em inglês desde o começo da minha graduação, hoje estaria muito melhor nisso, o que teria facilitado absurdamente minha vida. Na USP, os professores têm certo receio de dar textos obrigatórios em inglês, porque nem todos os alunos sabem. A meu ver, isso é um equívoco, porque dar textos em inglês incentivaria os que não sabem a procurar saber, e não nos privaria de ler material de qualidade, pois muitos deles estão em inglês (atenção, eu disse muitos, não todos!).

4 – Avaliação contínua. Eu sempre considerei que a avaliação de uma prova só no final de uma disciplina era algo completamente inadequado. Na UMinho, há uma avaliação contínua do aluno, o que nos obriga a sempre estar estudando, a sempre estar a par da matéria! A partir da segunda semana de aula, cheguei ao cúmulo de realizar no mínimo uma prova por semana, isso até o último dia de aula. As avaliações são feitas através de provas (que são chamadas de mini-testes), trabalhos, seminários e participação em aula. O que importa é que são feitas continuamente, sempre nos mostrando onde temos que melhorar, e nos dando chance para tal. Outro fator importante é a rigidez na correção. Os professores são muito rígidos na correção sim. Se você faz algo meia boca, vai receber uma nota meia boca. Não há nota por dó. Isso é importantíssimo. Dá para perceber que estão preocupados em formar bons alunos. Não querem nos passar por passar. Querem que realmente sejamos bons profissionais, que mostremos que aprendemos, não querem ver enrolação. “Encher lingüiça” não funciona na UMinho, pelos menos não nas matérias que fiz. Percebi que os professores super estimam os alunos, cobrando muito deles, de modo a sempre “puxá-los” para cima. O nivelamento é por cima, e não por baixo. Incrível!

Bom, vou parar por aqui a parte I, que já está longa. No próximo post continuarei a falar da minha experiência de intercâmbio.

domingo, 6 de setembro de 2009

Entrevista com coordenador do mestrado integrado em psicologia experimental da Universidade do Minho

O professor Emanuel Pedro Viana Barbas Albuquerque, além de diretor do curso de psicologia (ver entrevista anterior), também é o coordenador do Mestrado Integrado em Psicologia Experimental. Fiz algumas perguntas sobre a escolha pela área, a perspectiva de emprego e sobre sua trajetória profissional.


CientíficaMente - Por que há tão poucas vagas no mestrado em psicologia experimental (são 8 vagas?)

Porque não valia a pena haver 20 porque não há tantos candidatos. Nós estimamos que cerca de 10% dos alunos que entram em nosso curso de psicologia queiram o mestrado nessa área. Outro motivo é que nós entendemos que o numero de alunos reduzido é o ideal para trabalhar depois na dissertação, porque nós professores ficamos com um ou dois alunos cada um, o máximo para desenvolvermos um trabalho mais próximo. Temos quatro áreas de investigação, a percepção, a memória, a linguagem e comportamento animal. Abrimos uma ou duas vagas para cada uma dessas áreas. O que queremos, de fato, é trabalhar com poucas pessoas, para um trabalho mais acompanhado.

CientíficaMente - Por que o senhor achar que a procura pelo mestrado em psicologia experimental é tão baixa?

Eu acho que as pessoas não pensam na psicologia como uma possibilidade de área de investigação. Há alunos que se confrontam com este outro lado da psicologia, com uma investigação mais básica, já mais tarde no curso. A formação em psicologia é muito centrada na clínica. Mesmo algumas das cadeiras consideradas básicas são clínicas, como a de psicopatologia, psicologia do desenvolvimento, psicologia da educação, dada com um enfoque escolar mais centrado na intervenção. Os alunos se confrontam com essa possibilidade de fazer investigação somente quando chegam aos laboratórios. Aí sim, tem o laboratório de memória, animal, percepção, e aí é a primeira vez que entram em contato com estes temas. E, claro, há pessoas que gostam de investigação e outras que não. Há quem se assuste, e há quem considere um desafio. Portanto, se cada um de nós professores conseguíssemos captar um ou dois alunos, seria ótimo. Mas a procura tem muito a ver com a representação que se tem da psicologia. Quando alguém pensa em medicina, pensa em intervenção médica, quase ninguém pensa na investigação bioquímica, tem a ver com isso.

CientíficaMente - Na minha percepção, professor, aqui na UMinho essa ligação da psicologia com clínica ainda é menor do que em outros lugares, porque os alunos ainda têm uma chance de encontrar o contato, com os laboratórios [os laboratórios são parte obrigatória da grade curricular, e correspondem a treinos em pesquisa. Saiba mais lendo sobre a grade curricular do curso de psicologia na UMinho).

Sim, é verdade, há universidades em que isso não acontece. Há universidades em que essa componente experimental é muito reduzida ou nula. Há nichos na investigação em psicologia experimental nas diversas universidades. Algumas universidades são mais clássicas, outras menos, e isso tem reflexos em como os alunos se aproximam de nós, dessa área.

CientíficaMente - Quais são as perspectivas de emprego na área?

É evidente que quem vem para a área de experimental é interessado na investigação. Nesse sentido, eu diria que quando alguém termina o curso, qual o horizonte que tem, já não é o que acontecia há 20 anos, que era ir para uma empresa. Hoje as coisas são pensadas mais a curto prazo. Para quem faz o mestrado em experimental e é bom, podemos oferecer o doutoramento, que dura 3 ou 4 anos, com bolsa garantida. Cerca de 96% dos alunos que estão a fazer o doutoramento aqui têm bolsa. Isso porque estão em um centro de investigação renomeado. E isso é importante para se conseguir uma bolsa. Portanto, a curto prazo, uma fonte de renda é a bolsa de doutoramento. A seguir, pode-de fazer um pós-doc. Eu diria que, para alguém que termina o curso ter uma perspectiva de emprego, primeiro pode se manter com as bolsas por uns anos. E depois, pode ter alguma dificuldade de arrumar emprego, mas é o que acontece em várias áreas. Engenheiros têm um emprego, mas aquilo vai acabar dali a um tempo, e aí, o que vou fazer? Várias áreas se deparam com essa questão de o que fazer depois que essa fonte de renda acabar. O mercado de trabalho não está fácil para ninguém.

CientíficaMente - Nessa área, o forte é a carreira acadêmica...

Sim, é. Aqui em Portugal ainda não há um percurso profissional para a investigação em psicologia experimental, mas há possibilidade de se trabalhar. Na área de sensorial, por exemplo, ontem eu estava a ouvir uma reportagem sobre um departamento de análise sensorial em uma cervejaria. Trata-se da aplicação da psicofísica clássica. Na área da memória, pode-se trabalhar na reabilitação cognitiva. Acho que é preciso ser empreendedor, é preciso ter vontade de fazer coisas. Isso pode ser motor para que pessoas criem sua própria empresa, seu próprio serviço.

CientíficaMente - Por que o senhor escolheu a área da psicologia experimental?

A minha formação é em clínica. Eu estava a freqüentar a área de clínica no quinto ano, a estagiar em um centro de saúde mental, e surgiu uma vaga para monitor na área de memória humana. Comecei então a dar aulas aos meus próprios colegas, do primeiro ano. Como era uma área que gostava, a partir dali nunca mais saí. Depois de ter terminado o curso ainda dei consulta por um ano, e depois achei que aquilo não tinha a ver comigo. Daí comecei a investigação com memória e faces humanas, e fiquei até hoje. Vim para a UMinho em 1993, e aqui fiquei.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Entrevista com diretor do curso de Psicologia da Universidade do Minho


Entrevistei o diretor do curso de Psicologia da UMinho, o professor Emanuel Pedro Viana Barbas Albuquerque. Licenciado e doutor pela Universidade do Porto, atualmente é docente e pesquisador na área da memória. Além de diretor do curso, ele também é o coordenador do Mestrado Integrado em Psicologia Experimental. É um professor muito querido pelos alunos, e que digamos assim, dá o que chamamos de uma boa aula. Preocupado com o entendimento do aluno e com o seu aperfeiçoamento. Nessa entrevista, fiz perguntas para o professor na qualidade de diretor do curso (na próxima postagem, a parte da entrevista como coordenador do mestrado integrado em psicologia experimental).

Cientificamente - Primeiro vou lhe fazer algumas perguntas com relação ao curso de Psicologia na UMinho. O senhor poderia falar um pouco sobre as propinas e em que se baseia o Estado para poder cobrá-las? (Aqui cabe um parêntesis. Nas universidades portuguesas públicas, o aluno paga um certo valor, que é chamado de propinas – não confunda com o sentido brasileiro, que é criminoso. São taxas que todo aluno deve pagar para poder cursar a universidade pública).

A propina é uma taxa que é imputada ao aluno para permitir a freqüência no ensino superior. Ela determina que um aluno médio em Portugal do ensino superior, digamos assim, custa X, por exemplo, 5 mil euros por ano. O aluno deve ser responsável pelo pagamento de até um quinto desse valor. O restante do valor da formação do aluno é a verba que o Estado dá às universidades por cada aluno que tem. A Universidade do Minho recebe por cada aluno cerca de 4 mil euros do Estado, sendo que o restante do custo médio estimado por aluno ao ano tem que ser suportado pelo aluno. Isso pode fazer com que de ano para ano, as propinas possam variar. De fato, a propina foi muito baixa até uns anos atrás, mas agora se aproxima de um quinto do valor, e agora as universidades praticam o valor máximo que podem cobrar como propina, que é um quinto desse custo estimado médio. Estamos a falar das propinas do mestrado integrado, pois depois há as propinas do doutoramento, que têm valores completamente diferentes, bem mais altos.

Cientificamente - Para o doutoramento, como são as regras?

Para o doutoramento é diferente, ele tem um valor livre de financiamento. Significa que a universidade decidiu que para cobrir os custos associados a um aluno de doutoramento, pagam cerca de 2.400 euros por ano. Por isso as propinas de um aluno de doutoramento são muito maiores que a de um aluno do mestrado integrado. O Estado não financia os alunos de doutoramento, as universidades é que decidem um certo valor, bem pequeno, para auxiliar.

Cientificamente - O valor da propina pode ser divido para pagamento em vezes? Porque apesar de não ser um valor tão elevado, muitas famílias podem ter dificuldade de pagar.

Sim, pode ser dividido em vezes, se não me engano, em até quatro vezes. Também temos um serviço de ação social, em que os alunos mais carentes podem ter bolsas, que podem até chegar à redução do valor da propina. O que acontece é que o sistema fiscal português, como em muitos outros países, é fácil de furar. Pode acontecer de uma pessoa de classe média superior, porque tem rendimentos anuais declarados baixos pode ter acesso a uma propina enquanto alguém que trabalha para o Estado e que não pode fugir ao fisco, pode não ter acesso a certos auxílios. Em Portugal, quem paga mais impostos é a classe média. Porque a maioria trabalha para o Estado e não pode fugir ao fisco. Ainda bem, porque acho que todos devemos pagar impostos, mas todos deveriam pagar o que têm que pagar, e não só a classe média.

Cientificamente – O senhor acha que em Portugal funciona aquele ideal de os alunos com menos poder aquisitivo irem para as universidades pública, e os com maior poder aquisitivo irem para as públicas?

Acho que não. Acho que a divisão entre o público e o privado não tem tanto a ver com essa concepção. Claro que do ponto de vista do acesso ao ensino superior, é muito claro que quem tem o acesso normalmente são os alunos das classes médias do ensino regular. Mas isso tem a ver com o próprio sistema de ensino até o ensino secundário, que aqui é o equivalente ao décimo segundo ano. A escola é fundamentalmente uma escola cultural, quem está mais próximo ao meio dessa escola, que são as classes mais altas, tem mais sucesso acadêmico. Isso é tão evidente que a partir do décimo primeiro, décimo segundo, o número de alunos que utiliza o apoio escolar particular fora da escola é imenso. E se paga muito caro por isso. Portanto, é preciso ter algum poder de compra para poder recorrer a isso. O que acontece mais, eu penso, é quando se analisa que pessoas vem para a universidade. A UMinho tem uma questão regional, ou seja, os alunos que vem para cá são da própria Braga e das cidades dos arredores. Isso é uma característica das universidades daqui, a mobilidade não é tão grande. As pessoas acabam optando, não conseguindo entrar numa universidade pública, por uma particular. Por exemplo, se um aluno quer fazer psicologia, e tem uma universidade particular em sua cidade, e uma pública em outra, ponderando os custos acaba ficando na particular. Percebe que é mais barato ficar em casa e pagar a propina da particular, que é mais elevada, do que ter que se mudar e alugar um quarto, comer fora. Nos últimos anos, nós estamos enfrentando o abandono do ensino superior. Há muitos alunos que abandonam a universidade. A maior razão é a econômica. Normalmente são pessoas de outras cidades, que vêm para cá e de fato não agüentam. Porque não são só propinas, são fotocópias, comida, todo o custo associado ao fato de se estar deslocado. Portanto, esse tem sido um problema para as universidades.

Cientificamente – Aqui na universidade há um tipo de aluno que se chama aluno-trabalhador. Quais os benefícios que ele tem?

O ensino superior português tem um estatuto especial, digamos assim, para os trabalhadores estudantes. Isso está regulamentado, e a lei determina que um aluno que trabalha e que esteja a cursar o ensino superior tem algumas horas por semana que pode sair do trabalho para freqüentar a universidade. Digamos que alguém tem um contrato de trabalho de 35 a 40 horas semanais. A pessoa pode escolher não trabalhar em determinados dias até o máximo de X horas. Em função disso, a pessoa pode procurar organizar a sua vida para poder ir às aulas. Na universidade, esses alunos têm o estatuto de trabalhador-estudante, o que significa que não podem reprovar por faltas. Tem alguma possibilidade de não virem as aulas, claro, e tem regimes de avaliação especiais. Têm mais oportunidade para fazer exames. Com Bolonha, com essa nova forma de encarar o ensino, mais baseada no desenvolvimento de competências e apoio tutorial, esses alunos têm mais dificuldade de acompanhar. Como não podem estar sempre presentes, acabam prejudicados. Bolonha tem isso do apoio tutorial, o professor acompanhando continuamente o aluno, as competências de ensino, portanto, é mais difícil para esses alunos.

Cientificamente – Como estão os cursos de psicologia em Portugal?

Em Portugal há muitos cursos de psicologia. Recentemente, com a adesão ao processo de Bolonha e com o mestrado integrado, surgiu a idéia de que não é mais suficiente três anos para a prática da psicologia, são necessários cinco anos com os dois últimos sendo a especialização. O Estado começou a regulamentar as universidades que têm competência para realizar esse tipo de mestrado integrado, que são poucas: Uminho, Porto, Lisboa, Coimbra e o ISPA. São só cinco no país inteiro, quatro públicas e o ISPA, que é privado. As outras universidades oferecem um primeiro ciclo, um bacharelado, e depois podem oferecer o segundo ciclo. Com esta nova regra para os cursos de psicologia, é provável que esses cinco cursos se estruturem como os mais fortes, e os que não conseguirem chegar, terão cada vez menos alunos. Os alunos vão ser confrontados com isso. Posso entrar em um curso de cinco anos que me garante o exercício profissional ou em um outro que não me garante. Recentemente, as bolsas da FCT que são para os alunos do doutoramento, começaram a beneficiar aqueles que já vêm com o mestrado integrado, dando mais pontuação a eles. Isso mostra que o próprio Estado, depois de ter criado o mestrado integrado, está a começar a valorizar as candidaturas desse tipo de formando. É mais uma indicação de que no futuro os mestrados integrados estarão associados ao doutoramento. Claramente há essa idéia de que a formação em psicologia deve ter três ciclos contínuos [primeiro – licenciatura, segundo – mestrado, terceiro – doutorado].

Cientificamente – O curso de psicologia da universidade do minho oferece mestrado em sete áreas - Psicologia Clínica; Psicologia da Saúde; Psicologia Escolar e da Educação; Psicologia do Trabalho, das Organizações e dos Recursos Humanos; Psicologia da Justiça; Psicologia do Desporto e do Exercício; e Psicologia Experimental e suas Aplicações. Qual especialização os alunos preferem?

Nós temos vagas em toda as áreas. Há áreas que são sistematicamente preenchidas, que são a justiça e a clínica. A área da saúde também tem sido escolhida Depois, há outras áreas que não tem todas as vagas preenchidas. As pessoas quando vêm ao curso vêm com uma idéia, que é a de serem psicoterapeutas. Á medida que vão avançando no curso, alguns vão mudando de idéia. Saúde, justiça e clínica são as áreas mais centradas na intervenção, e são as mais escolhidas. As outras quatro são menos centradas na intervenção, e são menos escolhidas.

Cientificamente – Qual é a área mais concorrida? E a menos?

A mais concorrida é a clínica e a menos concorrida é desporto. Nos últimos anos, escolar e organizações têm crescido. Experimental e desporto são áreas menores. Apesar de tudo, a área de experimental consegue preencher todas as vagas, pois são poucas. A área em que sempre há mais candidatos do que vagas é justiça. Nesse caso, a seleção é por nota. Aliás, todas as seleções são por nota, seja para as disciplinas, para estágios. E no mestrado, temos sempre mais vaga do que alunos. O que varia é o número de vagas em cada área, por isso as vezes um mestrado é muito concorrido e tem mais alunos do que vagas. As vagas que sobram são abertas para alunos de outras universidades.



Queria agradecer ao professor Pedro por ter cedido seu tempo para essa entrevista. É interessante saber o funcionamento de uma outra universidade, principalmente em outro país, ainda mais Portugal, pelo nosso passado colonial.

sábado, 6 de junho de 2009

Intercâmbio na UMinho - entrevista com o diretor do departamento de psicologia

Nessa entrevista, pretendia ouvir um pouco do diretor do departamento de psicologia da UMinho e acabei por saber, depois de agendar a entrevista, que ele era bem mais do que isso – foi um dos fundadores do curso de psicologia da UMinho. Um pouco sobre o professor Óscar Gonçalves.

Professor Catedrático de Psicologia da Universidade do Minho (UM). Licenciado em Psicologia pela Universidade do Porto e Doutorado em Psicoterapia e Aconselhamento Psicológico pela Universidade de Massachusetts (EUA). Estudou também Neurociências na Universidade de Vigo, em Espanha.

Foi professor na Universidade do Porto, na Universidade de Califórnia, tendo sido professor convidado de várias universidade europeias e americanas.

É professor da Universidade do Minho desde 1989, sendo um dos fundadores do curso de psicologia o qual dirigiu desde o seu início até 1998.

Foi ainda Vice-Presidente do Instituto de Educação em Psicologia durante três mandatos, tendo sido coordenador dos cursos de pós-graduação em psicologia e Director do Mestrado em Psicologia Clínica desde o seu início.

Detentor de vários prémios científicos e profissionais (Fundação Engº António de Almeida; Alumni Award da Universidade de Massachusetts, e Associação dos Psicólogos Portugueses).

Tem mais de uma centena e meia de publicações em revistas e livros nacionais e internacionais, sendo autor de 11 livros, alguns dos quais publicados no estrangeiro. Orientou 24 teses de mestrado e 16 teses de Doutoramento.

O seu foco de pesquisa actual assenta na interacção entre marcadores neurocognitivos e estrutura cerebral e o seu funcionamento em perturbações desenvolvimentais, doenças neurodegenerativas e processos psicopatológicos.

No laboratório de Neuropsicofisiologia que dirige, investiga vários processos cognitivos e a sua relação com as estruturas cerebrais e seu funcionamento (MRI Estrutural e funcional; ERP’s) na Síndrome de Williams; Envelhecimento e Esclerose Múltipla e vários quadros psicopatológicos.
Actualmente é Director do Laboratório de Neuropsicofisiologia e do Departamento de Psicologia da Universidade do Minho.


Entrevista


CientíficaMente - Vou começar com a pergunta que sempre faço aos meus entrevistados. O que é Psicologia?

Um modo formal de definir a psicologia é defini-la como a ciência do comportamento e/ou da atividade mental. Esse é o nosso código dentre os psicólogos, mas que pode ser avançado. A desvantagem, que pode ser uma vantagem dessa definição, é a sua clareza. Costumo dizer aos meus alunos uma frase que um médico português, o Salazar, costumava dizer – Se um aluno da medicina só da medicina sabe, nem da medicina sabe. Isto é ainda mais verdadeiro na psicologia, pois o psicólogo que só sabe da psicologia, nem da psicologia sabe. E para compreender o indivíduo em termos do comportamento ou da atividade mental a psicologia recorre a facetas múltiplas, lida com outras ciências, tem interface com outras ciências mais biológicas, como a própria biologia e a química. E tem também interface com áreas mais aplicadas, seja a medicina, as ciências jurídicas, as ciências econômicas. A psicologia, assim, é um composto de metodologias e conhecimentos que funcionam como dizia há poucos anos o editor da Psychological Sciencia, como uma hard science. A psicologia é uma ciência de plataformas variáveis, como os aeroportos, em que através da mesma plataforma podemos ter vários pontos de saída. A sua identidade é esse processo multifacetado.

CientíficaMente - O senhor disse que psicologia é ciência. Por que acha que é ciência?

Considero ciência qualquer disciplina que tem um conjunto de conhecimentos próprios e que tem uma metodologia que suporta esse corpo de conhecimentos, ou seja, que tem teorias que são sustentadas pela metodologia que a disciplina desenvolveu. Esta é a minha definição de ciência. Agora, em termos pessoais, e aqui já há muito desacordo entre os psicólogos, eu considero que a psicologia é uma ciência biológica. Cada vez mais o caminho da psicologia é um caminho de ciência biológica. É muito difícil entender o comportamento humano e animal sem nos aproximarmos do corpo de conhecimentos e metodologias que nos são proporcionadas pelas ciências biológicas e bioquímicas. Como dizia já Watson, no primeiro quarto do século XX, que a psicologia é uma ciência da natureza. Tal como outras ciências da natureza, também tem um objeto próprio, mas compartilha com outras ciências da natureza um conjunto de metodologias experimentais ou quase experimentais, e com um profundo enraizamento nos modelos matemáticos e dos conhecimentos da biologia para a compreensão dos seus próprios problemas. Portanto, eu diria que também é ciência no mesmo sentido que a sociologia é ciência, ciências jurídicas, isso numa visão de ciência mais alargada, porém numa definição mais hard de ciência eu acho que a psicologia deve caminhar cada vez mais como uma ciência da natureza.


CientíficaMente - O senhor foi um dos fundadores do curso de psicologia da Universidade do Minho. Percebo que se trata de um curso bastante experimental, no sentido de que valoriza a experimentação. Queria que o senhor falasse um pouco disso, de como isso foi construído.

Quando nós construímos esse curso de psicologia, há mais de vinte anos, eu estava nos Estados Unidos e fui convidado a vir e ajudar a desenhar o currículo. Quando se desenha o currículo tenta-se fazer aquilo em que se acredita. Portanto, naquela altura, a ideia era construir um curso muito forte, procurando psicológos de origem mais anglo-saxônica. Eu estava nos EUA, portanto tinha uma formação de raiz mais expeirmental, e queria valorizar essa área. Esse foram os ingredientes iniciais – gente jovem, recém-doutorada, com muita vontade de investigar, com experiência em diversas partes do mundo - eram essas pessoas que queríamos para o nosso curso. O curso foi tendo várias alterações. Nos últimos anos, de fato, puxou-se mais pela tradição experimental. A contratação de várias pessoas, e a própria evolução da psicologia, levou-nos a pensar que a diferenciação do nosso curso deveria ser nesse sentido. É muito importante que a psicologia, mesma nas suas vertentes mais práticas, pois eu também sou um psicólogo clínico, também tenho essa dimensão mais prática, tenha um fundamento científico. Através desse curso procuramos proporcionar um fundamento científico muito sólido, quer da psicologia ou das áreas que são importantes para a psicologia, como a matemática, a biologia, as ciências sociais. E mesmo nas componentes mais práticas, como a clínica, a jurídica, a educação, haja também uma forte fundamentação científica. Há uma tentativa de reforço da componente experimental, laboratorial, queremos que nossos alunos sejam fluentes no uso de várias metodologias laboratoriais, no raciocínio quantitativo. O exemplo mais claro disso é que os alunos daqui fazem - no que seria o equivalente ao vestibular de vocês – como disciplinas expecíficas para entrar no curso a biologia e a matemática. Para entrar no curso de psicologia da Universidade do Minho, essas são as provas específicas, biologia e matemática. É o único curso no país em que isso ocorre.

CientíficaMente - E nos outros cursos de psicologia do resto do país?

Há de tudo, as provas específicas geralmente são psicologia, filosofia, sociologia. Nós colocamos biologia e matemática porque consideramos serem essas as disciplinas essenciais. O resto podem aprender, mas sem uma boa base de biologia e matemática, fica difícil. Isso já dá uma ideia do tipo de perfil que nós queremos na hora da entrada, e ainda mais na da saída. Portanto, há mesmo muito reforço da componente experimental.

CientíficaMente - Como funciona esse vestibular?

São provas nacionais. Tem de várias disciplinas - biologia, química, matemática, e as provas são todas iguais, para o país todo, mas aí cada curso, de cada universidade, diz quais que são exigidas para entrar. As provas são iguais, a mesma prova de biologia que faz um aluno para concorrer à medicina em tal lugar, é a mesma que faz o aluno que quer entrar na psicologia da UMinho.

CientíficaMente - Assim, o senhor considera o curso daqui diferente dos outros cursos de psicologia do resto de Portugal?

Os cursos são avaliados por comissões externas, de quatro em quatro anos ou de cinco em cinco anos. Na última avaliação, nosso curso foi, pela segunda vez, o curso de psicologia mais bem avaliado. Foram só duas até agora, e nas duas nosso curso foi o mais bem avaliado. Estamos no topo em termos de avaliação de qualidade do curso. Se é o único com essas características, eu diria que talvez aqui é onde essas características são mais evidentes. Penso que outros cursos irão seguir nesse sentido de orientação, mais expeirmental. Portanto, não diria que é o único, mas é no qual é mais claro.

CientíficaMente - Todos os textos que lemos, em todas as aulas, são em inglês. Isso provavelmente vem dessa orientação mais anglo-saxônica...

Pois, eu acho que hoje o inglês é a língua da ciência. Tal como era o latim a língua de comunicação do conhecimento na Idade Média. Hoje é o inglês. Mais de 90% da produção científica na área da psicologia é em inglês. Falo das revistas de maior impacto. Isso pode ser discutido em termos de imperialismo, mas a verdade é que, se você vai em um congresso, tem que saber inglês. Mesmo a produção científica dos membros do departamento de psicologia daqui é em inglês. Não me lembro de, nos últimos anos, ter escrito um artigo em português. Se eu publicar em português, poucos vão ler, a possibilidade de comunicação fica muito reduzida. E temos que colocar nosso conhecimento no mercado universal de conhecimentos. Por isso os textos dos nossos alunos são em inglês. Se você for à reunião semanal do meu laboratório, o de neuropsicofisiologia, é em inglês, porque alguns membros não são portugueses, e essa é a única possibilidade de nos comunicarmos. E até mesmo pelo processo Erasmus, nós anunciamos as disciplinas que temos disponíveis em inglês. Ou seja, nós queremos alargar o processo Erasmus para captar cada vez mais alunos que falam inglês. Não necessariamente somente dos EUA e Inglaterra, mas aqueles países em que os alunos também falam inglês, os países nórdicos, vários países da Europa, por exemplo. E para isso, nossa estratégia é, nessa primeira fase, ter uma série de disciplinas em que nós disponibilizamos todo o material e os examos em inglês. Na segunda fase, queremos ministrar a disciplina só em inglês. Temos por agora vários investigadores contratados que só falam inglês. Temos também estudantes de pós-doutorado que só falam inglês. Portanto, é cada vez mais a língua usada.

CientíficaMente - E o senhor é um psicólogo clínico. Queria falar um pouco sobre a área da clínica. Isso porque venho do Brasil, e o choque que tive quando cheguei aqui foi que parece que não aquelas brigas e separações entre linhas teóricas com que estamos acostumados por lá. Aqui é como se não houvesse esse conflito. A minha pergunta é – não há conflito por que há uma linha teórica só ou ele está bem escondido... não sei....

Do meu ponto de vista, essa multiplicação de linhas teóricas, de psicoterapias, é um fenômeno do subdesenvolvimento da psicologia. Na medicina não há os adeptos da aspirina e os adeptos do paracetamol, quer dizer... Essas brigas só fazem sentido numa disciplina que ainda está muito marcada por questões históricas ideologizadas em demasia. Eu acredito que, a medida que a psicologia vai avançando como ciência, cada vez as práticas são as práticas derivadas do conhecimento científico. E os resultados do conhecimento científico podem fazer com que haja divergência entre áreas que não estão bem estabelecidas, mas dificilmente se estruturam como capelas epistemológicas. Eu acredito, e isso obviamente já corresponde a uma certa tradição epistemológica, que é mais comportamental e cognitiva, na linha cognitivo-comportamental, no sentido largo da psicoterapia. Talvez seja aquela que tem mais como base esse princípio da evolução do conhecimento da psicologia. Os pontos de vista que utilizam em sua prática são os mesmos que utilizamos no laboratório. Portanto, a fluência é maior entre essa abordagem e as experimentais. Daí que a raiz de todo o grupo clínico daqui partiu de uma base, digamos, conceitual da cognitivo-comportamental. Embora haja pessoas que, dentro desse aspecto cogntivo e comportamental, sejam mais adeptas de uma ou outra terapia. Embora se você perguntar a elas, elas não vão dizer que são terapeutas cognitivo-comportamentais, e sim que são terapeutas. Elas usam em suas práticas aquilo que vão investigando e validando em seus estudos. Assim, não se incomodam em usar práticas que tenham sido validadas ou criadas por modelos que vão desde a psicanálise até a terapia familiar, que seja. Nas nossas práticas, o compromisso que nós temos é com a validação científica. Aqui você não vai encontrar o mestrado em psicanálise, em terapia familiar, em cognitivo-comportamental, vai encontrar em psicoterapia. E aí entra tudo o que consideramos práticas científicas inspiradas ou validadas, não importa de que autor ou suposta linha teórica venha. Evidentemente, alguns que vierem de fora verão isso como um certo enviesamento de orientação teórica.... e é. Tem a ver com uma atitude de encarar a psicologia como ciência, aqui todos nós compartilhamos isso. Nós acreditamos na validação científica de nossas práticas, e que a prática da psicologia e da psicoterapia tem que ter uma base empírica e científica, e é essa nossa obrigação enquanto cientistas, acadêmicos e psicólogos.

CientíficaMente - Vamos fazer exercício de imaginação. Suponhamos (só suposição, pura imaginação) um curso de psicologia, que, nos dias de hoje, 2009, tenha mais de 50% dentre as matérias obrigatórias ligadas ao estudo da psicanálise. Qual sua opinião sobre isso?

Eu julgo que esse é um curso de história da psicologia. A psicanálise é hoje uma perspectiva filosófica da psicologia. Obviamente houve um conjunto de insights que Freud e seus seguidores propuseram, que têm sido investigados no laboratório, assim como conhecimentos que vêm da Grécia antiga e que tem sido investigados. A psicanálise apresentou algumas noções, dentro do conhecimento de base, que na altura era o que se poderia fazer, com o que se tinha no momento, com a metodologia e tecnologia do momento. Mas hoje dispomos de outras metodologias. A questão já não é se vamos tentar validar ou não validar os conhecimentos vindos da psicanálise. Devemos tentar compreender os fenômenos, da atenção, memória, patologias, o que quer que seja, para entender porque as coisas são assim, como é que funcionam, como podem mudar, como podem funcionar de uma forma diferente. A questão é colocar isso dentro de um sistema de conhecimentos, que correspondam a um conjunto de pressupostos, que sejam testáveis. A psicanálise tem alguns pressupostos que não são sequer testáveis. Isso não serve ao objetivo das ciências, estamos aí a trabalhar no nível das crenças. Mas foi o que eu disse, tanto não faz sentido ter um curso de terapia de psicanálise quanto um de cognitivo-comportamental ou terapia rogeriana. Acho que o estudo da psicologia em terapia tem que se pautar pelo que sabemos sobre a melhor maneira de tratar essas pertubações, como lidar com elas, investigar as melhores técnicas, dentro do domínio da psicologia, com a ajuda de outras ciências, as biológicas, bioquímicas etc. É isso, compreender os fenômenos, neuropsicobiológicos, sociais, e ser capaz de intervir. Não devemos nos prender a modelos de psicoterapia que são, a meu ver, história da psicologia.

CientíficaMente - O que o senhor acha do processo de Bolonha?

A ideia é generosa. A ideia básica de Bolonha é a criação de um espaço comum europeu, do ensino superior, que esteja mais ou menos homogeneizado. Portanto, a ideia é boa, a execução é que é complicada. Cada universidade foi fazendo a sua própria bolonhesa. E o paradoxo é que, hoje, estamos pior do que o que estávamos, em termos de compatibilidade entre universidades. As licenciaturas em psicologia em Portugal eram de cinco anos, na Espanha eram cinco anos, na Itália também., na França... Nossos alunos saíam daqui, iam para lá, e andavam perfeitamente. Agora o que temos são mestrados integrados em cinco anos. Mesmo aqui em Portugal é complicado. Algumas universidades têm mestrado integrado, outras não, umas têm primeiro ciclo, segundo ciclo, outras não. Agora a Espanha tem um processo de diploma de quatro anos. Ficou tudo diferente, complicou mais, ninguém sabe direito qual é o sistema de cada uma. Daqui a alguns terão que colocar ordem nesse espaço. Portanto, a ideia é generosa, mas o projeto está longe de ser concretizado. Bolonha também tem uma ideia sobre a metodologia de ensino, que é mais centrado no aluno, e na experiência do aluno. Eu tenho algumas dúvidas com relação a sua execução. Não tenho nada contra uma aula bem dada, o mau é que seja só isso. Mas Bolonha quase transformou isso, uma aula bem dada, num subproduto da nossa experiência. Eu mesmo vou à internet, acesso aulas do MIT, com professores magistrais, e me atualizo, aprendo. É uma gravação de uma aula dada para 200 pessoas. Claro que o ensino não é só isso. Mas também não pode deixar de ser isso, como Bolonha parece querer. A ideia generosa de querer avançar com modelos mais ativos de aprendizagem, é importante. É importante que o aluno de psicologia saiba mexer nas várias metodologias de laboratório, da experimental, que invada o laboratório de neuropsicofisiologia, que saiba trabalhar com potenciais evocados, com estimulação magnética, saiba as investigações que estão ocorrendo, saiba como analisar os dados. Mas a pluridade de formas de ensino pode ser rico, e para Bolonha parece que uma aula bem dada não faz parte disso. Temos que aprender a construir conhecimento, mas também a adquirí-los. Corre-se o risco, numa radicalização de Bolonha, de que adquirir conhecimentos seja tido como contraproducente. Tem que haver um balanço entre essa autonomia do aluno e o que ele mesmo constrói, e o que ele adquire do professor, da universidade.


Agradeço profundamente ao professor Oscar por ter me atendido tão gentilmente mesmo sem saber quem eu era, e cedido parte do seu tempo para a entrevista.

domingo, 26 de abril de 2009

Intercâmbio na Uminho – E-learning

A ideia é relativamente simples e muitas universidades já contam com ela. Por que não ter um sistema online de interação entre aluno e professor? O processo de Bolonha prevê a utilização dessa ferramenta, o Blackboard E-learning System. Admirei-me com essa plataforma por todas as possibilidades que ela oferece, tanto ao aluno quanto ao professor. É uma plataforma web de gestão e distribuição de conteúdos acadêmicos, que permite que o processo de ensino-aprendizagem possa ser complementado com esta ferramenta de ensino a distância.




Vamos ver algumas das funções do e-elearning.




Ao aluno
- Visualizar todas as suas notas, não só as finais, como as parciais, assim que o as professor lança no sistema.
- Acessar documentos de cada matéria, como artigos, trabalhos, vídeos, enfim, o material que o professor disponibilizar.
- Receber avisos do professor, por exemplo se ele não puder dar a próxima aula.
- Realizar tarefas e enviá-las pelo sistema.
- Enviar e-mails ao professor.
- Acessar informações sobre cada disciplina em que está inscrito, como dados sobre o professor, sobre o conteúdo.
- Realizar fóruns de discussão, em que o professor pode ser o coordenador, administrando quem tem o direito à fala.
- Enviar trabalhos pelo sistema. Quando o prazo final colocado pelo professor expira, o sistema já não permite o envio do trabalho.
- Há acesso a uma plataforma de procura de artigos e material acadêmico.
- Há um calendário, separado por dia, semana, mês e ano, em que o aluno pode organizar seus compromissos e colocar lembretes.

Ao professor
As funções principais são-
􀂙 Gestão de informação — Informações pessoais, elementos de cursos e documentos, recursos académicos através da web e integração de conteúdos off-the-shelf;
􀂙 Comunicação — Ferramentas de colaboração assíncronas e síncronas incluindo o e-mail, fóruns de discussão e sessões de aula virtual em tempo real;
􀂙 Avaliações — Testes e questionários com feedback automático, notas on-line e registo da participação e progressão nos conteúdos;
􀂙 Controle — Utilitários de gestão para os Docentes, armazenamento de informação e relatórios

- O sistema possui uma ferramenta de análise dos trabalhos dos alunos, em que o seu conteúdo é comparado com o da internet e permite identificar cópias.
- O professor tem acesso às estatísticas de uso do e-learning por cada aluno. Ele pode saber quantas vezes o aluno utiliza o sistema, quanto tempo ele fica, e em quais dias. Também é possível uma estatística de cada turma, em que curvas de uso da plataforma são oferecidas.
- Administrar as discussões no fórum.
-Avisos
Permite visualizar os avisos das disciplinas em que o utilizador participa bem como os avisos institucionais que são de carácter geral e do interesse da comunidade.

-Calendário
Permite a visualização de eventos calendarizados com a data, hora e descrição do evento. Podem ser eventos de carácter geral como uma conferência, um seminário ou particulares adicionados pelo próprio utilizador e só visíveis por ele.

-Tarefas
Lista as tarefas pessoais do utilizador que este inseriu. Pode fazer a sua gestão alterando o estado de cada uma de acordo com o seu
progresso.

-Mensagem de Correio Eletrônico
Permite o envio de mensagens de e-mail para os participantes nas disciplinas das quais o utilizador participa. Pode optar pelo envio para todos os Utilizadores, todos os Grupos de trabalho nas disciplinas, Todos os Professores e a selecção de Utilizadores ou Grupos
distintos.

-Diretório de Utilizadores
Permite listar informações sobre outros utilizadores existentes no Blackboard. Todos os utilizadores aqui só são visíveis porque assim o definiram através da edição das opções correspondentes às informações pessoais.

-Livro de endereços
Permite uma gestão de contatos dentro da plataforma

-Informações Pessoais
Permite editar algumas das informações pessoais do utilizador usadas no âmbito do Blackboard tais como o nome, sobrenome e a atualização do e-mail se necessário. A opção Definir Opções de Privacidade define se os dados pessoais estarão disponíveis para toda a comunidade Blackboard e quais as informações mostradas.

-O Blackboard permite interagir em tempo real com os demais participantes numa disciplina em tempo real recorrendo a ferramentas de colaboração síncrona como a aula virtual e o chat. Cada disciplina tem uma aula virtual e uma área de chat já previamente definidas.

-Através da ferramenta de glossário, é possível enriquecer uma disciplina com a disponibilização de um conjunto de termos pesquisáveis de forma a auxiliar os alunos no domínio dos temas abordados

Existem duas ferramentas ligadas entre si: o Gestor de Bancos de Testes e o próprio Gestor de Testes.

-Os Bancos de Testes são constituídos por grupos de questões classificados da forma lógica e organizada. Podem ser criados quantos se pretenderem. A vantagem da sua utilização consiste na possibilidade de reutilização destas questões para posteriores ou diferentes testes nos mais
variados momentos de avaliação.

-Por sua vez, o Gestor de Testes permite a criação de testes alimentados por questões criadas no momento e especificas para aquele teste ou alimentados por questões (aleatórias ou não) existentes nos vários Bancos de Testes




Como aluna na UMinho tenho utilizado o E-learning, e posso dizer que se trata de uma ferramenta relativamente simples, mas que faz uma grande diferença no ensino, facilitando o contato professor-aluno.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Intercâmbio na Universidade do Minho – Declaração de Bolonha

Ao entrar na Universidade do Minho eu não fazia idéia de que a instituição passava por uma grande reforma, se assim posso dizer. Surpreendi-me com a modernidade da universidade, assim como com a qualidade do ensino em geral. Descobri que muito disso se deve à implementação da Declaração de Bolonha, algo de que nunca havia ouvido falar antes de estar aqui. Interessei-me muito pelo projeto e procurei saber um pouco mais. Aí estão algumas das coisas que descobri.


A Declaração de Bolonha é um projeto que tem como intenção estabelecer normas comuns às universidades européias. De acordo com o site do DGES, Direção Geral do Ensino Superior


(...) esse processo começou em Maio 1998, com a declaração de Sorbonne, e arrancou oficialmente com a Declaração de Bolonha em Junho de 1999, a qual define um conjunto de etapas e de passos a dar pelos sistemas de ensino superior europeus no sentido de construir, até ao final da presente década, um espaço europeu de ensino superior globalmente harmonizado.


A ideia base é de, salvaguardadas as especificidades nacionais, dever ser possível a um estudante de qualquer estabelecimento de ensino superior, iniciar a sua formação académica, continuar os seus estudos, concluir a sua formação superior e obter um diploma europeu reconhecido em qualquer universidade de qualquer Estado-membro. Tal pressupõe que as instituições de ensino superior passem a funcionar de modo integrado, num espaço aberto antecipadamente delineado, e regido por mecanismos de formação e reconhecimento de graus académicos homogeneizados à partida.


Em última instância, o Processo de Bolonha irá desembocar numa harmonização generalizada das estruturas educativas, que asseguram as formações superiores numa Europa de, actualmente, 45 países. Nesse enquadramento, os sistemas de ensino superior deverão ser dotados de uma organização estrutural de base idêntica, oferecer cursos e especializações semelhantes e comparáveis em termos de conteúdos e de duração, e conferir diplomas de valor reconhecidamente equivalente tanto académica como profissionalmente.


As ambições do projeto são –


A harmonização das estruturas do ensino superior conduzirá, por sua vez, a uma Europa da ciência e do conhecimento e, mais concretamente ainda, a um espaço comum europeu de ciência e de ensino superior, com capacidade de atracção à escala europeia e intercontinental.


Os objectivos gerais da Declaração de Bolonha são: o aumento da competitividade do sistema europeu de ensino superior e a promoção da mobilidade e empregabilidade dos diplomados do ensino superior no espaço europeu.


Alguns dos objetivos específicos-

a) Adopção de um sistema de graus académicos facilmente legível e comparável, incluindo também a implementação do Suplemento ao Diploma,


b) Adopção de um sistema assente essencialmente em dois ciclos, incluindo:
um primeiro ciclo, que em Portugal conduz ao grau de licenciado, com um papel relevante para o mercado de trabalho europeu, e com uma duração compreendida entre seis e oito semestres;
e um segundo ciclo, que em Portugal conduz ao grau de mestre, com uma duração compreendida entre três e quatro semestres.


c) Estabelecimento e generalização de um sistema de créditos académicos (
ECTS), não apenas transferíveis mas também acumuláveis, independentemente da Instituição de Ensino frequentada e do país de localização da mesma;


d) Promoção da mobilidade intra e extra comunitária de estudantes, docentes e investigadores;


e) Fomento da cooperação europeia em matéria de garantia de qualidade;


f) Incremento da dimensão europeia do ensino superior.


No seguimento do compromisso político assumido em Bolonha, os Ministros da Educação Europeus reunidos em Praga(s/link), em Maio de 2001, reconheceram a importância e a necessidade de mais três linhas de acção para o evoluir do processo:


a) Promoção da aprendizagem ao longo da vida;
b) Maior envolvimento dos estudantes na gestão das instituições de Ensino Superior;
c) Promoção da atractividade do Espaço Europeu do Ensino Superior.


Em Setembro de 2003, os Ministros responsáveis pela Área do Ensino Superior de 33 Países Europeus, reunidos em
Berlim, reafirmaram os objectivos definidos em Bolonha e em Praga, tendo adicionado:

a) a necessidade de promover vínculos mais estreitos entre o Espaço Europeu do Ensino Superior e o Espaço Europeu de Investigação, de modo a fortalecer a capacidade investigadora da Europa, de forma a melhorar a qualidade e a atractividade do ensino superior europeu.
b) o alargamento do actual sistema de dois ciclos, incluindo um terceiro ciclo no Processo de Bolonha, constituído pelo doutoramento, e aumentar a mobilidade quer ao nível do
doutoramento como do post-doutoramento. As instituições devem procurar aumentar a sua cooperação ao nível dos estudos de doutoramento e de formação de jovens investigadores.


A Universidade do Minho aderiu à Declararaçãode Bolonha e vem implantando o sistema há alguns anos. No site da Uminho há um relatório muito interessante com os resultados da implantação (Relatório de Concretização do processo de Bolonha na Universidade do Minho, 2008).


Ao conhecer o curso de Psicologia daqui, fiquei especialmente admirada com duas coisas- o fato de os três primeiros anos serem o ciclo básico (licenciatura) e os dois últimos, de mestrado, e com o e-learning. Falarei mais do e-learning no próximo post. Ambos são resultado do processo de Bolonha. Ainda não conheço muito bem todas as resolução da Declaração, e ainda estou no início do contato com a Uminho, porém arrisco uma opinião de que Bolonha traz um grande avanço para as universidades européias.



Por outro lado, tenho conhecido algumas críticas à Bolonha. Já vi vários cartazes de protestos de estudantes contra o processo. Conversando com alguns alunos, descobri que há alguma desconfiança sobre o modo como o processo está sendo implantado (seria algo como que às pressas, mal feito). Muitos criticam a desvalorização da licenciatura que seria decorrente do modelo, pois a licenciatura se completa e 3 anos, e não mais em 4 ou 5. Esse tempo não seria suficiente para uma boa formação, na visão de muitos. Outros ainda criticam o mestrado integrado se iniciar tão cedo, pois muitos alunos não teriam ainda a maturidade para escolher uma área. Na visão de muitos, Bolonha vem para servir a uma lógica de números, em que o governo mostra que mais alunos estão se formando na licenciatura, mesmo que não estejam qualificados o bastante para isso. Tratar-se-ia de uma lógica estatística, em que não haveria preocupação com a qualidade, e sim com a quantidade e com um suposto alinhamento entre universidades européias, que pode não levar a lugar algum.

terça-feira, 10 de março de 2009

Intercâmbio na Universidade do Minho – grade curricular

Inauguro com esse texto a série sobre a psicologia na universidade do Minho. (Para aqueles que não sabem, nesse semestre estou realizando um intercambio). Para começar, acho importante situar o currículo do curso na universidade, e para isso vou fazer uma comparação com a Universidade de São Paulo.

Essa comparação não tem o objetivo de diminuir nenhuma das universidades, e nem dizer que uma é melhor do que a outra, muito menos que elas representam a psicologia de seu país. Falarei das duas porque são as que conheço, e porque acho que a comparação é inevitável e pode ser bem utilizada. Assim, não me deterei numa comparação simplista, procurarei uma maneira de levantar questões e debates sobre possíveis vantagens e desvantagens de cada currículo, ou mesmo o debate das peculiaridades de cada universidade, que não necessariamente são boas ou más. Inicialmente, irei apresentar na estrutura básica de cada curso.

Na Universidade de São Paulo (USP) a graduação em Psicologia abre a possibilidade para três diplomas – licenciatura, bacharelado e psicólogo. Para obter o grau de psicólogo, você precisa passar por todas as disciplinas obrigatórias, que se estendem até o quarto ano, e obter os créditos necessários das disciplinas optativas, que são oferecidas desde o primeiro ano. O tempo esperado para a obtenção do grau de psicólogo é de 5 anos, porém muitos acabam fazendo em mais tempo, por ter repetido matérias ou por opção de fazer o curso com mais tranqüilidade.

O grau de bacharel você pode obter com 4 anos de graduação, pois deve cursar todas as obrigatórias, algumas optativas específicas voltadas para a pesquisa e mais um tanto de créditos de optativas, que são menos do que os exigidos para o grau de psicólogo.

E quanto à licenciatura, você pode começá-la a partir do momento em que conclui metade dos créditos do seu curso, o que normalmente ocorre no terceiro ano, e consiste de matérias específicas voltadas para a educação, que você pode ir cursando enquanto faz matérias obrigatórias e optativas da psicologia. A licenciatura pode ser terminada depois que você tiver se formado como psicólogo e/ou bacharel em psicologia.


As matérias obrigatórias da psicologia da USP, organizadas em 8 semestres, até o presente momento, são-

Biologia
Introdução a Sociologia
Int. a probabilidade e estatística
Psic. da Aprendizagem
Int. a psicologia clínica
História e filosofia da psicologia
Etologia

Sistema nervoso
A diversidade do conhecimento em psicologia
Int. a pesquisa
Int. a antropologia
Int. a psicanálise-Freud
Análise do comportamento I

Epistemologia das Ciências Humanas
Psicologia do Desenvolvimento I
Psicologia da Personalidade: Fundamentos
Introdução à Psicopatologia
Análise Experimental do Comportamento II
Psicologia Social I

Psicologia do Desenvolvimento II
Introdução às Técnicas de Exame Psicológico
Psicanálise: Klein, Bion e Winnicott
Psicanálise: Lacan
Motivação e Emoção
Psicologia Social II
Linguagem e Pensamento

Diferenças, Construção Social e Constituição Subjetiva
Avaliação Individual das Funções Intelectuais
Sujeito, Educação e Sociedade
Técnicas de Entrevista Psicológica
Teorias e Técnicas Psicoterápicas: Terapia Cognitivo-comportamental, Psicodrama e Gestalt-terapia
Psicologia Sensorial
Psicologia das Relações Humanas I
Processos Cognitivos em Psicologia Social

Introdução às Técnicas Projetivas Gráficas
Psicologia e Educação
Corpo e Sujeito: Diferentes Perspectivas, Diferentes Diagnósticos e Tratamentos
Percepção e Cognição
Processos Grupais
Psicologia Social do Trabalho e das Organizações

Ética Profissional
Aconselhamento Psicológico
Psicologia Institucional
Atendimento Clínico: o Processo Diagnóstico
Investigação Psicológica Pelas Técnicas: Tat, Cat e Rorschach

Orientação Profissional I

Além dessas obrigatórias, temos as várias disciplinas optativas, em que cada uma tem um número X de créditos, e devemos cumprir um tanto de créditos para obter o diploma. Para mais informações, visite o site do Instituto de Psicologia da USP (IPUSP).

Na Universidade do Minho, o curso de graduação em psicologia é com mestrado integrado, isso significa que ao fim dos cinco anos, você sai também com o diploma de mestre.

Os três primeiros anos são chamados de ciclo básico, e os dois últimos anos são especializados, você pode optar dentre sete ramos de profissionalização, que são - Psicologia Clínica; Psicologia da Saúde; Psicologia Escolar e da Educação; Psicologia do Trabalho, das Organizações e dos Recursos Humanos; Psicologia da Justiça; Psicologia do Desporto e do Exercício; e Psicologia Experimental e suas Aplicações.

Quanto ao diploma de licenciatura, têm direito os que completarem os três anos de ciclo básico. Mais informações podem ser obtidas no site da Psicologia da Uminho .

A estrutura do ciclo básico é a seguinte-

Unidades Curriculares por Agrupamento (1º Semestre, até ao 3º Ano)

Bases Biológicas da Psicologia (escolhem 3 durante o curso)
- Biologia Humana
- Introdução às Neurociências
Bases Sócio-Culturais da Psicologia (escolhem 3 durante o curso)
- Antropologia
- História da Psicologia

Bases Metodológicas da Psicologia (escolhe 4 durante o curso)
- Fundamentos de Matemática
- Métodos Quantitativos de Investigação
- Técnicas Quantitativas de Análise de Dados I

Processos Psicológicos Elementares (escolhem 4 durante o curso)
- Psicologia da Atenção e Memória
- Psicologia da Motivação
- Psicologia das Emoções
Integração de Processos Psicológicos (escolhem 4 durante o curso)
- Psicologia da Inteligência
- Psicologia da Personalidade
- Psicologia Social

Contextos de Aplicação em ...(escolhem 3 durante o curso)
- Psicologia da Justiça
- Psicologia da Saúde
- Psicologia do Trabalho e das Organizações
Formação Complementar (escolhem 5 durante o curso)
- Relação Terapêutica
- Introdução à Psicopatologia do Desenvolvimento
- Psicologia do Desporto e do Exercício
- Psicologia do Desenvolvimento Vocacional
- Processos Psicológicos na Saúde e na Doença

Praticum em Psicologia (escolhem 2 durante o curso)
- Investigação Qualitativa em Psicologia
- Psicologia do Desporto e do Exercício
- Observação e Entrevista Clínica
- Psicologia do Trabalho e das Organizações

Unidades Curriculares por Agrupamento (2º Semestre, até ao 3º Ano)

Bases Biológicas da Psicologia (escolhem 3 durante o curso)
- Genética e Evolução
- Neurociência Cognitiva

Bases Sócio-Culturais da Psicologia (escolhem 3 durante o curso)
- Diversidade Sócio Cultural e Psicologia
- Epistemologia da Psicologia
- Sociologia Geral

Bases Metodológicas da Psicologia (escolhe 4 durante o curso)
- Fundamentos de Estatística
- Métodos Qualitativos de Investigação
- Técnicas Quantitativas de Análise de Dados II

Processos Psicológicos Elementares (escolhem 4 durante o curso)
- Psicologia da Aprendizagem
- Psicologia da Percepção
- Psicologia do Pensamento e Linguagem

Integração de Processos Psicológicos (escolhem 4 durante o curso)
- Psicologia do Desenvolvimento
- Psicopatologia

Contextos de Aplicação em ...(escolhem 3 durante o curso)
- Psicologia Clínica
- Psicologia Comunitária
- Psicologia do Desporto e do Exercício
- Psicologia Escolar

Laboratórios (escolhem 1 durante o curso)
- Psicologia Animal
- Percepção
- Memória Humana
- Cognição Social
- Desenvolvimento
- Emoções
- Linguagem

Formação Complementar (escolhem 5 durante o curso)
- Psicopatologia da Família e das Relações Familiares
- Comportamento Sexual
- Psicolgia do Envelhecimento e do Desenvolvimento do Adulto
- Construção e Validação de Provas Psicológicas
- Dinâmicas de Grupo e de Liderança

Praticum em Psicologia (escolhem 2 durante o curso)
- Avaliação e Intervenção Educacional
- Psicologia da Justiça
- Avaliação e Intervenção Vocacional
- Psicologia Comunitária
- Avaliação Psicológica

Nos dois cursos vemos que há partes que são optativas. Na USP tem-se grande parte dos créditos que devem ser cumpridos em disciplinas optativas, e na UMinho desde o início você pode optar pelas disciplinas dentro de cada grupo de matérias, e nos dois últimos anos se especializa somente na área escolhida.
Uma diferença marcante entre os dois currículos é que na UMinho não existe disciplina que seja especialmente sobre psicanálise, e até mesmo sobre nenhuma linha teórica ou autores específicos.
Na UMinho as grandes áreas de aplicação da psicologia são abordadas no ciclo básico, que correspondem as áreas de especialização no mestrado, nos dois ultimos anos.
Na USP não há representação de matérias nas áreas de psicologia jurídica e do esporte na grade obrigatória. Mesmo nas matérias optativas, para você cursar algo relacionado ao direito, tem que se matricular em disciplinas que são ministradas na Faculdade de Direito da USP, e não no Instituto de Psicologia. Não existem disciplinas relacionadas ao esporte.
Na UMinho pode-se observar uma preocupação em representar as diversas áreas da psicologia.
Na USP isso também acontece, porém não de modo tão abrangente, e o curso é mais focado na psicologia clínica.
Na USP, para se obter o diploma de psicólogo, necessariamente você precisar cursar duas matérias da área clínica que exigem atendimento de pacientes. Na UMinho você não é obrigado a atender, a não ser que faça a especialização na área clínica.
Na UMinho há mais matérias voltadas para a matemática, estatística e análise de dados. Na USP só existe uma matéria obrigatória de estatística, e uma optativa.

Esse texto foi apenas introdutório, nos próximos discutirei mais detalhadamente a psicologia que estou encontrando aqui na Uminho.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Intercâmbio de estudo

Olá leitores! É com grande satisfação que anuncio que nesse semestre irei fazer um intercâmbio na Universidade do Minho, em Portugal. Não pretendo abandonar meu blog, pelo contrário, quero que ele seja um instrumento para divulgar a Psicologia que encontrarei lá na Europa.

Aproveito esse post para falar um pouco sobre intercâmbios, já que muitas pessoas me perguntam sobre isso.

Consegui uma bolsa de estudos por um semestre pelo programa ISAC-Improving Skills Across Continents, no âmbito do programa Erasmus Mundus. Trata-se de um intercâmbio entre alunos europeus e da América Latina. No meu caso, como sou da graduação, cursarei um semestre, porém há também programas para a pós-graduação, que geralmente são mais longos.

Fiquei sabendo dessa possibilidade através de um e-mail que recebi da comissão de graduação da Psicologia da USP. Provavelmente se eles não tivessem um sistema bom de divulgação, eu não saberia desse programa.

Assim, para quem está interessado em um intercâmbio, a primeira dica que considero pertinente é a de se informar na secretaria do seu curso, para verificar se existe uma pessoa encarregada de verificar essas oportunidades e repassá-las aos alunos. Caso não haja, é importante fazer a sugestão.

Segundo, sempre esteja ligado em sites que tratam do assunto. Um que considero bom é o da Universia. Correr atrás de informações é essencial, pois você pode deixar passar uma grande oportunidade simplesmente por ter perdido o prazo de inscrição.

Terceiro, e muito importante: não basta estar ligado, você tem que ter condições para realizar o intercâmbio. Condições podem significar várias coisas dependendo da situação: dinheiro, tempo, disposição, estabilidade emocional, fluência na língua do país que o receberá, flexibilidade e bom desempenho acadêmico são alguns exemplos.

A USP tem um sistema de informações aos alunos através do site da CCInt, que é a Comissão de Cooperação Internacional. Se você der uma olhada no site, verá que a esmagadora maioria dos intercâmbios oferecidos não contam com bolsa. Ou seja, você pode ser aceito para o intercâmbio, mas arcará com as despesas da viagem. Isso torna o intercâmbio um sonho impossível para a maioria das pessoas, eu inclusive.

Alguns pouquíssimos casos contam com bolsas, que normalmente te permitem ter uma vida digna no país escolhido, sem ter que contar com a ajuda dos pais. Porém, nesses casos, a concorrência é alta, afinal muitas pessoas querem algo assim. A seleção se torna mais rigorosa, e o currículo e histórico contam muito. Isso significa que é importante que você mantenha notas altas e participação em atividades acadêmicas como congressos, iniciação científica, monitoria, estágio etc.

Se você quer muito realizar um intercâmbio - que é uma experiência muito enriquecedora - é importante se programar. Pense no país que gostaria, estude a língua, fique ligado nas chances que aparecem e mantenha um bom currículo, que você tem chance de conseguir. E claro que a maior parte de ofertas de intercâmbios ocorrem em universidades públicas brasileiras, como USP, UNESP, UNB, UFRJ etc.

Boa sorte!