quinta-feira, 26 de junho de 2008

Férias!

Quem acha que abandonei meu blog está muito enganado!
Pessoal, estou em um período breve de afastamento, devido ao excesso de compromissos acadêmicos do fim do semestre. Aguardem, logo voltarei a postar...
Abraços e forças a todos que precisam nessá época caótica de desfecho de semestre!

sábado, 17 de maio de 2008

Entrevista: carreira do psicólogo

Esta semana conversei um pouco com o professor Marcelo Afonso Ribeiro, do departamento de Psicologia Social e do Trabalho da USP, sobre a carreira do psicólogo. Bom, acabamos falando de outras coisas também, como a representação social da psicologia. Confira!

CientíficaMente - O que é Psicologia?
Eu acho que a psicologia é uma área de saber que vem do cotidiano, da filosofia, e que se dedica, com coragem e ousadia, a tentar entender o comportamento humano. A psicologia, de alguma maneira, tem como objetivo estudar o que acontece na relação entre o corpo biológico e uma sociedade constituída, entender a relação indivíduo e mundo social e construir teorias que possam dar conta de ajudar também. Pensando na parte mais prática, ajudar as pessoas com as suas questões, com os seus conflitos nessa relação.

CientíficaMente – Professor, você acha que as pessoas, em geral, sabem o que é a psicologia?
Eu acho que tem um estereótipo do que é o psicólogo, muito via mídia: o psicólogo clínico, aquele que atende problemas, que faz diagnóstico, com quem você vai conversar porque tem um problema. Essa é uma das áreas da psicologia que ainda existe, não que tenha deixado de existir, mas acho que como todas as outras profissões, há uma fragmentação. Os limites já não estão mais claros entre o que é uma atribuição do psicólogo, atribuição do administrador, do médico, do cientista social, e de todas as outras profissões. Isso é interessante em um nível, porque você tem aí mais possibilidades de trabalho. Não é exclusivo da psicologia estudar o ser humano, outras áreas também se dedicam a atuar. Por outro lado, também é perigoso, porque você tem a entrada de áreas, pessoas, que não têm o rigor necessário. Então essa fragmentação é positiva porque faz crescer, mas também é negativa porque entram mais coisas que não são necessariamente boas. E no senso comum as pessoas não conseguem definir o que é o quê.

CientíficaMente - E qual você acha que é a principal causa dessa visão senso comum da psicologia?
De alguma maneira, quem não tem acesso via escola, via educação a alguma área do saber, acaba tendo contato pela mídia impressa e televisiva. Há muitos profissionais que vão à mídia e falam em nome da área, alguns com propriedade, outros não. Alguns nem mesmo são da área e as pessoas os identificam como se fossem. Como exemplos temos aqueles programas de auditório cujos apresentadores não são psicólogos, no entanto as pessoas acham que são. Eles inclusive fazem interpretações ao vivo, que são duvidosas. Então as pessoas vão construindo uma representação social do que é o psicólogo a partir disso, daí acontecem muitas misturas. Eu acho que o que mais forma o senso comum é a mídia. Em muitas revistas há seções sobre comportamento em que supostos profissionais dão a sua opinião quando não teriam condição de fazê-lo.

CientíficaMente - Você vê alguma saída para isso?
Eu acho que a psicologia deveria - na verdade o Conselho Federal (CFP) há alguns anos tenta fazer isso - freqüentar mais a mídia só que com qualidade, com rigor, até de forma institucional, explicitando o que é a psicologia. Esse espaço está sendo conquistado aos poucos, por exemplo, o CFP teve, por algum tempo, um espaço no canal Futura. Contudo, eu fico pensando, quem é que tem acesso a um canal de TV paga? É restrito a pessoas que provavelmente já têm outra visão da psicologia. Acho que deveria haver um espaço para mostrar o que é a psicologia, explicitando aquilo que parece estar formando a opinião das pessoas. Não sei exatamente como, porque é uma tarefa difícil.

CientíficaMente - E com relação à carreira do psicólogo, hoje em dia há mais possibilidades além da clínica?
A psicologia tem as áreas mais tradicionais, instituídas, em que algumas já não mais tão seguras. Por exemplo, o consultório antigamente era a opção óbvia – você se formava, abria seu consultório e pronto. Hoje em dia você até pode abrir seu consultório, tentar uma estabilidade, porém há mais pessoas fazendo isso e não está tão simples assim você manter essa atividade. Você pode trabalhar em escolas, que abriram mais espaço para nós, e as empresas, que sempre tiveram vagas e provavelmente sempre terão. Essas áreas já são instituídas, mas hoje se abriram mais possibilidades. Áreas em que nem se pensava que o psicólogo poderia contribuir, como na política, na gestão, em instituições, em comunidades, no trânsito, com engenheiros, enfim tudo que envolva impactos no comportamento humano cabe também ao psicólogo. O problema é que, por exemplo, pensando em alguém que está em formação, você acaba tendo contato com as áreas mais tradicionais, e tem outras áreas que você vai constituindo seu espaço. Isso é algo bom, porque agora você pode chegar e dizer que tem um conhecimento, que pode contribuir. Você pode construir um espaço, apesar de que leva um tempo para isso ocorrer. O risco é as pessoas não te reconhecerem como psicólogo, dão outro nome, fica como outra coisa. Estamos nessa abertura de novos campos de trabalho, mas que ainda não estão consolidados como tal. Alguns já estão, como a psicologia jurídica, a psicologia do esporte, a psicologia hospitalar, que há dez, quinze anos ninguém saberia dizer o que eram. Também podemos aproveitar áreas que estão consolidadas em outros países. Hoje há mais abertura, por outro lado isso deixa as pessoas sem referências, mais confusas com relação ao que o psicólogo é e faz.

CientíficaMente - E o que você acha que diferencia o psicólogo dos demais profissionais que lidam com humanos?
Eu acho que é o olhar. Nós desenvolvemos um olhar que é muito específico. O curso - teoricamente, não que todos tenham isso - te dá uma chave de leitura da realidade muito particular (chamo de realidade as pessoas, as instituições, as organizações, dimensões da vida). Isso nos ajuda a entender para além da superfície. Acho que a maioria das profissões não vai para além da superfície, até porque não se propõem a isso. As nossas grandes ferramentas são o diagnóstico, em um sentido mais amplo, pensado em termos de leituras, interpretação, análise da realidade, e a forma como se acessa essa realidade. A entrevista, por exemplo, é um instrumento fantástico que nós temos, e nós extraímos coisas dessa entrevista que outros profissionais não extraem. É uma leitura muito particular da realidade, que consegue entender um pouco as pessoas, as relações das pessoas, e ajudar no que estabelece o cotidiano de todas as outras profissões.

CientíficaMente - Você acha que as faculdades, os cursos de psicologia em geral, conseguem mostrar esse campo aberto de atuação do psicólogo?
Olha, mais ou menos. O campo tradicional é apresentado. Não dá para dizer genericamente, acho que algumas faculdades têm isso, essa preocupação, outras não têm. Algumas fazem isso de um modo mais integrado, dentro do currículo, outras não, fazem palestras, por exemplo. As faculdades estão preocupadas, mas varia o nível de preocupação e ação para dar conta disso. Até porque tem muita coisa nova, e muitas áreas ainda não estão consolidadas, umas são legais, outras não. Às vezes você traz para dentro do curso de psicologia alguém que mistura psicologia e coisas esotéricas, o que é um problema. A formação em psicologia é algo complicado. Você fecha a grade curricular e aí surge uma nova área.

CientíficaMente - E o que você acha que os alunos podem fazer para entrar mais em contato com as possibilidades de carreira?
Eu acho que tem que conversar muito com os professores, e também com os colegas. Às vezes o colega que senta a seu lado está fazendo um estágio muito legal, em algo que você nem imaginava. Principalmente conversar com os professores, porque às vezes ele dá uma aula que tem que dar, mas a experiência dele é outra. Uma coisa que não se faz, eu como aluno não fazia e não vejo meus alunos fazendo, é conhecer um pouco o professor. Ver o que ele faz, o que ele pesquisa, o que ele estuda, onde ele trabalhou, o que já fez... Saber a história de vida dele é interessante, até porque ele pode te dar dicas de por onde ir, como caminhar. É importante conversar com vários, não com um só. Hoje em dia temos a Internet, mas nem sempre você sabe se a informação é válida. É legal ter alguém como uma referência, que te ajude nesse caminho. Eu ainda acho que a graduação é um espaço de exploração e de experimentação. Esse é o objetivo. Quanto mais se explorar e se utilizar do material físico e humano da universidade, melhor. Não que isso vá garantir que quando você se forme terá uma inserção perfeita no mercado de trabalho. No entanto, quanto mais informação, mais fácil você consegue. Claro que há também outros fatores, como características pessoais, contingências do momento, da área que você escolheu. Tem áreas que a inserção é fácil, e em outras você terá que inventar e batalhar para abrir seu espaço.

Queria agradecer ao professor Marcelo pela entrevista e por nos fazer refletir um pouco sobre psicologia e carreira. E claro, por dar a dica de que nós, alunos de graduação, devemos ser mais ativos e aproveitar ao máximo as possibilidades do curso, não ficando apenas restritos ao âmbito das aulas.

Concordo plenamente com o professor Marcelo que a graduação deve ser um espaço de experimentação, e conversar com professores é algo realmente importante. Aguardem as próximas entrevistas do CientíficaMente.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Terapia Cognitiva x Psicologia Cognitiva

Confundir terapia cognitiva com psicologia cognitiva é comum. Apesar de terem algumas semelhanças, elas não são sinônimas.

A terapia cognitiva (TC) foi desenvolvida por Aaron Beck no início da década de 60, na Universidade da Pensilvânia, EUA. Nessa época, Beck tinha como objetivo investigar os mecanismos inconscientes propostos pela psicanálise para explicação da depressão a partir de estudos empíricos e observações clínicas sistemáticas. Os resultados de suas investigações não se mostraram compatíveis com as pressuposições psicanalíticas, levando-o a buscar outros construtos que explicassem mais satisfatoriamente os dados empíricos observados.


Sua preocupação era oferecer um modelo abrangente do funcionamento cognitivo (inicialmente de depressivos), que apresentasse coerência interna e compatibilidade com as observações clínicas, possibilitando que novas intervenções psicoterápicas pudessem ser desenvolvidas.

A terapia de Beck foi então concebida como uma psicoterapia breve, estruturada, orientada para o presente, direcionada para a resolução de problemas atuais e para modificar comportamentos disfuncionais. Desde então, Beck e seus seguidores vêm adaptando com sucesso essa terapia para um conjunto surpreendentemente diverso de populações e desordens psiquiátricas, como depressão, fobias, transtorno obsessivo-compulsivo etc.

Logo depois houve uma junção com pressupostos da terapia comportamental, e daí nasceu a terapia cognitivo-comportamental (TCC). Ultimamente esse termo acaba abrangendo muitas formas de terapia, algumas com enfoque mais cognitivista, outras mais comportamentalistas, porém em geral todas buscam mudanças adaptativas e a avaliação de resultados da terapia é fundamental.

A TCC se baseia no modelo mediacional, ou seja, uma mudança cognitiva media ou leva a uma mudança comportamental. Assim, sentimentos, pensamentos e comportamentos são inter-relacionados, isto é, eles influenciam uns aos outros. Os pacientes são ensinados a reconhecer os padrões afetivos, cognitivos (crenças) e comportamentais que pioram os seus sintomas. Uma vez que o padrão seja reconhecido, técnicas da TCC podem ser usadas para "quebrar o ciclo" por meio de modificação de respostas cognitivas ou comportamentais.

Apesar de ser contemporânea ao desenvolvimento da terapia cognitiva, a psicologia cognitiva teve outra trajetória. Seu surgimento se insere num movimento mais amplo, o das chamadas “ciências cognitivas” e pode ser circunscrito a um período particularmente fecundo que vai de 1955 até inicio dos anos 60, que envolve a chamada “revolução cognitiva”, com seu caráter eminentemente interdisciplinar e como “a nova retomada por parte da ciência, das questões filosóficas mais antigas acerca da mente humana, sua natureza, as relações que ela mantêm com o organismo (o cérebro), com outrem e com o mundo.”

Alguns dos fatores desencadeantes do movimento cognitivista foram, por um lado, o fracasso do behaviorismo em explicar os aspectos mais elevados do comportamento humano a partir do paradigma estímulo-resposta e, por outro, pesquisas que reintroduziram no repertório da pesquisa psicológica os termos “mentalistas”, banidos pelo rigor artificial do behaviorismo. Somam-se a isso os trabalhos de Chomsky sobre a linguagem e principalmente o surgimento da modelagem computacional da mente, que só foi possível graças ao movimento cibernético e ao advento da Inteligência Artificial.

Em termos de metodologia de pesquisa, os avanços nas pesquisas em pacientes com lesão cerebral, a retomada do tempo de reação na medida dos processos mentais, e, no campo da epistemologia, as mudanças paradigmáticas levaram alguns cientistas de renome a se unirem em torno desse novo paradigma para a investigação dos fenômenos mentais. O estudo dos processos cognitivos da perspectiva do processamento da informação tem, então, caracterizado a psicologia cognitiva nos últimos 50 anos.

Embora esse novo movimento tenha surgido numa tentativa interdisciplinar de estudar a mente, é preciso lembrar que o enfoque dos eventos mentais foi dado sob a ótica da metodologia experimental em psicologia, que recebeu grande contribuição dos psicólogos que levaram adiante o objetivo de estudar o homem como um processador de informações.
Considerado, então, um arcabouço, uma espécie de “guia” para as pesquisas em psicologia cognitiva, o processamento da informação se constitui numa maneira de focalizar os aspectos mentais, mas de forma alguma é a única maneira. Algumas áreas de pesquisa da psicologia cognitiva são: área ligada à representação da informação na memória, incluindo imagem e memória semântica, bem como a representação do conhecimento lingüístico; área ligada aos modelos de memória estruturados temporalmente, recuperação da informação na memória e níveis de processamento; área ligada à atenção e processamento perceptivo e área ligada à pesquisa em psicolingüística.

Assim, historicamente, houve desenvolvimentos praticamente independentes da TC, por um lado, e da psicologia cognitiva, por outro – muito embora houvesse plena compatibilidade entre conhecimentos construídos em cada um desses dois âmbitos.Em diversos momentos, foi apontada uma carência de integração entre o campo da pesquisa básica (ou seja, pesquisas que visam a construir conhecimentos sobre um objeto de estudo específico, sem quaisquer comprometimentos com áreas aplicadas) e a psicoterapia. Na área da TC são realizadas pesquisas mais voltadas para a prática psicoterápica, enquanto na psicologia cognitiva busca-se estudar a cognição humana em geral, sem compromisso com terapia.

Atualmente, existe um movimento de integração entre psicologia cognitiva e TC, em que se buscam unificar, na prática psicoterápica, refinamentos em termos explicativos acerca do funcionamento cognitivo nos mais diversos transtornos psiquiátricos. Tais sofisticações teóricas - construídas usualmente a partir de pesquisas experimentais - apresentam implicações no que tange a estratégias de intervenção, revelando um importante ganho que se obtém quando há uma prática de psicoterapia com sólidos fundamentos empíricos.
Referências
Juruenal, M.F. (2001). Terapia cognitiva: abordagem para o transtorno afetivo bipolar. Rev. Psic. Clín. 28(6), 322-330.
Pergher, G.K.; Stein, L.M.; Wainer, R. (XXXX). Estudos sobre a memória na depressão: abordagem para o transtorno afeitvo bipolar. Revista de Psiquiatria Clínica.
Rodrigues, C.M.L.; Lopes, E.J. (XXXX) A Psicologia cogntiva no Brasil: um panorama dos anos 90.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

As contribuições da Etologia para a Psicologia

A Etologia é uma ciência recente com origem na Europa por volta de 1930, cujos fundadores são Konrad Lorenz e Nico Tinbergen. Em 1973 os dois receberam o prêmio Nobel de Medicina por suas descobertas e pressupostos para explicar o comportamento animal. Porém, bem antes disso, Darwin foi um etólogo antes mesmo da palavra ter sido inventada. Uma preocupação básica da Etologia é a evolução do comportamento através do processo de seleção natural, e Darwin, em seu livro A origem das Espécies, dedica um capítulo ao instinto, em que formula a hipótese de que “todos os instintos mais complexos e maravilhosos” se originaram através do processo de seleção natural, tendo preservado as variações continuamente acumuladas que são biologicamente vantajosas. Darwin acreditava que não apenas os órgãos evoluíam, mas que aquisições mentais gradativas também ocorriam.


O termo ethos deriva do grego e significa “da natureza da coisa”. A Etologia é a ciência das relações comparadas do comportamento animal, o que inclui também os humanos. Tem como princípio a concepção de que, assim como órgãos e outras estruturas corporais, o comportamento é produto e instrumento do processo de evolução através da seleção natural. Assim, o comportamento é produto da evolução filogenética, pois tem função adaptativa (afeta o sucesso reprodutivo) e possui algum grau de determinação genética. As quatro perguntas básicas dos etólogos, que irão orientá-los em seu trabalho, são: como o comportamento se desenvolve ao longo da vida do indivíduo? (ontogênese)? Qual é a causa? (fatores causais próximos); Como se desenvolveu no decorrer da história evolucionária? (filogênese) e qual o motivo pelo qual teria sido selecionado naturalmente? (causa final). São conhecidas como os quatro “por quês” de Tinbergen.

Por exemplo, o comportamento de mamar em humanos seria analisado sob a perspectiva etológica da seguinte forma: como o comportamento de mamar surge e vai se desenvolvendo no bebê? O que faz o bebê mamar? (Fome, estímulos visuais, olfativos, táteis etc); como o comportamento de mamar se desenvolveu nos mamíferos? E porque esse comportamento teria sido selecionado, qual a vantagem adaptativa que ele traz?


A metodologia da Etologia põe ênfase na observação e na descrição detalhada do comportamento, na situação mais natural possível. Observa-se como o animal vive em seu ambiente.

Qual seria a utilidade de um pensamento biológico, como o da Etologia, para a Psicologia? O objeto da Psicologia, de um modo geral, é o ser humano. E nós, seres humanos, somos seres biológicos e sociais concomitantemente. A integração das perspectivas biológicas e sociais é necessária para compreender o fenômeno humano. Nenhuma das visões (biológica e social), sozinha, é capaz de explicar o ser humano. A teoria da Evolução, utilizada pela Etologia como pressuposto teórico, pode ampliar a compreensão das causas do comportamento humano.


A Psicologia, de modo geral, se foca mais nos estudos de causa próxima, correspondentes aos primeiros dois “por quês” da Etologia. A importância das explicações últimas (evolução filogenética) pode ser útil no estudo do comportamento no sentido de: escolher variáveis independentes para o desenvolvimento de modelos e teorias envolvendo a análise comparativa entre espécies; compreender os fatores do ambiente que podem modular o comportamento; determinar quais variáveis serão consideradas como causa e quais serão consideradas como efeitos; descobrir explicações com grande poder de generalização. Para Eibl Eibesfeldt, o estudo com animais fornece hipóteses para se analisar questões do ser humano como, por exemplo, de que modo os genes e a cultura atuam no homem.

Além disso, o estudo comparado com outros animais é muito rico. Nossa pretensão humana muitas vezes faz com que nos consideremos o ápice da evolução. Vemos as nossas características como únicas e superiores. O estudo do comportamento dos outros animais nos tira dessa posição, pois vemos que não somos tão especiais assim, ou melhor, se somos, todos os animais são. E vemos que muito do que é humano já está presente em muitas outras espécies, o que é material importante para traçarmos as relações entre genética e cultura.

O comportamento de qualquer animal sofre influências ambientais e biológicas. Em se tratando do ser humano, a superação da divisão biológico/cultural é especialmente necessária; pois se deve buscar compreender o comportamento humano na interação complexa de fatores biológicos e culturais. A Etologia tem como pressuposto essa interação, e compreende que qualquer predisposição biológica –comportamental, anatômica, fisiológica, etc- é moldada pelo ambiente-físico e social. Na Etologia, supera-se a dicotomia instinto versus aprendizagem (nature x nurture).

O ser humano apresenta grande capacidade de aprender, contudo essa aprendizagem não ocorre de forma aleatória. As origens do comportamento não estão somente no nascimento ou mesmo durante a vida intra-uterina, mas também durante a nossa história filogenética (estudo do nosso ambiente de adaptação evolucionária). O que somos é resultado de nossas predisposições biológicas, de nossa história individual e cultural. Homens e mulheres apresentam diferentes estratégias em relação ao comportamento reprodutivo. Bebês tendem a prestar atenção em estímulos que apresentam características semelhantes à face humana. São mais sensíveis a sons parecidos com a voz feminina terna. Existem diferenças sexuais no modo de brincar de meninos e meninas e preferências para interagir com parceiros de mesmo sexo já a partir dos três anos de idade. Meninos e meninas tendem também a manter proximidade com adultos de mesmo sexo.


O significado adaptativo dessas predisposições tem importância crucial para se compreender a infância, a relação mãe/pai/bebê, as relações entre homens e mulheres, a sexualidade humana e outros aspectos do comportamento social e de habilidades cognitivas. Além disso, pode-se compreender as predisposições biológicas para o ser humano desenvolver a cultura, pois somos seres “biologicamente culturais”. O estudo de pessoas vivendo em sociedades caçadoras-coletoras (nosso ambiente de adaptação evolucionária) e de primatas não-humanos é importante, pois ajudam o etólogo a compreender as origens biológicas do comportamento humano. Conceitos como a estampagem (imprinting) e período sensível, derivados de estudos com animais, têm sido amplamente usados na discussão sobre as conseqüências do que ocorre ao longo do desenvolvimento infantil na vida adulta e na compreensão do desenvolvimento em si.

A observação e a descrição do comportamento em situações naturais ou semi-naturais de laboratório tem sido a grande contribuição da Etologia em relação a metodologia e estudo empírico do comportamento humano. O objetivo é compreender o comportamento integrado ao seu ambiente evolucionário e atual. No caso da aprendizagem, por exemplo, devemos inserí-la em um contexto ecológico. Devemos perguntar quais são os problemas comportamentais que o indivíduo deve resolver em sua adaptação em seu ambiente e como ele faz uso da aprendizagem para resolvê-lo. Contudo, como qualquer área do conhecimento, a Etologia também apresenta limitações.

Certamente a intenção do etólogo não é reduzir o comportamento humano a explicações de cunho biológico. Contudo, a busca de soluções será mais efetiva e consistente se considerarmos também o nosso passado evolutivo. A interação e o diálogo da Etologia com outras ciências, como Antropologia e Sociologia é importante para que a dimensão do comportamento humano fique mais clara. Os enfoques etológicos, psicológicos e sociais não são excludentes, mas sim complementares. Nós não somos seres exclusivamente biológicos e nem puramente culturais, “temos aptidão natural para desenvolver a cultura e aptidão cultural para desenvolver nossa biologia”.

Referências

BOWLBY, John. Abordagem etológica da pesquisa sobre desenvolvimento infantil. In: Formação e rompimento dos laços afetivos. Cap. II, p. 23-40.

BUSSAB, V. S. H.; Ribeiro, F. J. L. Biologicamente Cultural. Em M. M. P. Rodrigues, L. Souza, & M. F. Q. Freitas (Eds.), Psicologia: reflexões (in)pertinentes. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1998.

Editora Unesp. Os fundamentos da Etologia. Disponível em: http://editoraunesp.com.br/index.php?m=1&codigo=103.

VIEIRA, Mauro L. Contribuições da Etologia para a compreensão do comportamento humano. 2005.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Como lidamos com o sofrimento

Não, não darei 10 dicas de como acabar com o sofrimento. Se você conhece meu blog, sabe que não sou adepta desse tipo de coisa. Quero é pensar um pouco em como temos encarado o sofrimento. Acho que sei como começar. Certa vez estava eu em uma determinada aula, de uma professora X, que disse o seguinte: “Só com o sofrimento é que nós crescemos” e continuou a referida aula sustentando esse discurso.

Trata-se de uma noção corrente, bem popular, eu diria. E que, à primeira vista, não tem nada de errado, e até soa bonito. É algo bem legal de se dizer a alguém que está passando por maus bocados: “pelo menos isso vai te deixar mais forte, vai te fazer crescer...”. A minha primeira pergunta é o que significa ser mais forte e crescer. Já vimos em postagem anterior que um bom jeito de não se dizer nada ou de ludibriar alguém é não definir bem os termos, usar conceitos vagos. Vou tentar uma definição: vou considerar que ser mais forte e crescer é ter mais experiência de vida, saber lidar com mais situações, ter bagagem para enfrentar mais acontecimentos.

Se for esse o caso, porque só o sofrimento me permitiria isso? Não aprendemos também com a alegria? Com a raiva? Com o amor? Com a paixão? Com o medo? Com a ansiedade? Com a felicidade? Enfim, com toda a gama de emoções e sentimentos humanos?

Essa idéia de que só o sofrimento nos leva a crescer, para mim, tem duas raízes. Uma delas está em nossa própria psique ou mente, que são mecanismos de defesa e de diminuição de dissonância cognitiva. Vou explicar. Imagine uma mãe cujo filho é brutalmente assassinado pela violência urbana. Essa mãe sofre. Para acalmar a si mesma ou para os outros a acalmarem, seria bom pensar que pelo menos esse sofrimento vai levar a alguma coisa, vai me deixar mais forte, vai me fazer crescer. A situação é tão desoladora que temos que achar algo de bom nela, daí falamos que sofrer tem uma grande utilidade.

A segunda raiz está nas religiões. Achar um porque para as coisas é uma especialidade das crenças religiosas. Por que nós, perfeitos cristãos, sofremos tanto? Deve ter um porque, claro, se não seria injusto (e o mundo não é nada injusto para as religiões). Claro que, como Deus pensa em tudo e nada é por acaso, o sofrimento por qual você está passando é uma provação. Vai te fazer ser ainda mais religioso, vai te fazer prestar mais atenção em seus pecados, assim, vai te fazer bem. “Paulo afirma que o sofrimento é um meio que Deus usa para aperfeiçoar o caráter dos cristãos”; “Quando você estiver sofrendo pelas mais variadas razões, lembre-se de que você não é um desafortunado, mas um amado de Deus. Os sofrimentos pelos quais você tem passado são maneiras belamente estranhas de Deus fazer bem à sua vida”; “É Deus que nos capacita para confortar no sofrimento de outros – O sofrimento é uma excelente escola, onde aprendemos a consolar e confortar as pessoas da mesma maneira como Deus o faz” (trechos pegos em sites religiosos).

Quem fica feliz com essa bobagem toda são líderes políticos, afinal, para quê se revoltar contra a pobreza, miséria, violência, desigualdade social, se tudo está aí porque tem um motivo? Você que está passando fome, cujo filho morreu assassinado, que leva três horas para chegar ao seu local de trabalho, cuja casa foi levada pela enchente, cujo salário é roubado em forma de impostos, não se revolte, afinal seu sofrimento te faz bem. E nada é por acaso, tudo é destino. Logo, se você está tendo que enfrentar isso, é porque mereceu, seja nessa vida ou na outra você fez muita besteira e agora deve pagar por isso. Com seu sofrimento, você vai crescer, aprender, e se livrar do karma, dívida ou algo que o valha, e receber sua merecida recompensa depois da morte (porque em vida, nem pense!).

E como esse discurso fraco, mas ao mesmo tempo sedutor tem nos enganado...

Voltemos ao exemplo da mãe cujo filho foi brutalmente assassinado. Sim, eu até acho que pode ser importante ela pensar que o sofrimento a fará crescer, afinal, é mais uma experiência de vida, por terrível que seja, e pensar assim pode confortá-la por um momento. O que eu discordo totalmente é de que o filho dela tinha que morrer para ela crescer, ou que ele veio para isso (sua missão na Terra), e que ela considere que só o sofrimento a levará ao tal crescimento. Não, eu não acho que ninguém se torna melhor por ter seu filho assassinado ou por sofrer o diabo na vida. Essa é uma maneira de pensar que nos ajuda a lidar com as injustiças, dando sentido a elas. Porém isso faz com que a realidade seja distorcida. O fato é que o filho dela foi assassinado e isso não tinha que acontecer!
Ele foi assassinado porque existem pessoas muito ruins, porque falta policiamento, porque nosso país tem uma desigualdade social avalassaladora que permite que o crime floresça etc e etc. Dizer que tinha que acontecer é se enganar e se dopar frente a realidade. Ontem mesmo quando via televisão escutei um entrevistado dizer: “A menina (que foi jogada do sexto andar de um prédio e morreu) veio para nos dar a lição do amor”. Essa pessoa vive no mundo da fantasia e dos duendes felizes – porque no meu mundo, a menina foi vítima de uma grande maldade, que poderia e não deveria ter ocorrido.

Discordando do que “só o sofrimento nos faz crescer” não quero cair para o lado oposto de que nunca deveríamos sofrer. Até porque a venda de antidepressivos tem estourado e os psiquiatras os receitam até para unha encravada. Todas as experiências humanas são válidas, evitar o sofrimento a qualquer custo pode não ser nada bom, ele faz parte de um processo humano, como no luto, por exemplo. Eu só não acho que precisemos sofrer para crescer. Até porque essa idéia levada ao extremo faria com que ficássemos jejuando, nos batendo com instrumentos dolorosos, pensando repetidamente das desgraças da vida.... hum, isso não me é tão estranho...
Um apoio da neurociência para essa discussão:
" Prazer faz bem - Temos no cérebro uma estrutura de cerca de 1 cm de diâmetro chamada de Núcleo Accumbens, com poderes particularmente interessantes: ela nos permite sentir prazer. Quanto mais intensa for a sua ativação, maior é a sensação alcançada, que vai da leve sensação à franca euforia. Ativar esse processo é algo simples e ao nosso alcance, que podemos fazer várias vezes ao dia. Basta fazer algo que o cérebro considere que deu certo: resolver mentalmente um problema, concluir um trabalho, passar de fase no video game, beijar pessoas amadas, comer algo que gostamos ou ouvir boa música. Ao reconhecer que fomos bem sucedidos em algo, que atendemos às expectativas, ou admitimos que somos interessantes por alguma razão, o córtex cerebral providencia uma dose de dopamina para o núcleo accumbens, quanto mais o núcleo recebe esse neurotransmissor, mais prazer nos proporciona. Os mecanismos que promovem essa sensação, porém, ainda são um mistério para a ciência. Este prazer com o que fazemos corretamente - proporcionado pelo accumbens e estruturas associadas a ele, que formam o sistema de recompensa do cérebro - é a base neurológica da satisfação e a auto-estima. A motivação, que nos impulsiona às mais diversas realizações, quando o sistema de recompensa é precocemente ativado, antevemos um resultado positivo. O otimismo funciona de maneira semelhante: ter atitude e expectativas positivas em relação à vida, favorece a ativação antecipada do sistema de recompensa, aumenta a satisfação com os feitos alcançados, suas chances de fazer algo dar certo, faz você lidar melhor com situações negativas e até melhora a resistência a doenças."
Fonte: revista Mente & Cérebro, setembro de 2008. "De bem com seu cérebro", por Suzana Herculano.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Não temos direito ao conceito, só ao preconceito

Preconceito: pré-conceito, juízo preconcebido, conceito formado antecipadamente.

Tenha reparado que a palavra preconceito está na moda. Praticamente tudo é preconceito. Agora não temos mais direito ao conceito, só ao pré-conceito. Vou dar um exemplo da psicologia, porque é minha área. Ouvi alguém fazendo um comentário sobre o behaviorismo, dizendo que sente horror ao ler os textos dessa linha, porque acha que são muito frios, considerando que o ser humano funciona como um robô. A outra pessoa então retrucou: Mas que preconceito! Tem muito preconceito com o behaviorismo!

E assim temos considerado várias outras coisas: se não gostamos de algo, logo, a atitude é preconceituosa. Essa classificação generalizada pressupõe um absurdo: que, se realmente conhecêssemos aquilo (e assim sairíamos do preconceito e chegaríamos ao conceito) gostaríamos daquilo. Ou seja, temos que gostar e aceitar tudo, porque do contrário, é preconceito.

E quando teremos direito a não gostar ou aceitar algo mesmo conhecendo bem o assunto, ou a coisa? Quem disse que aquela pessoa que falou que não gosta do behaviorismo, não o conhece direito? E se conhecer? Não terá direito de achar que os textos são muito frios, considerando o ser humano um robô? Será que a pessoa não tem direito a uma interpretação dela mesma?

Outro absurdo do não direito ao conceito é a pressuposição de que todo mundo é igual. Se aquela pessoa realmente conhecesse o behaviorismo, gostaria dele. Se aquela pessoa conhecesse de verdade a psicanálise, gostaria dela. Porque se o indivíduo não tem direito a criticar o behaviorismo ou a psicanálise, já que seria enquadrado em preconceito, ele não tem individualidade, não tem opinião própria, é só um desinformado que ainda está na fase do juízo preconcebido.

Nesse mundo em que a palavra preconceito ganhou alto status, em que você reconhecê-lo em você mesmo ou nos outros é atitude politicamente correta, temos usado o termo muito mal. Claro que não estou propondo o abandono do termo, coisa impossível e sem sentido. Há preconceito, ele existe e deve ser combatido em muitos casos (exemplos: preconceitos racial, de classe social, de gênero etc). O que proponho é que o uso da palavra em toda e qualquer situação também seja combatido, até para a palavra não se tornar tão banal que já não signifique mais nada.