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sexta-feira, 25 de julho de 2008

Gêmeos idênticos

Os estudos modernos com gêmeos demonstram que aqueles que foram separados no nascimento ou pouco depois dele são mais semelhantes do que os que foram criados juntos ou separados com uma idade mais avançada. Como isso pode ser explicado?

O estudo com gêmeos é muito importante para a psicologia, pois se trata de uma situação natural que parece ter sido bolada por cientistas: pessoas com carga genética idêntica (no caso dos monozigóticos), que tanto podem ter a mesma criação, quando criadas juntas, como criações totalmente diferentes, quando são separadas no nascimento. O debate nature versus nurture ou natureza versus criação se enriquece através de estudos empíricos com esse grupo de pessoas.


Até a década de 70 os estudos com gêmeos não eram confiáveis, pois envolviam invenção de dados, falta de ética etc. Hoje, a maioria dos estudos com gêmeos são realizados com mais cuidados, e são comuns principalmente na disciplina conhecida como genética do comportamento. Entre humanos, aproximadamente 1 em cada 250 nascimentos é de gêmeos idênticos e muitos das pesquisas são feitas em países escandinavos, onde os governos mantém gigantescos bancos de dados sobre seus cidadãos.

Voltando à questão inicial, Ridley (2003) provê uma possível explicação para o fato de que as pesquisas apontam que gêmeos idênticos criados separados sejam mais semelhantes do que os criados juntos:

“Pequenas diferenças no caráter inato são exageradas pela prática, não aplainadas por ela. Isso é o que acontece entre gêmeos idênticos. Se um é mais extrovertido que outro, eles gradualmente exagerarão esta diferença” (Ridley, 2003, p. 323).

Portanto, os gêmeos criados juntos tenderiam a reforçar suas diferenças para se diferenciarem um do outro, já os separados não teriam essa preocupação. De qualquer forma, os testes confirmam que os gêmeos idênticos, separados ou não ao nascer, são muito parecidos, mas não idênticos, em praticamente qualquer característica que se possa medir, seja em se tratando de personalidade, de hábitos ou de desenvolvimentos de doenças.

“(...) a esquizofrenia é acentuadamente concordante com gêmeos idênticos, que têm em comum todo o DNA e a maior parte do ambiente, porém muito menos concordante com gêmeos fraternos, que têm em comum apenas metade do DNA (do DNA que varia na população) e a maior parte do ambiente” (Pinker, 2004, p. 74).

Muitas outras condições que são encontradas em famílias são mais concordantes em gêmeos idênticos do que em gêmeos não-idênticos, são mais acertadamente prognosticadas com base em parentes biológicos do que em parentes adotivos e mal prognosticadas com base em qualquer característica mensurável do ambiente. São algumas dessas condições: autismo, dislexia, atraso na linguagem, deficiência na linguagem, depressões graves, distúrbio bipolar, distúrbio obsessivo-compulsivo, orientação sexual etc.

Gêmeos idênticos são muito mais semelhantes do que os não-idênticos, sejam criados juntos ou separados, gêmeos idênticos criados separadamente são muito semelhantes; irmãos biológicos, sejam criados juntos ou separados, são muito mais parecidos do que irmãos adotivos. Além disso, gêmeos idênticos criados separadamente são muito mais similares que gêmeos não-idênticos criados separadamente.

“Gêmeos idênticos pensam e sentem de modos tão semelhantes que às vezes desconfiam estar ligados por telepatia. (...) São semelhantes em inteligência verbal, matemática e geral, no grau de satisfação com a vida e em características de personalidade como ser introvertido, aquiescente, neurótico, consciencioso e receptivo à experiência. Têm atitudes semelhantes diante de questões polêmicas como pena de morte, religião e música moderna. São parecidos não só em testes de papel e lápis, mas no comportamento consequencial como jogar-se, divorciar-se, cometer crimes, envolver-se em acidentes e ver televisão. (...)”. (Pinker, 2004, p. 74).

Assim, os estudos demonstram que diferenças em mentes podem provir de diferenças em genes. Isso não significa que o papel da criação seja nulo, pelo contrário, a herdabilidade depende inteiramente do contexto. De qualquer forma, o papel dos genes não pode ser ignorado.

Para saber mais

Pinker, S. (2004) Tábula rasa - negação contemporânea da natureza humana. São Paulo: Companhia das Letras.

Ridley, M. (2003) O que nos faz humanos. Editora Record.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

As contribuições da Etologia para a Psicologia

A Etologia é uma ciência recente com origem na Europa por volta de 1930, cujos fundadores são Konrad Lorenz e Nico Tinbergen. Em 1973 os dois receberam o prêmio Nobel de Medicina por suas descobertas e pressupostos para explicar o comportamento animal. Porém, bem antes disso, Darwin foi um etólogo antes mesmo da palavra ter sido inventada. Uma preocupação básica da Etologia é a evolução do comportamento através do processo de seleção natural, e Darwin, em seu livro A origem das Espécies, dedica um capítulo ao instinto, em que formula a hipótese de que “todos os instintos mais complexos e maravilhosos” se originaram através do processo de seleção natural, tendo preservado as variações continuamente acumuladas que são biologicamente vantajosas. Darwin acreditava que não apenas os órgãos evoluíam, mas que aquisições mentais gradativas também ocorriam.


O termo ethos deriva do grego e significa “da natureza da coisa”. A Etologia é a ciência das relações comparadas do comportamento animal, o que inclui também os humanos. Tem como princípio a concepção de que, assim como órgãos e outras estruturas corporais, o comportamento é produto e instrumento do processo de evolução através da seleção natural. Assim, o comportamento é produto da evolução filogenética, pois tem função adaptativa (afeta o sucesso reprodutivo) e possui algum grau de determinação genética. As quatro perguntas básicas dos etólogos, que irão orientá-los em seu trabalho, são: como o comportamento se desenvolve ao longo da vida do indivíduo? (ontogênese)? Qual é a causa? (fatores causais próximos); Como se desenvolveu no decorrer da história evolucionária? (filogênese) e qual o motivo pelo qual teria sido selecionado naturalmente? (causa final). São conhecidas como os quatro “por quês” de Tinbergen.

Por exemplo, o comportamento de mamar em humanos seria analisado sob a perspectiva etológica da seguinte forma: como o comportamento de mamar surge e vai se desenvolvendo no bebê? O que faz o bebê mamar? (Fome, estímulos visuais, olfativos, táteis etc); como o comportamento de mamar se desenvolveu nos mamíferos? E porque esse comportamento teria sido selecionado, qual a vantagem adaptativa que ele traz?


A metodologia da Etologia põe ênfase na observação e na descrição detalhada do comportamento, na situação mais natural possível. Observa-se como o animal vive em seu ambiente.

Qual seria a utilidade de um pensamento biológico, como o da Etologia, para a Psicologia? O objeto da Psicologia, de um modo geral, é o ser humano. E nós, seres humanos, somos seres biológicos e sociais concomitantemente. A integração das perspectivas biológicas e sociais é necessária para compreender o fenômeno humano. Nenhuma das visões (biológica e social), sozinha, é capaz de explicar o ser humano. A teoria da Evolução, utilizada pela Etologia como pressuposto teórico, pode ampliar a compreensão das causas do comportamento humano.


A Psicologia, de modo geral, se foca mais nos estudos de causa próxima, correspondentes aos primeiros dois “por quês” da Etologia. A importância das explicações últimas (evolução filogenética) pode ser útil no estudo do comportamento no sentido de: escolher variáveis independentes para o desenvolvimento de modelos e teorias envolvendo a análise comparativa entre espécies; compreender os fatores do ambiente que podem modular o comportamento; determinar quais variáveis serão consideradas como causa e quais serão consideradas como efeitos; descobrir explicações com grande poder de generalização. Para Eibl Eibesfeldt, o estudo com animais fornece hipóteses para se analisar questões do ser humano como, por exemplo, de que modo os genes e a cultura atuam no homem.

Além disso, o estudo comparado com outros animais é muito rico. Nossa pretensão humana muitas vezes faz com que nos consideremos o ápice da evolução. Vemos as nossas características como únicas e superiores. O estudo do comportamento dos outros animais nos tira dessa posição, pois vemos que não somos tão especiais assim, ou melhor, se somos, todos os animais são. E vemos que muito do que é humano já está presente em muitas outras espécies, o que é material importante para traçarmos as relações entre genética e cultura.

O comportamento de qualquer animal sofre influências ambientais e biológicas. Em se tratando do ser humano, a superação da divisão biológico/cultural é especialmente necessária; pois se deve buscar compreender o comportamento humano na interação complexa de fatores biológicos e culturais. A Etologia tem como pressuposto essa interação, e compreende que qualquer predisposição biológica –comportamental, anatômica, fisiológica, etc- é moldada pelo ambiente-físico e social. Na Etologia, supera-se a dicotomia instinto versus aprendizagem (nature x nurture).

O ser humano apresenta grande capacidade de aprender, contudo essa aprendizagem não ocorre de forma aleatória. As origens do comportamento não estão somente no nascimento ou mesmo durante a vida intra-uterina, mas também durante a nossa história filogenética (estudo do nosso ambiente de adaptação evolucionária). O que somos é resultado de nossas predisposições biológicas, de nossa história individual e cultural. Homens e mulheres apresentam diferentes estratégias em relação ao comportamento reprodutivo. Bebês tendem a prestar atenção em estímulos que apresentam características semelhantes à face humana. São mais sensíveis a sons parecidos com a voz feminina terna. Existem diferenças sexuais no modo de brincar de meninos e meninas e preferências para interagir com parceiros de mesmo sexo já a partir dos três anos de idade. Meninos e meninas tendem também a manter proximidade com adultos de mesmo sexo.


O significado adaptativo dessas predisposições tem importância crucial para se compreender a infância, a relação mãe/pai/bebê, as relações entre homens e mulheres, a sexualidade humana e outros aspectos do comportamento social e de habilidades cognitivas. Além disso, pode-se compreender as predisposições biológicas para o ser humano desenvolver a cultura, pois somos seres “biologicamente culturais”. O estudo de pessoas vivendo em sociedades caçadoras-coletoras (nosso ambiente de adaptação evolucionária) e de primatas não-humanos é importante, pois ajudam o etólogo a compreender as origens biológicas do comportamento humano. Conceitos como a estampagem (imprinting) e período sensível, derivados de estudos com animais, têm sido amplamente usados na discussão sobre as conseqüências do que ocorre ao longo do desenvolvimento infantil na vida adulta e na compreensão do desenvolvimento em si.

A observação e a descrição do comportamento em situações naturais ou semi-naturais de laboratório tem sido a grande contribuição da Etologia em relação a metodologia e estudo empírico do comportamento humano. O objetivo é compreender o comportamento integrado ao seu ambiente evolucionário e atual. No caso da aprendizagem, por exemplo, devemos inserí-la em um contexto ecológico. Devemos perguntar quais são os problemas comportamentais que o indivíduo deve resolver em sua adaptação em seu ambiente e como ele faz uso da aprendizagem para resolvê-lo. Contudo, como qualquer área do conhecimento, a Etologia também apresenta limitações.

Certamente a intenção do etólogo não é reduzir o comportamento humano a explicações de cunho biológico. Contudo, a busca de soluções será mais efetiva e consistente se considerarmos também o nosso passado evolutivo. A interação e o diálogo da Etologia com outras ciências, como Antropologia e Sociologia é importante para que a dimensão do comportamento humano fique mais clara. Os enfoques etológicos, psicológicos e sociais não são excludentes, mas sim complementares. Nós não somos seres exclusivamente biológicos e nem puramente culturais, “temos aptidão natural para desenvolver a cultura e aptidão cultural para desenvolver nossa biologia”.

Referências

BOWLBY, John. Abordagem etológica da pesquisa sobre desenvolvimento infantil. In: Formação e rompimento dos laços afetivos. Cap. II, p. 23-40.

BUSSAB, V. S. H.; Ribeiro, F. J. L. Biologicamente Cultural. Em M. M. P. Rodrigues, L. Souza, & M. F. Q. Freitas (Eds.), Psicologia: reflexões (in)pertinentes. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1998.

Editora Unesp. Os fundamentos da Etologia. Disponível em: http://editoraunesp.com.br/index.php?m=1&codigo=103.

VIEIRA, Mauro L. Contribuições da Etologia para a compreensão do comportamento humano. 2005.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Dica de livro: O que nos faz humanos

Apesar do nome sugerir um livro de poemas ou algo do gênero, logo o subtítulo ajuda a esclarecer: genes, natureza e experiência. Ainda ficou vago? Então vamos à primeira frase da contracapa: “O comportamento humano é produto da natureza (genes), ou da criação (ambiente)?” Ok, talvez você pense, “Ah, não, de novo esse assunto... todos já estão cansados de saber que não é nem uma coisa e nem outra, o ser humano é uma mistura complexa de genes e ambiente”. Mesmo que você seja esclarecido disso (até porque os professores de Psicologia e áreas afins minimamente sensatos repetem esse discurso incessantemente) ainda assim você pode ganhar muito com essa leitura. Vamos lá!

Matt Ridley, o autor, é um zoólogo que conduz muito bem os capítulos sempre com esse fio condutor: “não é mais uma questão de natureza versus criação, mas de natureza via criação" (Observação cabível: o título original do livro é “Nature via nurture”, um trocadilho que só faz sentido em inglês, pois nurture pode ser traduzido como “criação”).

Por que me apaixonei pelo livro? Porque assim como muitos, também não agüentava mais ouvir a ladainha de “interação complexa entre ambiente e genética”, mas foi esse autor que me mostrou de maneira clara, com exemplos, o que isso realmente quer dizer. Aliás, isso acabou virando um discurso politicamente correto. Claro, um pesquisador sério não é bem visto quando se mostra extremista, então ficar num meio termo, afirmando que tanto genes quanto criação importam parece ser uma saída muito boa. Contudo, muitas vezes o discurso se torna vazio, parece que se falando nisso falou-se tudo. Até porque ninguém vai contradizer e poucos vão questionar.

Enfim, alguns pontos em que ele toca. Primeiro, sabe aquela história de o ser humano e o chimpanzé terem aproximadamente 98% dos genes idênticos? Pois é, o que isso significa exatamente? Ridley lança luz nesse tema falando de genética em linguagem compreensível e cativante. Que mais... hum... instintos. O ser humano tem instintos? A inteligência é genética ou se deve à aprendizagem? A criação é reversível e a natureza não? O que significa exatamente um gene? Genes e livre-arbítrio são incompatíveis?

Bom, são temas com certeza muito interessantes. Ridley passa por eles sempre citando grandes nomes, como Darwin, Galton, William James, Pavlov, Watson, Freud, Durkheim, Skinner, Piaget, Lorenz, grandes conhecidos dos psicólogos. Uma coisa que é central (e que não vai “estragar” a leitura de ninguém, espero que só aguce a curiosidade) é que o autor diz que grande parte dos mal-entendidos e confusões se deve ao fato de achar-se que os genes são irreversíveis, imutáveis, e a criação sim. Logo, a igualdade política, econômica, enfim, entre os humanos, só poderia ser alcançada através da cultura (ou criação, ou ambiente). Entram aí vários medos humanos, como o da não-existência de livre-arbítrio, o de nunca ser possível alcançar a igualdade entre as pessoas e de se fazer justiça social, o de não sermos seres especiais feitos à imagem e semelhança de Deus... Enfim... Isso está me lembrando a outro livro... Tabula Rasa.... Esse vai ficar para uma futura dica.

Obs 2. Se alguém tiver lido O que nos faz humanos ou quiser falar mais sobre isso (rs) faça comentários aqui. Estou carente de boas discussões na Psicologia (leve desabafo).

O que noz faz humanos. Matt Ridley. Editora Record, 2004, 399 páginas.