domingo, 28 de abril de 2013

Entrevista com psicóloga: atuação em clínica e pesquisa


Continuando a sequência de entrevistas com psicólogos que atuam na área, o CientíficaMente conversou com Juliana Teixeira Fiquer, psicóloga clínica e pesquisadora. Trabalha com duas áreas diversas, mas que como veremos, podem ser exercidas juntas. O contato de Juliana está no final da entrevista.




CientíficaMente – Por que você escolheu cursar a graduação em Psicologia?

Quando eu era adolescente, minha mãe procurou um tratamento psicológico para mim, em função de algumas dificuldades emocionais que ela notava que eu tinha e que me faziam sofrer. Nessa época, eu não tinha conhecimento do que se tratava uma psicoterapia. Comecei a frequentar as sessões, que inicialmente me pareciam estranhas (ex. era estranho ter um adulto ali me perguntando algumas coisas, dizendo coisas, manifestando algum afeto). Entretanto, com o tempo, comecei a me sentir bem em ir lá. Aos poucos fui me sentindo mais confortável. Comecei a me familiarizar com a psicóloga; percebia o interesse dela em me ouvir; percebia o valor de coisas que ela dizia sobre mim, para meu bem. Passei a encontrar naquele lugar e naquela pessoa um espaço para contar o que me acontecia, o que eu sentia. Aprendi a prestar mais atenção em mim, entender o porquê de algumas reações que eu tinha, fui me tornando mais confiante em me posicionar socialmente em concordância com aquilo que eu pensava e sentia, aprendi a me respeitar mais, e respeitar mais as outras pessoas. Venci alguns medos, que antes de discuti-los com a psicóloga, pareciam tão reais e grandes. Com o tempo, os medos puderam ser superados, tornaram-se pequenos, e pude começar a rir deles.

CientíficaMente – Por quanto tempo você fez terapia?

Permaneci nessa psicoterapia por mais de 5 anos, e, ao longo desses anos, fui notando o quanto que aquela profissional da área da saúde me ajudava a me tornar uma pessoa melhor (para mim e para o mundo). Sou grata até hoje pela oportunidade que tive de fazer um tratamento psicológico. Tornei-me mais livre para viver. E, o desejo para ajudar outras pessoas a se tornarem mais livres de seus medos, tabus, dificuldades, foi sendo construído. Quando chegou o momento de prestar um vestibular, minha escolha profissional estava feita: eu queria ser psicóloga. Essa profissão fazia sentido para mim, me fazia sentir que eu poderia dar algum tipo de contribuição à sociedade, ou mais especificamente, a todos aqueles que sofressem em função de dilemas psicológicos/emocionais.

CientíficaMente – E como foi o curso?

Fiz minha graduação em psicologia na Universidade de São Paulo. Quando comecei o curso, achava que a Psicologia era uma ciência única e que formava psicólogos clínicos. Ao longo da graduação, entretanto, aprendi que a Psicologia é uma ciência muito mais complexa, composta por várias correntes distintas de concepção do homem, de seus problemas, e consequentemente, de solução de conflitos. Também aprendi que a Psicologia tem vários campos de atuação, como na escola, em empresas (ex. recursos humanos), em institutos de pesquisa, hospitais. E, a partir dessas percepções, fui começando a fazer escolhas. Busquei escolher quais das correntes de concepção de homem me faziam mais sentido para trabalhar. Busquei escolher em quais campos de atuação profissional eu sentia mais prazer.

Meu curso de graduação tinha ênfase na realização de pesquisas, e eu aproveitei essa ênfase para experimentar o que era fazer pesquisa em Psicologia. Quando eu estava no segundo ano da graduação, comecei a trabalhar – em formato de estágio de Iniciação Científica – com pesquisadores de mestrado e doutorado, na avaliação de relatos de afetos (positivos, negativos) de pessoas que moravam em cidades do interior do Brasil e em capitais. Fui observando que a pesquisa me permitia observar fenômenos, buscar entendê-los, encontrar respostas, abrir outras perguntas.

No quarto ano de graduação, comecei a atender pacientes também – no formato de atendimentos em clínica-escola – para avaliar se meu interesse inicial em ser psicóloga clínica ainda se mantinha. Fui observando, que assim como na área de pesquisa, a clínica me permitia observar fenômenos humanos. Permitia-me buscar entendê-los junto com os pacientes, encontrando algumas respostas, e ampliando algumas perguntas, que permitissem crescimento/melhora daquelas pessoas em sofrimento.

Minha definição do que eu seria após a graduação se constituiu assim: eu seria pesquisadora e psicóloga clínica, porque conseguia observar um raciocínio/um trabalho em comum nessas duas áreas de atuação. Seria o meu jeito de fazer teoria e prática, pesquisa e atuação, meio acadêmico e meio da saúde, se integrarem na minha vida profissional.


CientíficaMente –Foi fácil chegar nessa escolha?


É claro que, quando eu escrevo num texto breve minha trajetória de escolhas, ela parece ter sido simples, rápida, bem organizada. Mas gostaria de destacar que todo o percurso de minhas escolhas sempre foi feito com “altos e baixos”: eu tinha várias dúvidas, ficava às vezes perdida com o que eu estava fazendo, chegava a me questionar se conseguiria ser uma boa psicóloga, e assim por diante. Foi com o tempo, com a percepção mais madura de que as escolhas vão sendo construídas, que se perder também é caminho, que eu pude ir superando minhas angústias profissionais, e chegar a uma definição profissional, uma identidade.
Com o aumento dessa “paciência” com as dúvidas e medos profissionais, fui ficando mais forte para optar em me formar, começar a trabalhar em consultório (como psicóloga clínica) e ao mesmo tempo prosseguir nos estudos e pesquisa, fazendo mestrado e doutorado em Psicologia.


CientíficaMente – Sobre o que foi o seu mestrado? E o doutorado?

Meu mestrado foi focado em qualidade de vida e bem-estar das pessoas (ex. quais fatores ajudam a contribuir para os relatos de bem-estar das pessoas). No doutorado, me dediquei a estudar o “outro lado da moeda”: investiguei relatos de pacientes deprimidos, e outros fatores que podem contribuir para as dificuldades que esses pacientes têm.


Durante meu doutorado tive a oportunidade de estabelecer parcerias com grupos de pesquisadores nacionais e internacionais. Em âmbito nacional, fui parceira de pesquisa de grupos que avaliavam pacientes deprimidos no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (IPq-HCFMUSP). Em âmbito internacional, entrei em contato com uUniversity Medical Center Groningen - UMCG, Groningen, Holanda). Durante o doutorado é possível o pesquisador realizar seus trabalhos em ambientes acadêmicos distintos, em prol de sofisticação/enriquecimento do seu trabalho, o que é chamado de Doutorado Sanduíche no Exterior (SWE). Especificamente, o SWE é financiado por uma fundação do governo brasileiro (CNPq) e, trata-se de um doutorado iniciado pelo pesquisador no Brasil, mas que compreende um período de estadia em outro centro de pesquisa no exterior, que tenha reconhecido conhecimento na área de estudo em questão. Aproveitando essa possibilidade do Doutorado Sanduíche, bem como a parceria estabelecida com a UMCG, realizei um estágio acadêmico de nove meses na Holanda. Esse estágio propiciou-me um aperfeiçoamento em técnicas de pesquisa, trazendo-me mais maturidade científica.
m grupo de especialistas em análise de comunicação não-verbal em contextos psiquiátricos do Centro Médico da Universidade de Groningen (

CientíficaMente – Atualmente, você ainda faz pesquisas?

Sim, faço pós-doutorado no Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Prossigo nas investigações relacionadas a diferenças entre pacientes deprimidos e pessoas sem depressão com relação à expressividade não-verbal. O foco de meu estudo atual é desenvolver instrumentos para clínicos (psicólogos, médicos) que permitam avaliar a gravidade do quadro depressivo, a melhora clínica e estimar o prognóstico dos pacientes por meio de pistas não-verbais de emoção (e não apenas através daquilo que o paciente relata verbalmente). Nem sempre quem sofre, sabe do que sofre, ou consegue falar do que sofre. Se a Psicologia avançar na compreensão desse sofrimento, mesmo diante da dificuldade do paciente em falar, considero que haverá um avanço em termos de tratamento de conflitos emocionais.


CientíficaMente – Você procurou ter alguma formação específica para atuar como psicóloga clínica?

Além dos avanços acadêmicos, fiz sim um curso de especialização em psicologia clínica (Formação em Psicanálise) no Instituto Sedes Sapientiae, em São Paulo, que também me ajudou muito a melhorar no atendimento em consultório.
Ou seja, a graduação em psicologia foi apenas o primeiro passo. Aprendi que prosseguir nos estudos, é fundamental. E isso não é um caminho penoso, mas predominantemente prazeroso, porque embora seja angustiante não ter todas as respostas, perceber o desconhecimento, é muito bom também continuar aprendendo sobre algo que a gente gosta.
Portanto, hoje trabalho no atendimento psicológico de pessoas (adultos, crianças) no consultório particular, e sou pesquisadora do Instituto de Psiquiatria da USP.

CientíficaMente – Como é seu trabalho como pesquisadora? 

Sou pesquisadora no laboratório de investigação médica em psicofarmacologia (LIM23), no Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP. Lá executo pesquisas relacionadas ao desenvolvimento de medidas de expressividade que facilitem o diagnóstico e a avaliação de melhora clínica de pacientes deprimidos. Trabalho inserida num grupo multiprofissional, composto por farmacêuticos, psicólogos, psiquiatras e fisioterapeutas.
Também sou psicóloga clínica em São Paulo, trabalho em consultório particular, atendendo adultos, crianças, adolescentes e casais que estejam com algum tipo de conflito interpessoal e emocional.


CientíficaMente –  Como foram seus primeiros trabalhos relacionados à psicologia?

Durante a graduação, nunca trabalhei em algo que fosse relacionado a outras profissões. O tempo livre que eu tinha, utilizei para investir em avaliações sobre qual área da Psicologia me interessava. Por exemplo, comecei a frequentar congressos, simpósios, encontros de Psicologia (de diferentes áreas: hospitalar, escolar, organizacional). Ouvir profissionais de várias áreas contar sobre seus trabalhos em eventos é uma boa oportunidade para expandir a visão sobre o quê pode ser feito com a Psicologia. Como meu curso de graduação era integral, eu não tinha disponibilidade de horários para fazer estágios fora da Instituição. Por isso, como fui me aproximando da área de pesquisa, redigi um projeto de pesquisa em Iniciação Científica e submeti-o, com autorização e cooperação da professora que me auxiliava na pesquisa (orientadora), a uma fundação de pesquisa do estado de São Paulo (FAPESP), que me concedeu uma bolsa. A bolsa de iniciação científica é um auxílio financeiro para o estudante custear algumas despesas básicas para a execução de sua pesquisa. À medida que minha pesquisa foi avançando, eu fui escrevendo resumos dos meus achados para participar de Congressos, e desse jeito passei a ser frequentadora de congressos não apenas como ouvinte, mas também como apresentadora de trabalhos na área.

Como mencionei anteriormente, quando terminei a graduação, fui trabalhar em consultório particular, como psicóloga clínica, e também prossegui meus estudos, fazendo o mestrado e o doutorado. Quando terminei o doutorado, comecei a dar aulas de Psicopatologia numa Universidade do interior de São Paulo, o que também foi uma experiência nova e muito importante para mim. De repente, além de psicóloga clínica e pesquisadora, me vi como professora, mais um caminho que a Psicologia me abriu. Descobri que, além de gostar de ouvir pessoas, de pesquisar pessoas, gosto de ensinar pessoas. A cada dúvida de um aluno, você é convocada a pensar tanto naquilo que você ainda não sabe, como naquilo que você descobre que já sabe.


CientíficaMente –  Quais são os principais desafios do seu trabalho na clínica?

A clínica coloca-me constantemente diante do desafio de poder estar em contato com um outro humano (ex. o paciente), respeitando-o, cuidando dele, ao mesmo tempo que sendo verdadeira, justa, imparcial. As pessoas costumam chegar ao consultório de psicologia angustiadas, preocupadas com algum problema, mas também com receio de ouvirem que “tudo é culpa” delas. Existe, comumente, um conflito, entre a pessoa querer contar o que lhe acontece, e ao mesmo tempo não querer falar, ter receio de se expôr, ter receio do julgamento do psicólogo. E daí, me vejo muitas vezes sob essa linha tênue: caminhar no sentido de ouvir, investigar aquilo que se passa com o paciente, ao mesmo tempo que ter cautela, ir com cuidado, ao ponto de não ser violenta e assustá-lo. A psicoterapia é um tratamento que visa criar um espaço que possa fazer bem ao indivíduo, no qual ele possa falar, ser escutado, se escutar, promover mudanças, ganhar amparo, etc. Entretanto até o espaço terapêutico se tornar de fato terapêutico (no sentido do paciente conseguir confiar no terapeuta, sentir-se confortável, permitir-se falar sua verdade) é um percurso que pode ser longo para muitas pessoas. É difícil a gente chegar num lugar e contar sobre o que nos aflige para uma pessoa que não fazemos ideia de quem se trata. E, tem muitas vezes que a gente precisa de ajuda inclusive para formular o que nos aflige, porque nem sempre isso é claro. Existe, portanto, um desafio diário para mim, no contato com os pacientes, de como construir esse espaço terapêutico.


CientíficaMente –   E com relação à área de pesquisa, quais são as dificuldades?

Na área de pesquisa, também existem desafios. Os desafios variam desde aqueles mais concretos, até os mais abstratos. Por exemplo: no Brasil ainda existe uma dificuldade na execução de pesquisas em função de baixo investimento governamental. Muitas vezes os pesquisadores se desdobram para comprar materiais necessários para execução de projetos, para divulgar resultados de seus estudos, visto que não existe um auxílio financeiro sólido que ofereça condições suficientes de trabalho para o profissional. Noto que o investimento governamental em bolsas, auxílio pesquisa, etc., tem aumentado. Mas ainda estamos muito distantes do cenário positivo para a pesquisa observado em países da Europa e da América do Norte. Falando de desafios mais abstratos, penso que a pesquisa exige a observação de fenômenos/resultados, que não esperávamos, ou que (muitas vezes) não conseguimos entender o seu porquê. Desta forma, o raciocínio ativo, questionador, investigador, é sempre necessário. E, estar constantemente com a mente aberta para reflexões, inovações de pensamento, é um desafio.


CientíficaMente –  Quais são as principais vantagens,alegrias e satisfações no seu trabalho?

Em termos do trabalho como psicóloga clínica, eu diria que saber que meu trabalho pode agregar melhora na qualidade de vida das pessoas é gratificante. Receber um paciente com um problema, um dilema, uma vida dificultada por um medo, por algo mal elaborado, e vê-lo retomar o colorido da vida, retomar a corrida atrás de novas oportunidades, se dar uma segunda chance, não tem preço.  Em termos do trabalho como pesquisadora, eu diria que realizar um trabalho que me permite agregar algo à Psicologia e a Psiquiatria, no sentido da melhora da prática nessas áreas, para beneficiar as pessoas que estejam sofrendo com problemas emocionais, é, da mesma forma, sentir que meu trabalho tem um valor humano, existencial. Minha profissão me dá a alegria de sentir-me viva e útil.

Contato: Dra. Juliana Teixeira Fiquer

Rua Manoel da Nóbrega, 595, conjunto 83, São Paulo. Telefone: (11) 3063-0964

Muito obrigada, Juliana, por conceder essa entrevista ao CientíficaMente


sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Pós-graduação rima com depressão


                A pós-graduação era para ser um período maravilhoso, em que você tem a chance de estudar, se aprofundar em um tema, conversar com pessoas inteligentes, frequentar congressos, ler ótimos livros e artigos, e por fim produzir uma pesquisa do jeito que você queria. Então por que costuma ser uma das piores fases na vida de um estudante?

                Esse período sombrio frequentemente é marcado por um desânimo insistente, e em alguns casos, depressão clínica. No mínimo, você fica por algum tempo “para baixo”. Não passou por isso? Certamente conhece alguém que esteve nessa situação.

                Saiu um artigo na revista Nature sobre a alta frequência de casos de depressão entre estudantes de pós-graduação. Dizem que principalmente aqueles alunos que foram brilhantes na graduação sofrem bastante na pós. Alguns motivos listados foram o isolamento causado pela competição do mundo acadêmico, altas expectativas e falta de sono. Outro agravante é ter uma relação ruim com o orientador ou com colegas. O artigo ressalta a falta de preparo das universidades para ajudar esses estudantes, pois normalmente há ajuda apenas para os graduandos, mas não para os pós-graduandos e suas demandas específicas.

                No blog CoNeCt, há um comentário sobre esse artigo e algumas outras possíveis causas da depressão nos pós-graduandos. Vou acrescentar aqui algumas outras possibilidades. Por que a pós-graduação é desoladora? (Obs. Estou considerando uma pessoa com dedicação exclusiva à pós-graduação stricto sensu, ou seja, mestrado e doutorado).

1.       Estou sozinho.
O pós-graduando é um solitário. Geralmente ele tem o próprio projeto e segue sozinho nele. Mesmo os que fazem parte de um grupo de pesquisa, têm tarefas tão específicas que raramente encontram os demais. Os horários das aulas não batem, e você não encontra mais ninguém conhecido com frequência. Um está coletando dados, outro saiu da cidade para ir a campo, outro está em casa lendo. Não há uma rotina de encontro das mesmas pessoas nos mesmos lugares, o que dificulta o contato social. Você não tem com quem conversar. Se tem, seu projeto é tão único que ninguém entende os seus dilemas (mas o que você quer dizer com estar chateado porque o alfa de Cronbach do segundo teste da terceira bateria de avaliações sobre tomada de decisão em situação de incerteza estar dando abaixo de 0.5???).

2.       Sou um inútil.
Se você só estuda, isso significa que você só estuda, ou seja, é um inútil. Aliás, esse estudo aí que você está fazendo serve para que mesmo? Vai salvar as criancinhas da África? Vai resolver o aquecimento global? Vai achar a cura para o câncer? Não? Então por que você está gastando seu tempo nisso? Os outros te perguntam qual é a utilidade do seu estudo, e por fim, você se pergunta. Você mesmo tem dúvidas se aquilo vai te levar a algum lugar, e se vai beneficiar alguém de verdade. Alguns estão mais preocupados em estar certos, e quando o experimento vai na direção contrária, ficam bem estressados. Outros se preocupam com isso e com querer ajudar a humanidade, e a relação entre uma pesquisa de pós-graduação e a aplicação no mundo real costuma ser fraca. Além disso, ninguém entende que você está se dedicando ao estudo, principalmente quando está na fase de escrever a dissertação na sua casa ("ele não faz nada o dia todo, só fica nesse computador"). Não há reconhecimento social, porque é difícil explicar que você só estuda e o que é que você estuda (poucos entendem - quem nunca fugiu da temida pergunta “E o que é exatamente que você estuda?”), e sua identidade fica abalada. Quem sou eu?

3.       Meu orientador não está nem aí para mim.
Para aumentar o sentimento de solidão e de falta de reconhecimento, sequer seu orientador te dá bola. Ele sempre está ocupado com aulas, mil pesquisas e artigos que têm que ser feitos de qualquer forma, e mais dezenas de reuniões e bancas. Nem sempre é culpa dele, não me entendam mal. As vezes o sistema é realmente o culpado. Enfim, o resultado é que você não tem orientação, trabalha no escuro, não sabe se está indo na direção certa, normalmente até ser tarde demais para evitar o vexame na defesa (ou o seu pensamento constante de que a defesa será um vexame, que é bem pior). E se a pessoa que mais deveria se interessar pelo seu trabalho não está ali, fica difícil achar que seu trabalho tem algum valor.

4.       Não vou ter o que fazer com esse diploma.
Essa é mais típica dos doutorandos do que dos mestrandos. Você tem certa desconfiança de que toda aquela dedicação na verdade depois não servirá para nada.  Sente que sua tese será jogada em um canto na biblioteca (modernizando, será mais um arquivo nesse mundo da Internet). Você já está sem dinheiro agora e se pergunta o que será do amanhã. Seu diploma será usado para que mesmo? Ah, lembrei, irei disputar meia dúzia de vagas com todos os outros doutores do país. Fácil. Tradução: hoje = estudante de pós, amanhã = desempregado sem esperança.

5.       Tudo o que faço é para aumentar uma linha do lattes.
Depois de um tempo na vida acadêmica, você tem a sensação de que tudo o que tem que fazer se resume a acrescentar coisas no seu currículo lattes. Para que vou naquele congresso? Resposta – para ir à praia e colocar no seu lattes que você apresentou o trabalho. Para que tenho que modificar algumas linhas desse mesmo trabalho e ir a outro congresso? Resposta  - para ir à praia e colocar no seu lattes que você apresentou o trabalho. Para que tenho que escrever artigos que eu não quero escrever e publicar em uma boa revista científica? Para aumentar uma linha no lattes (publish or perish). É isso, minha vida se resume a aumentar meu lattes, e aí a ordem se inverte: faço para publicar e não publico porque fiz. E talvez aumentar o lattes não seja um objetivo tão nobre, e aí você sente sua vida vazia.

Sozinho, inútil, deixado de lado, desempregado e com uma vida sem sentido. E depois não sabem por que o pós-graduando fica deprimido...

Brincadeiras à parte, a pós-graduação realmente é um período difícil. As pessoas acham que o momento mais delicado de decisão profissional é na hora de escolher um curso para prestar o vestibular, mas eu discordo. Para mim até agora o momento mais difícil foi depois de estar formada e ter entrado na pós-graduação, porque ali não há tempo, você tem que saber quem você é. Sou pesquisadora? Sou psicóloga social? Sou um professor? Sou um biólogo? Antes parece que há espaço para o “teste”, mas depois que você se forma o mundo e você mesmo esperam certas coisas, como ter um salário fixo, começar uma carreira, ter uma identidade profissional. Para quem tem dedicação exclusiva aos estudos, a pós-graduação é um adiamento da entrada no mercado de trabalho, e pode ser angustiante.

Concordo com o artigo da Nature quando afirma que as universidades deveriam se preocupar mais com o estado psicológico dos estudantes. Penso que  seja necessário criar espaços que facilitem a interação social, a troca de conhecimento e o sentimento de pertencimento a um grupo entre os pós-graduandos. Também é necessário um sistema que valorize mais o trabalho de todos, afinal o estudante precisa sentir que faz algo importante. O orientador tem um papel crucial, é dele que tem que vir o maior apoio, pois é a nossa figura de admiração e que representa o conhecimento, além de ser a autoridade formal.

Boa sorte pós-graduandos de todo o país!

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Entrevista: psicologia escolar


Atendendo a pedidos de que o blog tenha mais entrevistas, conversamos com uma psicóloga escolar (ou educacional), ou seja, que atua em escola, para saber mais sobre seu trabalho.

1) Qual sua formação? 
Fiz psicologia na USP, tendo os graus de bacharel, psicólogo e licenciado. Depois também fiz o mestrado, na USP, na área de psicologia experimental.

2) Como começou a trabalhar com psicologia escolar? 
A área da educação sempre me interessou, mas para dar aula, não tanto para trabalhar como psicóloga. A verdade é que eu não me interessava pelas disciplinas de psicologia escolar, mas fiz questão de fazer licenciatura, que na USP é opcional: só faz quem tiver interesse. Mas na hora em que eu terminei a faculdade, tinham tirado a psicologia do currículo do Ensino Médio, o que fez com que o campo de trabalho do professor de psicologia ficasse bem restrito. Isso me afastou do plano de trabalhar em escola até que, quando eu estava terminando o mestrado apareceu uma vaga de psicólogo no colégio em que trabalho hoje. Me candidatei achando que não daria certo, que certamente haveria outras pessoas mais capacitadas concorrendo pela vaga, mas no final consegui o emprego e aqui estou agora.

3) Como é seu trabalho, o que faz?
A escola onde estou tem desde o maternal até o Ensino Médio. Meu trabalho envolve todas essas séries. É um trabalho bem dinâmico. Muitas pessoas acham que eu trato dos alunos, mas não é exatamente isso. Minha função no colégio é olhar o que está acontecendo quando há alguma dificuldade, conversar com professores, alunos, pais, coordenação, com todos, e orientá-los a respeito do que fazer, de como agir. Digamos, por exemplo, que algum aluno que está tendo dificuldade em alguma matéria, ou o professor acha que ele está com algum problema. Eu converso com o professor, vejo porque ele acha que o problema existe. Depois observo ou converso com o aluno, com os pais... em resumo, investigo o que está acontecendo. Muitas vezes descubro que a questão é pontual e tudo que é necessário é uma mudança de postura da escola ou dos pais, então oriento essa mudança de postura. Teve uma menina do maternal, por exemplo, que não falava nem uma palavra, toda sua comunicação era gestual. As professoras estavam super preocupadas, achando que ela pudesse ter algum problema, mas no final o problema era falta de estímulo para falar: todos ao redor da criança entendiam o que ela gesticulava, então para que ela iria se esforçar para verbalizar? Orientei que se estimulasse a comunicação verbal e tudo mudou. Há casos, porém, em que é necessário uma avaliação maior ou de profissionais de outra área. Se isso for necessário, é preciso encaminhar o aluno. Mas não é só fazer uma cartinha bonitinha, com meu carimbo e o timbre da escola: bem mais do que isso. Primeiro, preciso conversar com os pais, para explicar porque estamos querendo essa avaliação externa. Nesse momento, temos todos os tipos de reação: tem o pai que aceita super tranqüilo, diz que concorda e que vai procurar e dali uma semana já traz o telefone do profissional que vai atender o aluno; tem o pai que concorda, mas que por diferentes motivos não busca, e então é importante ligar para o pai reforçar o quanto é importante a avaliação, insistir que procure. 

Há também pais que simplesmente não aceitam o encaminhamento. Dizem que seu filho não tem nada, que não é louco. Dá para notar que eles têm preconceito quanto ao que significa ser encaminhado pela escola, particularmente quando o encaminhamento é para um psicólogo. Esse é um momento sempre complicado e delicado, pois é preciso tentar explicar que não se procura profissionais fora da escola só porque se é louco. Aliás, se eu soubesse qual é exatamente a causa da dificuldade do aluno, eu não precisaria encaminhar! E eu explico para o pai que é importante fazer essa avaliação, para descartar a possibilidade de existir um problema que precisa ser contornado e até para que outra pessoa, de fora, que não está com o olhar enviesado do colégio, consiga dar pistas de como poderemos agir para ajudar o aluno. Porque, sim, muitas vezes pode acontecer de o problema que o aluno está enfrentando no colégio ser provocado por algo que não está claro para nós, mas que alguém de fora consegue perceber, e eu tento explicar isso para os pais, também. Depois que faço o encaminhamento os pais procuram o atendimento, procuro os profissionais para saber se está tudo bem, se eles precisam de alguma informação a mais da escola e perguntar se eles têm alguma sugestão para nosso trabalho com o aluno e passar essas sugestões para os professores. 

Às vezes encontro profissionais super solícitos, que querem vir conhecer a escola, ou que não conseguem ir até lá mas que conversam conosco pelo telefone de forma bem receptiva. Em outros casos – e infelizmente tenho notado que é um número considerável de profissionais – tenho que tentar diversas vezes até conseguir um único contato, e esse é frio, seco, como se a escola quisesse invadir o trabalho que está sendo feito ou não pudesse ajudar em nada. De qualquer forma, converso com esses profissionais – tanto o receptivo quanto o que não é tão receptivo assim – e encaminho as sugestões deles para os professores. Também observo se está tudo bem, se o que foi sugerido está sendo feito, qual é o resultado que está sendo visto e encaminho essas informações para os profissionais que atendem o aluno. Ou aviso se algo aconteceu de diferente. Assim vamos trabalhando em parceria, trocando figurinha e ajudando aquela criança ou adolescente.

Mas o meu trabalho na escola não é só com os alunos quando eles têm dificuldade, é claro. Esse acaba sendo um dos trabalhos mais “comentados”, mas não é só isso. Algo que também faço é orientar os professores a como agir em certas situações. Digamos, por exemplo, que o professor tenha em sala um aluno com uma dificuldade muito grande, que precisa de uma atenção especial. Meu trabalho será feito no sentido de auxiliar o professor a como agir na sala e frente aos demais alunos, para que ele, ao tentar incluir um que tenha uma dificuldade, não acabe excluindo esse mesmo aluno por algum motivo (por exemplo, super protegendo ele quando não é necessário) ou negligenciando o trabalho com os demais. Há casos também em que faço trabalho com a turma. No momento, estou com três trabalhos ativos. Um diz respeito a parte da disciplina, e estamos trabalhando com dinâmicas para que a turma entenda que tem hora que é preciso ficar quieto e hora em que se pode ficar agitado. Outro é de orientação vocacional, com os alunos que estão acabando o ensino médio, para dar a eles algumas informações a respeito do mercado de trabalho, como escolher uma faculdade, essas coisas. O terceiro é com alunos do quinto ano, para prepará-los para ir para o sexto. Essa é uma fase em que há uma mudança muito grande para o aluno por diferentes motivos, e temos no colégio um projeto para tentar suavizar a mudança. E nesse colégio em particular, também temos uma atividade que eu acho que é bem legal, que é conversar com os alunos quando eles entram na escola. É um bate papo, só, para ver como eles estão, se estão adaptados.  Serve também para que eles se sintam mais a vontade na escola e para que a escola os conheça um pouco melhor.

Finalmente é importante apontar que o psicólogo na escola também está lá para conversar e orientar os alunos, professores ou funcionários que precisem. Por exemplo, alunos que brigaram com os amigos e queriam conversar com alguém ou funcionários com problemas pessoais... não farei terapia com eles, é claro, mas acolherei a demanda e tentarei ajudar o quanto for possível – muitas vezes, indicando que procurem alguém fora, para uma ajuda maior.

4) Você gosta do seu trabalho na escola?
Como todo trabalho, há momentos maravilhosos e momentos não tão bons. Quando você vê, por exemplo, um aluno melhorar depois que fez uma intervenção que deu certo, é maravilhoso. Mas nem tudo são flores. Como eu disse antes, há vezes em que nosso trabalho é visto com preconceito, e parece que estamos querendo rotular o aluno, ou dizer que ele é doente ou louco... Não! Se eu soubesse o que o aluno tem, porque ele está com dificuldade, eu não precisaria encaminhar! E mesmo que haja algum problema, que a avaliação aponte alguma questão que deverá ser trabalhada, não é por isso que a escola irá tratar o aluno de forma diferente, vai excluí-lo – ela vai trabalhar pelo melhor para ele, de forma que ele possa superar a dificuldade que tenha. Tento mostrar isso sempre para os pais, mas nem sempre consigo, e isso é muito complicado, pois você fica engessado: quer ajudar o aluno, mas não sabe mais como.

5) Que dicas daria para quem gostaria de trabalhar como psicólogo em escolas? 
Mente aberta. A escola é muitas vezes vista como a única vilã nos problemas educacionais atuais. É a escola que não ouve o aluno, é a escola que não dá atenção ao pai, que não está preparada para o mundo atual... Mas, não! A escola não é tão ruim assim! Claro que existem escolas boas e ruins, mas muitas estão tentando fazer um bom trabalho. Para conseguir avançar no processo educativo, porém, não é só a escola que será um determinante. Pais que apóiem o colégio, alunos empenhados, professores interessados, tudo conta. Se tentarmos trabalhar numa escola pensando que ela é o único elemento problemático na cadeia de ensino-aprendizagem, deixaremos de lado muitos pontos importantes. Acho que temos que procurar não vilões, não os responsáveis pelos problemas de aprendizado do aluno, mas soluções para esse problema. Soluções que, claro, deverão envolver todos os personagens da história do aluno: família, escola, o próprio aluno, seus amigos, etc. Se todos se empenharem para ajudar o aluno, o resultado não terá como ser ruim, e não terá que ter ninguém sendo acusado de nada. É sempre importante ter isso em mente para se fazer o melhor trabalho possível.

domingo, 29 de julho de 2012

Vale a pena aprender uma segunda língua já adulto?


“Requisitos da vaga: conhecimento do pacote Office e inglês avançado.” “Disponibilidade para viagens e é imprescindível inglês fluente”. Na procura pelo emprego, é comum encontrar esse tipo de descrição. Saber um segundo ou terceiro idioma já não é mais um diferencial, e sim uma habilidade esperada do candidato. Muitos profissionais qualificados e com experiência na sua área não conseguem uma boa colocação no mercado pelo fato de não apresentarem um bom desempenho ao falar uma segunda língua.

Muitos não tiveram a chance de aprender outra língua enquanto crianças ou adolescentes. Já adultos, se veem cobrados pelo mercado de trabalho a dominar um idioma, normalmente o inglês. A história se repete: começaram cursos quando mais novos e pararam, depois recomeçaram e pararam novamente, o problema foi então sendo adiado e quando a habilidade é requisitada, a pessoa já é um adulto formado com alguma experiência, mas cuja falta de fluência a impede de avançar na carreira.

É comum o desânimo quando adultos começam a frequentar aulas e se veem com um desafio que parece grande demais para ser superado. A facilidade com que crianças aprendem um idioma é notável, assim como a dificuldade que um indivíduo mais velho enfrenta para formar uma simples frase em outra língua. Os adultos se sobressaem em comparação às crianças em muitas tarefas, mas certamente aprender uma língua não é uma delas. Por que isso acontece? Qual a diferença entre os aprendizados da criança e do adulto quanto à língua?

Sem necessidade de instruções formais, as crianças se tornam rapidamente eficientes em se comunicar através da língua materna. Já nascem equipadas para adquiri-la: existem estruturas cerebrais para aprender e processar a língua em que a criança é exposta. Com poucos dias de vida, os bebês conseguem discriminar fonemas, perceber sílabas e são sensíveis ao ritmo da fala. Aos seis anos, uma criança sabe, em média, cerca de 8.000 palavras.

Toda a preparação biológica do aparato cerebral espera encontrar um ambiente em que uma língua seja falada, para que então essa capacidade de comunicação exclusivamente humana se desenvolva. Os especialistas em linguagem falam sobre a existência de um período crítico, ou janela de oportunidade, em que uma criança deve ser exposta à língua para aprendê-la. Caso não tenha contato com nenhuma língua até o início da puberdade, dificilmente seria capaz de falar depois, mesmo com treinamento intensivo.


Alguns casos apoiaram essa hipótese, o mais conhecido é o da menina Genie, que foi encontrada aos 13 anos mantida em um quarto por pais desequilibrados que nunca falaram com ela. Depois de resgatada e após muitas tentativas de ensino e apesar da sua inteligência ser alta, ela nunca conseguiu aprender a falar.

Possivelmente, a prontidão biológica para aprender a língua materna também facilita a aprendizagem de uma segunda língua pela criança, porque são utilizados os mesmos circuitos e funções cerebrais. Além disso, há alta plasticidade cerebral na criança, pois os circuitos neurais ainda não são tão específicos, ou seja, estão mais abertos à aprendizagem e à modificação. Portanto, tanto caminhos específicos para o aprendizado de uma língua estão mais disponíveis, quanto outras funções cognitivas estão mais aptas ao aprendizado em geral.
 
A arte de falar fluentemente
A curva de proficiência em uma língua tende a cair conforme a idade do início da exposição à essa língua aumenta, principalmente a pronúncia. Ou seja, quanto mais velha a pessoa começa a aprender uma língua estrangeira maior a dificuldade de pronunciar os sons dessa língua, e também maior a quantidade de erros no emprego das palavras.

O sotaque da língua materna também se torna muito difícil de amenizar após a puberdade, mesmo que alguém se mude para outro país e lá viva por muito tempo, ainda provavelmente terá sotaque do idioma nativo se a mudança ocorreu após a adolescência. Isso é facilmente observável em famílias que emigram, pois enquanto os pais sofrem para aprender o novo idioma e carregam o modo de falar da língua materna, seus filhos aprendem rapidamente a língua e logo se assemelham aos nativos.

Alguns pesquisadores acreditam que isso acontece porque quanto mais velho se fica, menos plástico o cérebro é. Assim, uma criança que sofre uma lesão no hemisfério esquerdo, o dominante para a linguagem, normalmente consegue recuperar a capacidade de falar porque outras partes do cérebro começam a exercer essa função. Já um adulto que seja vítima da mesma lesão tem muito mais dificuldade para recuperar a capacidade de linguagem, e pode ficar afásico (com prejuízo na habilidade de linguagem) permanentemente.

Isso ocorre, dentre outros fatores, porque, no cérebro adulto, há um alto grau de especialidade neurofuncional, em que os circuitos cerebrais se especializam em certas operações mentais e se tornam menos abertos à modificação pela aprendizagem. O nível de mielinização é mais alto, assim, esse isolamento elétrico que, ao mesmo tempo torna a velocidade da transmissão neuronal mais rápida, também inibe o crescimento de novos neurônios, portanto de novas sinapses.

Além disso, outras modificações ocorrem com a idade: após os vinte anos aproximadamente, o volume cerebral começa a diminuir, assim como o nível de neurotransmissores e funções cognitivas como memória, controle motor e atenção se tornam menos eficientes. Esses fatores podem também contribuir com a dificuldade no aprendizado de uma língua, que envolve a participação de várias partes do cérebro e de várias funções cognitivas.


Outras razões
Há outras explicações possíveis levantadas por diversos estudiosos para a dificuldade da aquisição da segunda língua por um adulto. Por exemplo, para alguns autores o crucial é a interação entre a língua materna e a segunda língua. Nesse caso, a idade seria apenas um indicador do quanto a língua materna está bem estabelecida no cérebro, deixando menos espaço para uma nova língua. Desse modo, quanto mais tempo de presença mais enraizada está a língua nativa, e mais ela influenciará o aprendizado de outra língua, marcando-a com as características preexistentes da língua nativa como pronúncia e relação entre as palavras.

Os pesquisadores concordam com o efeito da idade no aprendizado da segunda língua, porém há menos consenso quanto a existência de um período crítico para a aprendizagem da segunda língua, como hipotetizado com a língua materna. Eles questionam se haveria uma idade em que não seria possível desenvolver a proficiência como a de um nativo em certos aspectos de uma segunda língua, tais como a pronúncia.

A experiência parece apontar para um grande número de pessoas mais velhas enfrentando grandes dificuldades para aprender uma nova língua, em que a média consegue atingir um nível satisfatório, e alguns poucos, um nível de proficiência como o de um nativo. Essas exceções não dariam suporte à existência de um período crítico, porém alguns autores propuseram uma amenização, que seria uma versão fraca da hipótese do período crítico. Nesse caso, se o indivíduo não foi exposto e não adquiriu a segunda língua durante a infância, ele não teria perdido para sempre a oportunidade de falar como um nativo, pois poderia compensar através de uma exposição intensa à língua em um período posterior da vida, morando por um tempo em outro país, por exemplo.

Esses estudos, à primeira vista, parecem desanimadores. Quer dizer que não vale a pena se arriscar a aprender um idioma depois de mais velho, porque é muito complicado? E porque dificilmente se falará tão bem quanto um nativo? Se não se teve a chance de aprender quando criança, não tem mais jeito?

Mesmo com as dificuldades previstas pelos estudos e verificáveis no cotidiano, certamente vale a pena aprender um novo idioma, mesmo depois da adolescência. Em muitos casos, isso é necessário para se conseguir um emprego, se manter nele ou conseguir uma promoção.

Além disso, através de um novo idioma também um novo mundo se torna acessível: pode-se desfrutar de maior autonomia em viagens; livros, artigos, revistas, filmes e sites podem ser compreendidos; pode-se conhecer e conversar com pessoas de outros lugares. Uma forma diferente de se olhar para tudo, inclusive para sua própria cultura, pode ser desenvolvida a partir da aproximação com outra cultura através da sua manifestação linguística.

Há também benefícios para a saúde. Alguns estudos sugerem que ser bilíngue pode proteger o cérebro de algumas perdas cognitivas comuns ao envelhecimento e de sequelas de derrames cerebrais, e ainda atrasar o aparecimento de sintomas de doenças como o Alzheimer e outras formas de demência.
Outra vantagem de aprender uma segunda língua é que a terceira língua é aprendida mais facilmente. Ou seja, após o esforço de aprender a segunda, se o indivíduo quiser aprender outras, será mais fácil. Isso provavelmente acontece porque o aprendizado da segunda língua fortalece habilidades fonológicas, morfológicas e sintáticas, que abrem caminho para novas aquisições.

Portanto, mesmo sendo um desafio, aprender uma segunda língua apresenta muitas vantagens.  E embora os estudos nos ajudem a entender o funcionamento da mente, as vezes eles têm que ser relativizados. Por exemplo, muitos estudos sobre o período crítico na segunda língua utilizam o critério de proficiência na língua como igual ou indistinguível da de um nativo. Esse objetivo não é ou não deveria ser o de todo estudante de uma língua estrangeira.     Normalmente, o que se pretende ao se estudar uma língua é adquirir o poder de comunicação: a troca de informações. E, para isso, não é necessário possuir uma gramática perfeita, até porque nem mesmo todos os nativos a possuem, ou uma pronúncia idêntica a do nativo: ela tem que ser boa o suficiente para que os outros a entendam, e isso basta.


Maior contato com o idioma

A motivação para aprender têm alta correlação com o nível de proficiência linguístico atingido, de acordo com várias pesquisas. A motivação é o processo que sustenta comportamentos direcionados; uma pessoa motivada é aquela que tem objetivos e aspirações, se esforça, persevera,  é reforçada com o sucesso e desapontada com o fracasso, e faz uso de estratégias para atingir suas metas. Especialmente, a motivação para falar a língua, ou seja, para se expor a ela, é essencial para desenvolver a fluência.

O tempo de exposição à língua também é importante. Visitar e/ou morar no país estrangeiro, ou incorporar o idioma na rotina estudando um pouco todos os dias, lendo jornais, revistas, vendo filmes, escutando música, enfim, todo o contato com a língua é importante. Assim, há aumento de vocabulário, aumento da percepção dos sons, aproximação com a forma de pensar da cultura etc. Os adultos costumam possuir estratégias de aprendizado mais eficazes do que as crianças e os adolescentes, o que pode compensar a desvantagem biológica.

No final do século passado, novas ideias na área da educação apontaram para a existência de diferentes estilos de aprendizagem. Esses estilos seriam produto de predisposições biológicas e de experiências que ocorreram na família, na escola, na comunidade e na cultura. Vários estilos foram definidos por muitos autores, alguns deles são os estilos analítico ou sintético, extrovertido ou introvertido, e ainda o visual, auditivo, sensório etc. Sabe-se que quando o aluno está consciente da forma com que ele aprende melhor, costuma se tornar mais interessado, motivado, e participativo, fatores que também aumentam a eficácia da aprendizagem.

A partir da teoria das inteligências múltiplas do psicólogo Howard Gardner, acredita-se que algumas técnicas de ensino de uma segunda língua podem beneficiar os alunos e seus diferentes talentos e facilidades. Trata-se de utilizar várias habilidades, e não somente a linguística por si, como escutar uma música (inteligência musical), utilizar elementos visuais como fotos e filmes (inteligência viso-espacial), fazer brincadeiras de mímica (inteligência cinestésica-corporal) e de dramatização (inteligência interpessoal). Dessa forma, o estudante pode se beneficiar ao aprender em seu estilo favorito, e também desenvolver as suas outras inteligências.

Todos esses fatores influenciam no aprendizado de uma segunda língua, e diferentes linhas de ensino os levam em consideração de várias formas. Na psicologia, as diversas linhas teóricas enfatizam diferentes fatores: na tradição behaviorista, o ensino direcionado com o feedback negativo e positivo e a repetição têm grande importância. Em uma linha humanística, sentimentos, motivação e autoconfiança são pontos chave, enquanto o construtivismo leva em consideração a história e cultura do aprendiz, e o professor é visto como facilitador, pois a responsabilidade do aprendizado está no aluno. Já uma linha mais cognitivista utiliza modelos do funcionamento mental e técnicas desenvolvidas a partir deles, por exemplo, o modelo mental do funcionamento da memória e da gramática universal.

Apesar da idade ser um fator muito importante para o aprendizado de um novo idioma, os estudos também apontam que há grandes diferenças individuais no desempenho ao se falar uma segunda língua. Talento individual, personalidade, esforço, motivação, quantidade de exposição à língua e qualidade do ensino são todos fatores que influenciam na velocidade e qualidade do aprendizado.



Acima do tom
O sotaque, algumas vezes, é tratado como se fosse uma característica negativa a ser eliminada, porém há outras maneiras de olhar para essa questão. Sotaque é a maneira particular da pronúncia de um indivíduo, que costuma se relacionar ao local em que cresceu, à sua classe social, à sua etnia etc., portanto, todas as pessoas têm sotaque. Ele se relaciona com a individualidade e personalidade e pode ser considerado como uma marca distintiva no sentido de que caracteriza a pessoa como alguém de certa nacionalidade e com uma história de vida sempre carregada consigo.

Em uma segunda língua, a pronúncia deve ser próxima a de um nativo em um grau suficiente para o entendimento. Assim, o sotaque da língua materna não precisa ser eliminado, e sim amenizado o suficiente para permitir a compreensão da sua segunda língua por outros.


QI ou QE?
Alta inteligência geral não parece explicar a facilidade que algumas pessoas têm em aprender outras línguas, assim como baixa inteligência não explica totalmente o fracasso nessa  aprendizagem. Os estudos realizados comparando o quociente de inteligência (QI) e a capacidade de aprendizado de uma segunda língua mostraram um nível moderado de correlação (Silva & White, 2002). Assim, aprendizes excepcionais de um segundo idioma não necessariamente apresentam QI mais alto do que a média, mas em termos cognitivos, parecem ser muito bons em algumas habilidades específicas, como alta capacidade de memorização e recuperação da informação enquanto estão interagindo.
Há outros fatores que contam para o sucesso, além dos cognitivos. Certos componentes da personalidade podem influenciar a maneira e a velocidade com que um estudante aprende uma segunda língua, como grau de inibição, grau em que se expõe ao risco, nível de ansiedade e de autoconfiança. É comum adultos sofrerem com a vergonha ao falar a língua que estão aprendendo e, por isso, se expõem menos a situações de prática, o que prejudica o aprendizado.


Texto adaptado do original publicado na revista Psique Ciência & Vida, maio de 2012. 

Referências

Birdsong, D. (2006)  Age and second anguage acquisition and processing: A selective overview. Language Learning.

Flege, J.E.,Yeni-Komshian, G.H., Liu, S. (1999). Age constraints on second-language acquisition. Journal of memory and language, 41, 78-104. 

Pinker,  S. (1994). The language instinct: how the mind creates language. New York:William Morrow and Co.

Schouten, A. (2009). The Critical Period Hypothesis: Support, Challenge, and Reconceptualization. Teachers College, Columbia University, Working Papers in TESOL & Applied Linguistics, 9 (1).


domingo, 15 de julho de 2012

Dica: WP - Centro de Psicoterapia Cognitivo-Comportamental

A pedido da coordenação do Instituto WP, divulgo algumas infomações sobre  o local e os cursos. O Insituto WP tem mais de 30 anos de tradição na abordagem da Terapia Cognitiva-Comportamental, ofercendo cursos de especialização, aperfeiçoamento e formação, além de promover eventos como simpósios e jornadas que tratam do assunto. As sedes concentram-se no Rio Grande do Sul, no entanto, ministram cursos em diversas cidades do Brasil, como São Paulo e Salvador.


Para o segundo semestre de 2012, há dois cursos e um grande evento:


Curso de aperfeiçoamento em terapias cognitivo-comportamentais
Duração: um ano e meio
Início: Agosto de 2012
Local: Santa Maria - RS


Jornada WP

Título do evento: O Impacto da Terapia Cognitiva na promoçao da Saúde Mental
Datas do evento: 26 e 27 de outubro de 2012
Local de realização do evento: Hotel Itaimbé, Santa Maria/RS
Maiores Informações: http://www.jornadawp.com.br/


Curso de Especialização em Psicoterapia Cognitivo-Comportamental em Salvador - BA
Curso voltado estudantes de psicologia que estejam no último ano da graduação; residentes de psiquiatria e profissionais psicólogos e psiquiatras já formados.
Data de início do curso: 17 de agosto.
Duração: 4 semestres. As aulas acompanham o calendário acadêmico.

Fica aí a dica, e para maiores informações acesse o site do instituto.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Entrevista com Cris Monteiro

Entrevistei Cristina Monteiro, principalmente porque quando a conheci me surpreendi por quanta experiência ela tinha na área da psicologia, e pela diversidades de trabalhos que ela realizou. Logo pensei que era uma pessoa interessante para eu entrevistar para o CientíficaMente, que trata também das possibilidades de carreira na psicologia. Um breve resumo sobre ela, e abaixo, a entrevista.

Cristina Fonseco Monteiro se formou em psicologia em 2007 (PUC), e fez pós-graduação em psicopedagogia clínica pelo Instituto Sedes Sapientiae. Desde 2008 ministra palestras sobre vários temas, e é instrutora empresarial desde 2010. Em 2011 lançou um livro de crônicas junto com outros autores.


       CientíficaMenteCris, por que você escolheu fazer Psicologia?

Sempre tive interesse em ajudar as pessoas, assim como sempre precisei de bastante ajuda para lidar com diversas situações da vida. Aos treze anos, passei por um momento bastante turbulento na vida, quando me mudei para o Colégio Palmares que tem um regime rígido, em que fui submetida por muito tempo a bullying, além de muito stress e medo de não conseguir dar conta daquela missão. À base de vários auxílios – das amigas, da família, de professores, de professores particulares e de uma psicóloga do colégio – consegui vencer o pavor de estar ali e ainda permanecer até o final do Ensino Médio. Desde então, escolhi fazer Psicologia para ajudar as pessoas a viverem melhor e a superar seus medos.

       CientíficaMente - Onde fez o curso, e o que achou dele?

Fiz Psicologia na PUC-SP e gostei muito. Achei que o curso me ajudou a voltar a sonhar, a perceber que eu poderia olhar mais para dentro de mim e me compreender. Desde o primeiro ano fiz terapia, depois análise e não parei mais. Conheci pessoas que têm o meu estilo de ser e pensar, que têm profundidade, característico das pessoas que cursam Psicologia. Isso valeu muito a pena.

       CientíficaMente - Quando estava na graduação, fez algum estágio, algo prático? Como foi?

Fiz muitos estágios em diversas áreas, notadamente sociais, até porque a graduação exige isso. Foi importante poder ir para a prática e ver que eu podia existir para além dos muros da universidade. Fui criada com muita proteção e ali foram os primeiros ensaios para apalpar a realidade. Não foi uma tarefa fácil. Tive que quebrar uma bolha e me refazer novamente. Com muita ajuda, paciência e perseverança, praticamente nasci de novo e hoje estou mais forte.

      CientíficaMente - Depois que se formou, o que fez?

Fui cursar Psicopedagogia, pois sabia que a clínica psicológica não era fácil. Acreditava que se eu entrasse em uma escola, poderia ter um respaldo institucional e não estar totalmente sozinha. Trabalhei como voluntária para projetos de ação social em abrigos (em São Paulo e em SBC), em escola especial (Colégio Winnicott), em uma clínica-empresa (atendendo particular e convênios saúde), em hospital com atuação com grupos de apoio em Psicodrama (Ipq-HC-USP), ministrei palestras para estudos em um cursinho preparatório para concursos públicos (Pró-Concurso Educacional), buscando ser uma coaching do estudo, ministrei treinamentos sobre Trabalho em Equipe na Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo (em São Paulo e Campinas) e outros tantos para algumas consultorias (como a MultiMeta Treinamentos). Cogitei fazer mestrado em Psicologia Social na USP, onde assisti a algumas aulas e conheci algumas pessoas.
No entanto, após passar por um processo de coaching, pude acreditar no meu desejo e na minha capacidade de entrar em uma empresa e efetivamente ganhar dinheiro. Atualmente atuo no LAB SSJ, uma consultoria de aprendizagem corporativa, e me realizo por utilizar a escrita e a orientação para a aprendizagem, assim como me desenvolver no trabalho em equipe.

        CientíficaMente - Você clinicou? Como era?

Atuei em clínica e no hospital. Por um lado, foi bastante realizador poder ajudar as pessoas. No entanto, a Psicologia Clínica é para aqueles que têm paciência com o tempo de formação da clínica, tanto em termos financeiros, quanto em termos do quanto você precisa estar preparado para não se misturar com o paciente e ter técnicas e métodos eficientes que lhe forneçam o suporte necessário para lidar com o dia a dia desse tipo de trabalho. Além disso, o trabalho precisa ser reconhecido, o que não acontece diante dos convênios-saúde e das clínicas de convênio que desestimulam o terapeuta e atravancam o bom desenvolvimento do processo terapêutico, em relação ao lado financeiro e ao modo como o processo terapêutico é visto (limitação de sessões, atrelado a um diagnóstico médico).

          CientíficaMente - O que você faz hoje? Gosta do que faz?

Gosto bastante do fato de ter um emprego registrado em carteira, ter um salário e me sentir mais pertencente a um mundo real. Gosto da questão temporal: ter que ficar 8 horas por dia trabalhando num mesmo lugar, com as mesmas pessoas, em equipe. Isso me dá estrutura e me dá o chão que eu precisava e ainda preciso. Além disso, o trabalho que realizo é criativo, dinâmico, lida com os recursos de aprendizagem nossos e daqueles que receberão treinamentos e isso me mostrou que podemos nos desenvolver buscando o desenvolvimento pelo incentivo àquilo que motiva e não apenas no processo de cura atrelada à dor. Isso descola o psicólogo daquele papel de “curador psíquico” e o coloca num lugar mais popular, fato que também me deixou mais confortável. Mas um dia ainda quero voltar a poder atuar nesse papel, mais próximo de desenvolver outras pessoas.

     CientíficaMente - O que pensa da sua trajetória na psicologia?

Por um lado, é complicado ter um currículo tão variado, porque aparenta que eu não sabia onde queria chegar. Por outro, sei também da minha diversidade de interesses, das dificuldades que enfrentei, das lutas que eu venci. Sinto que a Psicologia é algo praticamente intrínseco a mim: desde pequena incansavelmente mergulhei na minha subjetividade e minha lente de enxergar o mundo foi esta. Isso me traz bônus e ônus. E apesar de ir para lá e para cá, garanto que meu foco é um só: o ser humano.

CientíficaMente - O que pensa da área da Psicologia em geral, sobre o mercado de trabalho, as possibilidades de atuação? Como era antigamente e como está hoje?

A Psicologia é o mundo dos sonhos. A realidade é bem diferente. Acredito que a Psicologia deveria ser difundida de um jeito que arrancasse os preconceitos e aquilo que é vendido como Psicologia e não é. As pessoas ainda têm uma ideia muito irreal da Psicologia: ou você é um santo ou é o demônio... Ou ainda é alguém que vai falar de mim o que eu já sei, então para que pagar? Mas o importante é perceber que não dá para estudarmos as coisas e as situações como algo à parte ao ser humano: aquilo que estudamos veio de alguém e vai para alguém. A transferência é um fenômeno fortíssimo em nossas vidas. E o papel da Psicologia é nos possibilitar uma maior expansão da consciência, para esclarecer nossas ideias, refinar nossas escolhas, ao percebermos melhor a nós mesmos e aos outros. Enfim, dar aos nossos olhos, novas lentes que nos mostrem outras possibilidades.

Gostaria de agradecer novamente a Cris pela disposição em ser entrevistada.