domingo, 10 de novembro de 2013

Entrevista - Psicologia como segunda profissão

Entrevistei o Maurício de Almeida, meu colega de curso na USP, com quem tive grandes conversas e convergência de ideias. Desde o início, me chamaram a atenção sua inteligência e assertividade, sem medo de mostrar suas opiniões. Ele é físico, e fez psicologia mais tarde na vida, como muitas outras pessoas.  Hoje é também psicólogo clínico, seu contato está no fim da entrevista.


CientíficaMente - Maurício, por que você decidiu cursar psicologia?

Fazer psicologia já era um sonho a muitos anos. Depois de terminar o meu doutorado em engenharia da computação eu mergulhei na profissão de professor por vários anos. Até o momento onde eu senti falta de uma relação mais humana na minha vida profissional, não que a profissão de professor não tenha um aspecto humano mas, principalmente nas áreas de exatas a relação é mediada por um aspecto tremendamente impessoal que é o próprio objeto estudado. Foi neste contexto que o sonho da psicologia se reacendeu. 

CientíficaMente - Como foi a sua formação?

Eu sou bacharel em física formado pela USP em 1989, também sou mestre e doutor em Engenharia de Computação e sou professor universitário na FATEC-SP desde 1990, ministrando as disciplinas de Inteligência Artificial e Software Livre.

A decisão de fazer psicologia veio em 2004 e eu entrei na Psico USP em 2007. Antes disso eu cursei um ano de psicologia, em 2005, no Mackenzie quando era também professor na área de TI naquela instituição.

Hoje continuo atuando como professor em paralelo com a clínica.

CientíficaMente - Como conciliou sua graduação com a outra carreira?

Quando eu comecei a fazer o curso na USP, um amigo perguntou “Como você vai fazer um curso integral e manter um emprego de 40 horas semanais?” e eu respondi “Um dia de cada vez”.

E foi assim mesmo. Houve um semestre onde eu tive de desistir de uma disciplina obrigatória por que ela era ministrada em um horário onde eu estava dando aula.

Mais de uma vez aconteceu de eu assistir uma aula na USP, correr para a FATEC dar uma aula e voltar para a USP para assistir outra aula ou atender um paciente. Isso custou muito, inclusive em multas de rodízio.

Muitas vezes a impressão era de que não seria possível terminar, mas no fim foi e valeu cada esforço e para a surpresa de muitos eu consegui concluir o curso no prazo regulamentar de 5 anos.

CientíficaMente - Como foi fazer um curso de graduação em outra etapa da vida, mais velho do que seus colegas?

A experiência de vida, e a experiência acadêmica ajudaram muito durante o curso e tem ajudado agora no início da carreira clínica.

A convivência com os colegas nem sempre foi a mais fácil, e muitas vezes a vida fazia questão de me lembrar que eu não era um deles. Mas mais uma vez eu leio a experiência como uma grande oportunidade de crescimento que eu espero ter aproveitado da melhor forma.

CientíficaMente - Hoje em dia, o que você faz? 

Hoje eu clinico como psicólogo na abordagem Cognitiva de Beck, continuo como professor na FATEC e faço algumas consultorias na área de interface entre a psicologia social e a engenharia da computação.


Além disso, curso uma especialização em Psicologia Cognitiva no CTC Veda e busco aperfeiçoar a minha clínica. Ainda sonho em poder viver somente da clínica mas isso ainda está distante. Mas quem chegou até aqui... Por que duvidar que mudar de vida é realmente possível?

Maurício, obrigada pela entrevista! Desejo muito sucesso na sua nova profissão. 

Para contatar o Maurício:


Telefone: (11) 99293-5555

domingo, 13 de outubro de 2013

Cursos de Psicologia no Coursera

Para quem não conhece, o Coursera é um site que oferece vários cursos gratuitos. Foi fundado por dois professores de Ciências da Computação da Universidade de Stanford, considerada uma das mais importantes do mundo.

A educação à distância já não é mais novidade e está se espalhando rapidamente. O diferencial do Coursera é ser uma plataforma bastante confiável, com cursos das melhores universidades e centros de pesquisa, como a Universidade de Princeton, de Yale, Universidade John Hopkins, Universidade de Duke, Universidade de Zurich, de Edimburgo etc.

Com a Internet e a ideia da educação em massa e gratuita, já não precisamos mais atravessar oceanos para nos sentir próximos das ideias dos melhores pesquisadores do mundo. Já não ficamos mais limitados a livros, artigos e alguns vídeos do You Tube, agora já temos acesso a aulas planejadas e dadas por eles, por meio de vídeos e outras atividades.
 
Os cursos são bastante diversificados, e têm data de início e fim. Se você perdeu um, não se preocupe, em geral ele é repetido depois de algum tempo. Os cursos em geral são em inglês, mas têm em outras línguas também. Alguns deles já contam com legenda em português, mas são bem poucos. Para escolher o tema, entre nessa página e coloque as línguas que você entende e as categorias que procura. Para ter acesso aos temas relacionados à psicologia, clique em Social Sciences (e talvez Humanities, para ver mais algumas opções).

Alguns dos que irão começar em breve:

- HumanEvolution: Past and Future (University of Wisconsin)
- Introduction to Psychology (University of Washington)
- Social Psychology (Wesleyan University)
- Introduction to Psychology as a Science (Georgia Institute of Technology)
- Why we need Psychology (University of London) 

                Fiz o curso A beginner´s guide to irrational behavior, de Dan Ariely (foto ao lado), e adorei. Muito didático, divertido e ao mesmo tempo profundo. Há vídeos do Dan Ariely explicando o tema, quizzes, fóruns, leituras, trabalhos e uma prova final. Você não precisa fazer tudo isso, pode fazer o que quiser, a não ser que queira o certificado no final. Ainda não há previsão para novas turmas, nesse caso você pode clicar no “Add to Watchlist” para receber o aviso de quando o curso ocorrerá de novo.

                Fica a dica!



domingo, 15 de setembro de 2013

Neuromito: sou mais lado direito ou mais lado esquerdo?

Você é uma pessoa do tipo “lado esquerdo do cérebro” ou do tipo “lado direito do cérebro”? Mais razão ou mais emoção? Bom, não sei quanto a você, mas meu cérebro não funciona assim!


                Esse mito de que cada lado do cérebro funciona separadamente ou de acordo com uma suposta personalidade, é bastante difundido. Com o conhecimento que temos atualmente, isso não passa de um equívoco.

                Gostamos de dualidades, afinal, elas nos ajudam a entender o mundo. Como posso entender o que é frio sem ter o quente? O claro sem o escuro? O salgado sem o doce? O bom e o mau? E assim por diante. Nosso pensamento funciona muitas vezes por meio de dicotomias, o que é uma ironia. Afinal, o próprio cérebro é divido em dois, o hemisfério esquerdo e o direito.

Nos primórdios dos estudos sobre o cérebro, tentamos compreender o papel desses dois lados, praticamente apenas com cérebros de mortos. Estudiosos indicavam a dualidade, que foi alimentada pela publicação, na época, do livro O Médico e o Monstro (1866). Estudos posteriores continuaram com essa oposição, e o hemisfério direito parecia ser responsável pelas emoções e criatividade, e o esquerdo, pelas análises, pensamento intelectual e lógica em cálculos.

À luz dos estudos mais recentes, apesar de haver algumas especializações de acordo com o hemisfério, sabemos que o cérebro trabalha o tempo todo, ou seja, várias partes dos dois hemisférios estão sempre funcionando. Por isso, é impossível eu tentar me dedicar a uma tarefa tentando utilizar apenas um dos hemisférios! Isso não faz sentido. Assim como não faz sentido uma pessoa tida como mais emocional usar mais o hemisfério direito. Não há essa especialização de acordo com a personalidade. Excetuando-se casos em que pessoas perdem até mesmo um hemisfério inteiro, os dois hemisférios trabalham a todo o momento, claro que de acordo com a tarefa alguma parte dele está mais ativa, mas em geral, em todas as situações, precisamos das mais variadas partes trabalhando.

Além disso, os dois hemisférios não estão isolados, pelo contrário. O corpo caloso, uma estrutura neural situada entre os dois, conecta-os e faz com que eles se comuniquem a todo o momento, gerando assim um sistema altamente integrado. Não adianta você se esforçar para utilizar mais um dos lados do cérebro – todo o processamento das informações é interconectado.

Bom, até aqui espero ter causado uma reflexão sobre esse assunto, e que não aceitem sem crítica notícias e conselhos como “use mais seu outro lado do cérebro”. Para quem quiser saber mais, há uma bibliografia que indico abaixo. Aproveitando a ocasião, será que existe mesmo uma dicotomia entre emoção e razão? Será que existem pessoas mais emocionais e as mais racionais? O que isso realmente significa? Mas esse é assunto para um outro post...

Para saber mais

Understanding the brain: the birth of a learning science (p. 114) OECD, 2007.


O que faz cada lado do cérebro? Revista Superinteressante.

domingo, 28 de abril de 2013

Entrevista com psicóloga: atuação em clínica e pesquisa


Continuando a sequência de entrevistas com psicólogos que atuam na área, o CientíficaMente conversou com Juliana Teixeira Fiquer, psicóloga clínica e pesquisadora. Trabalha com duas áreas diversas, mas que como veremos, podem ser exercidas juntas. O contato de Juliana está no final da entrevista.




CientíficaMente – Por que você escolheu cursar a graduação em Psicologia?

Quando eu era adolescente, minha mãe procurou um tratamento psicológico para mim, em função de algumas dificuldades emocionais que ela notava que eu tinha e que me faziam sofrer. Nessa época, eu não tinha conhecimento do que se tratava uma psicoterapia. Comecei a frequentar as sessões, que inicialmente me pareciam estranhas (ex. era estranho ter um adulto ali me perguntando algumas coisas, dizendo coisas, manifestando algum afeto). Entretanto, com o tempo, comecei a me sentir bem em ir lá. Aos poucos fui me sentindo mais confortável. Comecei a me familiarizar com a psicóloga; percebia o interesse dela em me ouvir; percebia o valor de coisas que ela dizia sobre mim, para meu bem. Passei a encontrar naquele lugar e naquela pessoa um espaço para contar o que me acontecia, o que eu sentia. Aprendi a prestar mais atenção em mim, entender o porquê de algumas reações que eu tinha, fui me tornando mais confiante em me posicionar socialmente em concordância com aquilo que eu pensava e sentia, aprendi a me respeitar mais, e respeitar mais as outras pessoas. Venci alguns medos, que antes de discuti-los com a psicóloga, pareciam tão reais e grandes. Com o tempo, os medos puderam ser superados, tornaram-se pequenos, e pude começar a rir deles.

CientíficaMente – Por quanto tempo você fez terapia?

Permaneci nessa psicoterapia por mais de 5 anos, e, ao longo desses anos, fui notando o quanto que aquela profissional da área da saúde me ajudava a me tornar uma pessoa melhor (para mim e para o mundo). Sou grata até hoje pela oportunidade que tive de fazer um tratamento psicológico. Tornei-me mais livre para viver. E, o desejo para ajudar outras pessoas a se tornarem mais livres de seus medos, tabus, dificuldades, foi sendo construído. Quando chegou o momento de prestar um vestibular, minha escolha profissional estava feita: eu queria ser psicóloga. Essa profissão fazia sentido para mim, me fazia sentir que eu poderia dar algum tipo de contribuição à sociedade, ou mais especificamente, a todos aqueles que sofressem em função de dilemas psicológicos/emocionais.

CientíficaMente – E como foi o curso?

Fiz minha graduação em psicologia na Universidade de São Paulo. Quando comecei o curso, achava que a Psicologia era uma ciência única e que formava psicólogos clínicos. Ao longo da graduação, entretanto, aprendi que a Psicologia é uma ciência muito mais complexa, composta por várias correntes distintas de concepção do homem, de seus problemas, e consequentemente, de solução de conflitos. Também aprendi que a Psicologia tem vários campos de atuação, como na escola, em empresas (ex. recursos humanos), em institutos de pesquisa, hospitais. E, a partir dessas percepções, fui começando a fazer escolhas. Busquei escolher quais das correntes de concepção de homem me faziam mais sentido para trabalhar. Busquei escolher em quais campos de atuação profissional eu sentia mais prazer.

Meu curso de graduação tinha ênfase na realização de pesquisas, e eu aproveitei essa ênfase para experimentar o que era fazer pesquisa em Psicologia. Quando eu estava no segundo ano da graduação, comecei a trabalhar – em formato de estágio de Iniciação Científica – com pesquisadores de mestrado e doutorado, na avaliação de relatos de afetos (positivos, negativos) de pessoas que moravam em cidades do interior do Brasil e em capitais. Fui observando que a pesquisa me permitia observar fenômenos, buscar entendê-los, encontrar respostas, abrir outras perguntas.

No quarto ano de graduação, comecei a atender pacientes também – no formato de atendimentos em clínica-escola – para avaliar se meu interesse inicial em ser psicóloga clínica ainda se mantinha. Fui observando, que assim como na área de pesquisa, a clínica me permitia observar fenômenos humanos. Permitia-me buscar entendê-los junto com os pacientes, encontrando algumas respostas, e ampliando algumas perguntas, que permitissem crescimento/melhora daquelas pessoas em sofrimento.

Minha definição do que eu seria após a graduação se constituiu assim: eu seria pesquisadora e psicóloga clínica, porque conseguia observar um raciocínio/um trabalho em comum nessas duas áreas de atuação. Seria o meu jeito de fazer teoria e prática, pesquisa e atuação, meio acadêmico e meio da saúde, se integrarem na minha vida profissional.


CientíficaMente –Foi fácil chegar nessa escolha?


É claro que, quando eu escrevo num texto breve minha trajetória de escolhas, ela parece ter sido simples, rápida, bem organizada. Mas gostaria de destacar que todo o percurso de minhas escolhas sempre foi feito com “altos e baixos”: eu tinha várias dúvidas, ficava às vezes perdida com o que eu estava fazendo, chegava a me questionar se conseguiria ser uma boa psicóloga, e assim por diante. Foi com o tempo, com a percepção mais madura de que as escolhas vão sendo construídas, que se perder também é caminho, que eu pude ir superando minhas angústias profissionais, e chegar a uma definição profissional, uma identidade.
Com o aumento dessa “paciência” com as dúvidas e medos profissionais, fui ficando mais forte para optar em me formar, começar a trabalhar em consultório (como psicóloga clínica) e ao mesmo tempo prosseguir nos estudos e pesquisa, fazendo mestrado e doutorado em Psicologia.


CientíficaMente – Sobre o que foi o seu mestrado? E o doutorado?

Meu mestrado foi focado em qualidade de vida e bem-estar das pessoas (ex. quais fatores ajudam a contribuir para os relatos de bem-estar das pessoas). No doutorado, me dediquei a estudar o “outro lado da moeda”: investiguei relatos de pacientes deprimidos, e outros fatores que podem contribuir para as dificuldades que esses pacientes têm.


Durante meu doutorado tive a oportunidade de estabelecer parcerias com grupos de pesquisadores nacionais e internacionais. Em âmbito nacional, fui parceira de pesquisa de grupos que avaliavam pacientes deprimidos no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (IPq-HCFMUSP). Em âmbito internacional, entrei em contato com uUniversity Medical Center Groningen - UMCG, Groningen, Holanda). Durante o doutorado é possível o pesquisador realizar seus trabalhos em ambientes acadêmicos distintos, em prol de sofisticação/enriquecimento do seu trabalho, o que é chamado de Doutorado Sanduíche no Exterior (SWE). Especificamente, o SWE é financiado por uma fundação do governo brasileiro (CNPq) e, trata-se de um doutorado iniciado pelo pesquisador no Brasil, mas que compreende um período de estadia em outro centro de pesquisa no exterior, que tenha reconhecido conhecimento na área de estudo em questão. Aproveitando essa possibilidade do Doutorado Sanduíche, bem como a parceria estabelecida com a UMCG, realizei um estágio acadêmico de nove meses na Holanda. Esse estágio propiciou-me um aperfeiçoamento em técnicas de pesquisa, trazendo-me mais maturidade científica.
m grupo de especialistas em análise de comunicação não-verbal em contextos psiquiátricos do Centro Médico da Universidade de Groningen (

CientíficaMente – Atualmente, você ainda faz pesquisas?

Sim, faço pós-doutorado no Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Prossigo nas investigações relacionadas a diferenças entre pacientes deprimidos e pessoas sem depressão com relação à expressividade não-verbal. O foco de meu estudo atual é desenvolver instrumentos para clínicos (psicólogos, médicos) que permitam avaliar a gravidade do quadro depressivo, a melhora clínica e estimar o prognóstico dos pacientes por meio de pistas não-verbais de emoção (e não apenas através daquilo que o paciente relata verbalmente). Nem sempre quem sofre, sabe do que sofre, ou consegue falar do que sofre. Se a Psicologia avançar na compreensão desse sofrimento, mesmo diante da dificuldade do paciente em falar, considero que haverá um avanço em termos de tratamento de conflitos emocionais.


CientíficaMente – Você procurou ter alguma formação específica para atuar como psicóloga clínica?

Além dos avanços acadêmicos, fiz sim um curso de especialização em psicologia clínica (Formação em Psicanálise) no Instituto Sedes Sapientiae, em São Paulo, que também me ajudou muito a melhorar no atendimento em consultório.
Ou seja, a graduação em psicologia foi apenas o primeiro passo. Aprendi que prosseguir nos estudos, é fundamental. E isso não é um caminho penoso, mas predominantemente prazeroso, porque embora seja angustiante não ter todas as respostas, perceber o desconhecimento, é muito bom também continuar aprendendo sobre algo que a gente gosta.
Portanto, hoje trabalho no atendimento psicológico de pessoas (adultos, crianças) no consultório particular, e sou pesquisadora do Instituto de Psiquiatria da USP.

CientíficaMente – Como é seu trabalho como pesquisadora? 

Sou pesquisadora no laboratório de investigação médica em psicofarmacologia (LIM23), no Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP. Lá executo pesquisas relacionadas ao desenvolvimento de medidas de expressividade que facilitem o diagnóstico e a avaliação de melhora clínica de pacientes deprimidos. Trabalho inserida num grupo multiprofissional, composto por farmacêuticos, psicólogos, psiquiatras e fisioterapeutas.
Também sou psicóloga clínica em São Paulo, trabalho em consultório particular, atendendo adultos, crianças, adolescentes e casais que estejam com algum tipo de conflito interpessoal e emocional.


CientíficaMente –  Como foram seus primeiros trabalhos relacionados à psicologia?

Durante a graduação, nunca trabalhei em algo que fosse relacionado a outras profissões. O tempo livre que eu tinha, utilizei para investir em avaliações sobre qual área da Psicologia me interessava. Por exemplo, comecei a frequentar congressos, simpósios, encontros de Psicologia (de diferentes áreas: hospitalar, escolar, organizacional). Ouvir profissionais de várias áreas contar sobre seus trabalhos em eventos é uma boa oportunidade para expandir a visão sobre o quê pode ser feito com a Psicologia. Como meu curso de graduação era integral, eu não tinha disponibilidade de horários para fazer estágios fora da Instituição. Por isso, como fui me aproximando da área de pesquisa, redigi um projeto de pesquisa em Iniciação Científica e submeti-o, com autorização e cooperação da professora que me auxiliava na pesquisa (orientadora), a uma fundação de pesquisa do estado de São Paulo (FAPESP), que me concedeu uma bolsa. A bolsa de iniciação científica é um auxílio financeiro para o estudante custear algumas despesas básicas para a execução de sua pesquisa. À medida que minha pesquisa foi avançando, eu fui escrevendo resumos dos meus achados para participar de Congressos, e desse jeito passei a ser frequentadora de congressos não apenas como ouvinte, mas também como apresentadora de trabalhos na área.

Como mencionei anteriormente, quando terminei a graduação, fui trabalhar em consultório particular, como psicóloga clínica, e também prossegui meus estudos, fazendo o mestrado e o doutorado. Quando terminei o doutorado, comecei a dar aulas de Psicopatologia numa Universidade do interior de São Paulo, o que também foi uma experiência nova e muito importante para mim. De repente, além de psicóloga clínica e pesquisadora, me vi como professora, mais um caminho que a Psicologia me abriu. Descobri que, além de gostar de ouvir pessoas, de pesquisar pessoas, gosto de ensinar pessoas. A cada dúvida de um aluno, você é convocada a pensar tanto naquilo que você ainda não sabe, como naquilo que você descobre que já sabe.


CientíficaMente –  Quais são os principais desafios do seu trabalho na clínica?

A clínica coloca-me constantemente diante do desafio de poder estar em contato com um outro humano (ex. o paciente), respeitando-o, cuidando dele, ao mesmo tempo que sendo verdadeira, justa, imparcial. As pessoas costumam chegar ao consultório de psicologia angustiadas, preocupadas com algum problema, mas também com receio de ouvirem que “tudo é culpa” delas. Existe, comumente, um conflito, entre a pessoa querer contar o que lhe acontece, e ao mesmo tempo não querer falar, ter receio de se expôr, ter receio do julgamento do psicólogo. E daí, me vejo muitas vezes sob essa linha tênue: caminhar no sentido de ouvir, investigar aquilo que se passa com o paciente, ao mesmo tempo que ter cautela, ir com cuidado, ao ponto de não ser violenta e assustá-lo. A psicoterapia é um tratamento que visa criar um espaço que possa fazer bem ao indivíduo, no qual ele possa falar, ser escutado, se escutar, promover mudanças, ganhar amparo, etc. Entretanto até o espaço terapêutico se tornar de fato terapêutico (no sentido do paciente conseguir confiar no terapeuta, sentir-se confortável, permitir-se falar sua verdade) é um percurso que pode ser longo para muitas pessoas. É difícil a gente chegar num lugar e contar sobre o que nos aflige para uma pessoa que não fazemos ideia de quem se trata. E, tem muitas vezes que a gente precisa de ajuda inclusive para formular o que nos aflige, porque nem sempre isso é claro. Existe, portanto, um desafio diário para mim, no contato com os pacientes, de como construir esse espaço terapêutico.


CientíficaMente –   E com relação à área de pesquisa, quais são as dificuldades?

Na área de pesquisa, também existem desafios. Os desafios variam desde aqueles mais concretos, até os mais abstratos. Por exemplo: no Brasil ainda existe uma dificuldade na execução de pesquisas em função de baixo investimento governamental. Muitas vezes os pesquisadores se desdobram para comprar materiais necessários para execução de projetos, para divulgar resultados de seus estudos, visto que não existe um auxílio financeiro sólido que ofereça condições suficientes de trabalho para o profissional. Noto que o investimento governamental em bolsas, auxílio pesquisa, etc., tem aumentado. Mas ainda estamos muito distantes do cenário positivo para a pesquisa observado em países da Europa e da América do Norte. Falando de desafios mais abstratos, penso que a pesquisa exige a observação de fenômenos/resultados, que não esperávamos, ou que (muitas vezes) não conseguimos entender o seu porquê. Desta forma, o raciocínio ativo, questionador, investigador, é sempre necessário. E, estar constantemente com a mente aberta para reflexões, inovações de pensamento, é um desafio.


CientíficaMente –  Quais são as principais vantagens,alegrias e satisfações no seu trabalho?

Em termos do trabalho como psicóloga clínica, eu diria que saber que meu trabalho pode agregar melhora na qualidade de vida das pessoas é gratificante. Receber um paciente com um problema, um dilema, uma vida dificultada por um medo, por algo mal elaborado, e vê-lo retomar o colorido da vida, retomar a corrida atrás de novas oportunidades, se dar uma segunda chance, não tem preço.  Em termos do trabalho como pesquisadora, eu diria que realizar um trabalho que me permite agregar algo à Psicologia e a Psiquiatria, no sentido da melhora da prática nessas áreas, para beneficiar as pessoas que estejam sofrendo com problemas emocionais, é, da mesma forma, sentir que meu trabalho tem um valor humano, existencial. Minha profissão me dá a alegria de sentir-me viva e útil.

Contato: Dra. Juliana Teixeira Fiquer

Rua Manoel da Nóbrega, 595, conjunto 83, São Paulo. Telefone: (11) 3063-0964

Muito obrigada, Juliana, por conceder essa entrevista ao CientíficaMente


sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Pós-graduação rima com depressão


                A pós-graduação era para ser um período maravilhoso, em que você tem a chance de estudar, se aprofundar em um tema, conversar com pessoas inteligentes, frequentar congressos, ler ótimos livros e artigos, e por fim produzir uma pesquisa do jeito que você queria. Então por que costuma ser uma das piores fases na vida de um estudante?

                Esse período sombrio frequentemente é marcado por um desânimo insistente, e em alguns casos, depressão clínica. No mínimo, você fica por algum tempo “para baixo”. Não passou por isso? Certamente conhece alguém que esteve nessa situação.

                Saiu um artigo na revista Nature sobre a alta frequência de casos de depressão entre estudantes de pós-graduação. Dizem que principalmente aqueles alunos que foram brilhantes na graduação sofrem bastante na pós. Alguns motivos listados foram o isolamento causado pela competição do mundo acadêmico, altas expectativas e falta de sono. Outro agravante é ter uma relação ruim com o orientador ou com colegas. O artigo ressalta a falta de preparo das universidades para ajudar esses estudantes, pois normalmente há ajuda apenas para os graduandos, mas não para os pós-graduandos e suas demandas específicas.

                No blog CoNeCt, há um comentário sobre esse artigo e algumas outras possíveis causas da depressão nos pós-graduandos. Vou acrescentar aqui algumas outras possibilidades. Por que a pós-graduação é desoladora? (Obs. Estou considerando uma pessoa com dedicação exclusiva à pós-graduação stricto sensu, ou seja, mestrado e doutorado).

1.       Estou sozinho.
O pós-graduando é um solitário. Geralmente ele tem o próprio projeto e segue sozinho nele. Mesmo os que fazem parte de um grupo de pesquisa, têm tarefas tão específicas que raramente encontram os demais. Os horários das aulas não batem, e você não encontra mais ninguém conhecido com frequência. Um está coletando dados, outro saiu da cidade para ir a campo, outro está em casa lendo. Não há uma rotina de encontro das mesmas pessoas nos mesmos lugares, o que dificulta o contato social. Você não tem com quem conversar. Se tem, seu projeto é tão único que ninguém entende os seus dilemas (mas o que você quer dizer com estar chateado porque o alfa de Cronbach do segundo teste da terceira bateria de avaliações sobre tomada de decisão em situação de incerteza estar dando abaixo de 0.5???).

2.       Sou um inútil.
Se você só estuda, isso significa que você só estuda, ou seja, é um inútil. Aliás, esse estudo aí que você está fazendo serve para que mesmo? Vai salvar as criancinhas da África? Vai resolver o aquecimento global? Vai achar a cura para o câncer? Não? Então por que você está gastando seu tempo nisso? Os outros te perguntam qual é a utilidade do seu estudo, e por fim, você se pergunta. Você mesmo tem dúvidas se aquilo vai te levar a algum lugar, e se vai beneficiar alguém de verdade. Alguns estão mais preocupados em estar certos, e quando o experimento vai na direção contrária, ficam bem estressados. Outros se preocupam com isso e com querer ajudar a humanidade, e a relação entre uma pesquisa de pós-graduação e a aplicação no mundo real costuma ser fraca. Além disso, ninguém entende que você está se dedicando ao estudo, principalmente quando está na fase de escrever a dissertação na sua casa ("ele não faz nada o dia todo, só fica nesse computador"). Não há reconhecimento social, porque é difícil explicar que você só estuda e o que é que você estuda (poucos entendem - quem nunca fugiu da temida pergunta “E o que é exatamente que você estuda?”), e sua identidade fica abalada. Quem sou eu?

3.       Meu orientador não está nem aí para mim.
Para aumentar o sentimento de solidão e de falta de reconhecimento, sequer seu orientador te dá bola. Ele sempre está ocupado com aulas, mil pesquisas e artigos que têm que ser feitos de qualquer forma, e mais dezenas de reuniões e bancas. Nem sempre é culpa dele, não me entendam mal. As vezes o sistema é realmente o culpado. Enfim, o resultado é que você não tem orientação, trabalha no escuro, não sabe se está indo na direção certa, normalmente até ser tarde demais para evitar o vexame na defesa (ou o seu pensamento constante de que a defesa será um vexame, que é bem pior). E se a pessoa que mais deveria se interessar pelo seu trabalho não está ali, fica difícil achar que seu trabalho tem algum valor.

4.       Não vou ter o que fazer com esse diploma.
Essa é mais típica dos doutorandos do que dos mestrandos. Você tem certa desconfiança de que toda aquela dedicação na verdade depois não servirá para nada.  Sente que sua tese será jogada em um canto na biblioteca (modernizando, será mais um arquivo nesse mundo da Internet). Você já está sem dinheiro agora e se pergunta o que será do amanhã. Seu diploma será usado para que mesmo? Ah, lembrei, irei disputar meia dúzia de vagas com todos os outros doutores do país. Fácil. Tradução: hoje = estudante de pós, amanhã = desempregado sem esperança.

5.       Tudo o que faço é para aumentar uma linha do lattes.
Depois de um tempo na vida acadêmica, você tem a sensação de que tudo o que tem que fazer se resume a acrescentar coisas no seu currículo lattes. Para que vou naquele congresso? Resposta – para ir à praia e colocar no seu lattes que você apresentou o trabalho. Para que tenho que modificar algumas linhas desse mesmo trabalho e ir a outro congresso? Resposta  - para ir à praia e colocar no seu lattes que você apresentou o trabalho. Para que tenho que escrever artigos que eu não quero escrever e publicar em uma boa revista científica? Para aumentar uma linha no lattes (publish or perish). É isso, minha vida se resume a aumentar meu lattes, e aí a ordem se inverte: faço para publicar e não publico porque fiz. E talvez aumentar o lattes não seja um objetivo tão nobre, e aí você sente sua vida vazia.

Sozinho, inútil, deixado de lado, desempregado e com uma vida sem sentido. E depois não sabem por que o pós-graduando fica deprimido...

Brincadeiras à parte, a pós-graduação realmente é um período difícil. As pessoas acham que o momento mais delicado de decisão profissional é na hora de escolher um curso para prestar o vestibular, mas eu discordo. Para mim até agora o momento mais difícil foi depois de estar formada e ter entrado na pós-graduação, porque ali não há tempo, você tem que saber quem você é. Sou pesquisadora? Sou psicóloga social? Sou um professor? Sou um biólogo? Antes parece que há espaço para o “teste”, mas depois que você se forma o mundo e você mesmo esperam certas coisas, como ter um salário fixo, começar uma carreira, ter uma identidade profissional. Para quem tem dedicação exclusiva aos estudos, a pós-graduação é um adiamento da entrada no mercado de trabalho, e pode ser angustiante.

Concordo com o artigo da Nature quando afirma que as universidades deveriam se preocupar mais com o estado psicológico dos estudantes. Penso que  seja necessário criar espaços que facilitem a interação social, a troca de conhecimento e o sentimento de pertencimento a um grupo entre os pós-graduandos. Também é necessário um sistema que valorize mais o trabalho de todos, afinal o estudante precisa sentir que faz algo importante. O orientador tem um papel crucial, é dele que tem que vir o maior apoio, pois é a nossa figura de admiração e que representa o conhecimento, além de ser a autoridade formal.

Boa sorte pós-graduandos de todo o país!

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Entrevista: psicologia escolar


Atendendo a pedidos de que o blog tenha mais entrevistas, conversamos com uma psicóloga escolar (ou educacional), ou seja, que atua em escola, para saber mais sobre seu trabalho.

1) Qual sua formação? 
Fiz psicologia na USP, tendo os graus de bacharel, psicólogo e licenciado. Depois também fiz o mestrado, na USP, na área de psicologia experimental.

2) Como começou a trabalhar com psicologia escolar? 
A área da educação sempre me interessou, mas para dar aula, não tanto para trabalhar como psicóloga. A verdade é que eu não me interessava pelas disciplinas de psicologia escolar, mas fiz questão de fazer licenciatura, que na USP é opcional: só faz quem tiver interesse. Mas na hora em que eu terminei a faculdade, tinham tirado a psicologia do currículo do Ensino Médio, o que fez com que o campo de trabalho do professor de psicologia ficasse bem restrito. Isso me afastou do plano de trabalhar em escola até que, quando eu estava terminando o mestrado apareceu uma vaga de psicólogo no colégio em que trabalho hoje. Me candidatei achando que não daria certo, que certamente haveria outras pessoas mais capacitadas concorrendo pela vaga, mas no final consegui o emprego e aqui estou agora.

3) Como é seu trabalho, o que faz?
A escola onde estou tem desde o maternal até o Ensino Médio. Meu trabalho envolve todas essas séries. É um trabalho bem dinâmico. Muitas pessoas acham que eu trato dos alunos, mas não é exatamente isso. Minha função no colégio é olhar o que está acontecendo quando há alguma dificuldade, conversar com professores, alunos, pais, coordenação, com todos, e orientá-los a respeito do que fazer, de como agir. Digamos, por exemplo, que algum aluno que está tendo dificuldade em alguma matéria, ou o professor acha que ele está com algum problema. Eu converso com o professor, vejo porque ele acha que o problema existe. Depois observo ou converso com o aluno, com os pais... em resumo, investigo o que está acontecendo. Muitas vezes descubro que a questão é pontual e tudo que é necessário é uma mudança de postura da escola ou dos pais, então oriento essa mudança de postura. Teve uma menina do maternal, por exemplo, que não falava nem uma palavra, toda sua comunicação era gestual. As professoras estavam super preocupadas, achando que ela pudesse ter algum problema, mas no final o problema era falta de estímulo para falar: todos ao redor da criança entendiam o que ela gesticulava, então para que ela iria se esforçar para verbalizar? Orientei que se estimulasse a comunicação verbal e tudo mudou. Há casos, porém, em que é necessário uma avaliação maior ou de profissionais de outra área. Se isso for necessário, é preciso encaminhar o aluno. Mas não é só fazer uma cartinha bonitinha, com meu carimbo e o timbre da escola: bem mais do que isso. Primeiro, preciso conversar com os pais, para explicar porque estamos querendo essa avaliação externa. Nesse momento, temos todos os tipos de reação: tem o pai que aceita super tranqüilo, diz que concorda e que vai procurar e dali uma semana já traz o telefone do profissional que vai atender o aluno; tem o pai que concorda, mas que por diferentes motivos não busca, e então é importante ligar para o pai reforçar o quanto é importante a avaliação, insistir que procure. 

Há também pais que simplesmente não aceitam o encaminhamento. Dizem que seu filho não tem nada, que não é louco. Dá para notar que eles têm preconceito quanto ao que significa ser encaminhado pela escola, particularmente quando o encaminhamento é para um psicólogo. Esse é um momento sempre complicado e delicado, pois é preciso tentar explicar que não se procura profissionais fora da escola só porque se é louco. Aliás, se eu soubesse qual é exatamente a causa da dificuldade do aluno, eu não precisaria encaminhar! E eu explico para o pai que é importante fazer essa avaliação, para descartar a possibilidade de existir um problema que precisa ser contornado e até para que outra pessoa, de fora, que não está com o olhar enviesado do colégio, consiga dar pistas de como poderemos agir para ajudar o aluno. Porque, sim, muitas vezes pode acontecer de o problema que o aluno está enfrentando no colégio ser provocado por algo que não está claro para nós, mas que alguém de fora consegue perceber, e eu tento explicar isso para os pais, também. Depois que faço o encaminhamento os pais procuram o atendimento, procuro os profissionais para saber se está tudo bem, se eles precisam de alguma informação a mais da escola e perguntar se eles têm alguma sugestão para nosso trabalho com o aluno e passar essas sugestões para os professores. 

Às vezes encontro profissionais super solícitos, que querem vir conhecer a escola, ou que não conseguem ir até lá mas que conversam conosco pelo telefone de forma bem receptiva. Em outros casos – e infelizmente tenho notado que é um número considerável de profissionais – tenho que tentar diversas vezes até conseguir um único contato, e esse é frio, seco, como se a escola quisesse invadir o trabalho que está sendo feito ou não pudesse ajudar em nada. De qualquer forma, converso com esses profissionais – tanto o receptivo quanto o que não é tão receptivo assim – e encaminho as sugestões deles para os professores. Também observo se está tudo bem, se o que foi sugerido está sendo feito, qual é o resultado que está sendo visto e encaminho essas informações para os profissionais que atendem o aluno. Ou aviso se algo aconteceu de diferente. Assim vamos trabalhando em parceria, trocando figurinha e ajudando aquela criança ou adolescente.

Mas o meu trabalho na escola não é só com os alunos quando eles têm dificuldade, é claro. Esse acaba sendo um dos trabalhos mais “comentados”, mas não é só isso. Algo que também faço é orientar os professores a como agir em certas situações. Digamos, por exemplo, que o professor tenha em sala um aluno com uma dificuldade muito grande, que precisa de uma atenção especial. Meu trabalho será feito no sentido de auxiliar o professor a como agir na sala e frente aos demais alunos, para que ele, ao tentar incluir um que tenha uma dificuldade, não acabe excluindo esse mesmo aluno por algum motivo (por exemplo, super protegendo ele quando não é necessário) ou negligenciando o trabalho com os demais. Há casos também em que faço trabalho com a turma. No momento, estou com três trabalhos ativos. Um diz respeito a parte da disciplina, e estamos trabalhando com dinâmicas para que a turma entenda que tem hora que é preciso ficar quieto e hora em que se pode ficar agitado. Outro é de orientação vocacional, com os alunos que estão acabando o ensino médio, para dar a eles algumas informações a respeito do mercado de trabalho, como escolher uma faculdade, essas coisas. O terceiro é com alunos do quinto ano, para prepará-los para ir para o sexto. Essa é uma fase em que há uma mudança muito grande para o aluno por diferentes motivos, e temos no colégio um projeto para tentar suavizar a mudança. E nesse colégio em particular, também temos uma atividade que eu acho que é bem legal, que é conversar com os alunos quando eles entram na escola. É um bate papo, só, para ver como eles estão, se estão adaptados.  Serve também para que eles se sintam mais a vontade na escola e para que a escola os conheça um pouco melhor.

Finalmente é importante apontar que o psicólogo na escola também está lá para conversar e orientar os alunos, professores ou funcionários que precisem. Por exemplo, alunos que brigaram com os amigos e queriam conversar com alguém ou funcionários com problemas pessoais... não farei terapia com eles, é claro, mas acolherei a demanda e tentarei ajudar o quanto for possível – muitas vezes, indicando que procurem alguém fora, para uma ajuda maior.

4) Você gosta do seu trabalho na escola?
Como todo trabalho, há momentos maravilhosos e momentos não tão bons. Quando você vê, por exemplo, um aluno melhorar depois que fez uma intervenção que deu certo, é maravilhoso. Mas nem tudo são flores. Como eu disse antes, há vezes em que nosso trabalho é visto com preconceito, e parece que estamos querendo rotular o aluno, ou dizer que ele é doente ou louco... Não! Se eu soubesse o que o aluno tem, porque ele está com dificuldade, eu não precisaria encaminhar! E mesmo que haja algum problema, que a avaliação aponte alguma questão que deverá ser trabalhada, não é por isso que a escola irá tratar o aluno de forma diferente, vai excluí-lo – ela vai trabalhar pelo melhor para ele, de forma que ele possa superar a dificuldade que tenha. Tento mostrar isso sempre para os pais, mas nem sempre consigo, e isso é muito complicado, pois você fica engessado: quer ajudar o aluno, mas não sabe mais como.

5) Que dicas daria para quem gostaria de trabalhar como psicólogo em escolas? 
Mente aberta. A escola é muitas vezes vista como a única vilã nos problemas educacionais atuais. É a escola que não ouve o aluno, é a escola que não dá atenção ao pai, que não está preparada para o mundo atual... Mas, não! A escola não é tão ruim assim! Claro que existem escolas boas e ruins, mas muitas estão tentando fazer um bom trabalho. Para conseguir avançar no processo educativo, porém, não é só a escola que será um determinante. Pais que apóiem o colégio, alunos empenhados, professores interessados, tudo conta. Se tentarmos trabalhar numa escola pensando que ela é o único elemento problemático na cadeia de ensino-aprendizagem, deixaremos de lado muitos pontos importantes. Acho que temos que procurar não vilões, não os responsáveis pelos problemas de aprendizado do aluno, mas soluções para esse problema. Soluções que, claro, deverão envolver todos os personagens da história do aluno: família, escola, o próprio aluno, seus amigos, etc. Se todos se empenharem para ajudar o aluno, o resultado não terá como ser ruim, e não terá que ter ninguém sendo acusado de nada. É sempre importante ter isso em mente para se fazer o melhor trabalho possível.