domingo, 15 de julho de 2012

Dica: WP - Centro de Psicoterapia Cognitivo-Comportamental

A pedido da coordenação do Instituto WP, divulgo algumas infomações sobre  o local e os cursos. O Insituto WP tem mais de 30 anos de tradição na abordagem da Terapia Cognitiva-Comportamental, ofercendo cursos de especialização, aperfeiçoamento e formação, além de promover eventos como simpósios e jornadas que tratam do assunto. As sedes concentram-se no Rio Grande do Sul, no entanto, ministram cursos em diversas cidades do Brasil, como São Paulo e Salvador.


Para o segundo semestre de 2012, há dois cursos e um grande evento:


Curso de aperfeiçoamento em terapias cognitivo-comportamentais
Duração: um ano e meio
Início: Agosto de 2012
Local: Santa Maria - RS


Jornada WP

Título do evento: O Impacto da Terapia Cognitiva na promoçao da Saúde Mental
Datas do evento: 26 e 27 de outubro de 2012
Local de realização do evento: Hotel Itaimbé, Santa Maria/RS
Maiores Informações: http://www.jornadawp.com.br/


Curso de Especialização em Psicoterapia Cognitivo-Comportamental em Salvador - BA
Curso voltado estudantes de psicologia que estejam no último ano da graduação; residentes de psiquiatria e profissionais psicólogos e psiquiatras já formados.
Data de início do curso: 17 de agosto.
Duração: 4 semestres. As aulas acompanham o calendário acadêmico.

Fica aí a dica, e para maiores informações acesse o site do instituto.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Entrevista com Cris Monteiro

Entrevistei Cristina Monteiro, principalmente porque quando a conheci me surpreendi por quanta experiência ela tinha na área da psicologia, e pela diversidades de trabalhos que ela realizou. Logo pensei que era uma pessoa interessante para eu entrevistar para o CientíficaMente, que trata também das possibilidades de carreira na psicologia. Um breve resumo sobre ela, e abaixo, a entrevista.

Cristina Fonseco Monteiro se formou em psicologia em 2007 (PUC), e fez pós-graduação em psicopedagogia clínica pelo Instituto Sedes Sapientiae. Desde 2008 ministra palestras sobre vários temas, e é instrutora empresarial desde 2010. Em 2011 lançou um livro de crônicas junto com outros autores.


       CientíficaMenteCris, por que você escolheu fazer Psicologia?

Sempre tive interesse em ajudar as pessoas, assim como sempre precisei de bastante ajuda para lidar com diversas situações da vida. Aos treze anos, passei por um momento bastante turbulento na vida, quando me mudei para o Colégio Palmares que tem um regime rígido, em que fui submetida por muito tempo a bullying, além de muito stress e medo de não conseguir dar conta daquela missão. À base de vários auxílios – das amigas, da família, de professores, de professores particulares e de uma psicóloga do colégio – consegui vencer o pavor de estar ali e ainda permanecer até o final do Ensino Médio. Desde então, escolhi fazer Psicologia para ajudar as pessoas a viverem melhor e a superar seus medos.

       CientíficaMente - Onde fez o curso, e o que achou dele?

Fiz Psicologia na PUC-SP e gostei muito. Achei que o curso me ajudou a voltar a sonhar, a perceber que eu poderia olhar mais para dentro de mim e me compreender. Desde o primeiro ano fiz terapia, depois análise e não parei mais. Conheci pessoas que têm o meu estilo de ser e pensar, que têm profundidade, característico das pessoas que cursam Psicologia. Isso valeu muito a pena.

       CientíficaMente - Quando estava na graduação, fez algum estágio, algo prático? Como foi?

Fiz muitos estágios em diversas áreas, notadamente sociais, até porque a graduação exige isso. Foi importante poder ir para a prática e ver que eu podia existir para além dos muros da universidade. Fui criada com muita proteção e ali foram os primeiros ensaios para apalpar a realidade. Não foi uma tarefa fácil. Tive que quebrar uma bolha e me refazer novamente. Com muita ajuda, paciência e perseverança, praticamente nasci de novo e hoje estou mais forte.

      CientíficaMente - Depois que se formou, o que fez?

Fui cursar Psicopedagogia, pois sabia que a clínica psicológica não era fácil. Acreditava que se eu entrasse em uma escola, poderia ter um respaldo institucional e não estar totalmente sozinha. Trabalhei como voluntária para projetos de ação social em abrigos (em São Paulo e em SBC), em escola especial (Colégio Winnicott), em uma clínica-empresa (atendendo particular e convênios saúde), em hospital com atuação com grupos de apoio em Psicodrama (Ipq-HC-USP), ministrei palestras para estudos em um cursinho preparatório para concursos públicos (Pró-Concurso Educacional), buscando ser uma coaching do estudo, ministrei treinamentos sobre Trabalho em Equipe na Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo (em São Paulo e Campinas) e outros tantos para algumas consultorias (como a MultiMeta Treinamentos). Cogitei fazer mestrado em Psicologia Social na USP, onde assisti a algumas aulas e conheci algumas pessoas.
No entanto, após passar por um processo de coaching, pude acreditar no meu desejo e na minha capacidade de entrar em uma empresa e efetivamente ganhar dinheiro. Atualmente atuo no LAB SSJ, uma consultoria de aprendizagem corporativa, e me realizo por utilizar a escrita e a orientação para a aprendizagem, assim como me desenvolver no trabalho em equipe.

        CientíficaMente - Você clinicou? Como era?

Atuei em clínica e no hospital. Por um lado, foi bastante realizador poder ajudar as pessoas. No entanto, a Psicologia Clínica é para aqueles que têm paciência com o tempo de formação da clínica, tanto em termos financeiros, quanto em termos do quanto você precisa estar preparado para não se misturar com o paciente e ter técnicas e métodos eficientes que lhe forneçam o suporte necessário para lidar com o dia a dia desse tipo de trabalho. Além disso, o trabalho precisa ser reconhecido, o que não acontece diante dos convênios-saúde e das clínicas de convênio que desestimulam o terapeuta e atravancam o bom desenvolvimento do processo terapêutico, em relação ao lado financeiro e ao modo como o processo terapêutico é visto (limitação de sessões, atrelado a um diagnóstico médico).

          CientíficaMente - O que você faz hoje? Gosta do que faz?

Gosto bastante do fato de ter um emprego registrado em carteira, ter um salário e me sentir mais pertencente a um mundo real. Gosto da questão temporal: ter que ficar 8 horas por dia trabalhando num mesmo lugar, com as mesmas pessoas, em equipe. Isso me dá estrutura e me dá o chão que eu precisava e ainda preciso. Além disso, o trabalho que realizo é criativo, dinâmico, lida com os recursos de aprendizagem nossos e daqueles que receberão treinamentos e isso me mostrou que podemos nos desenvolver buscando o desenvolvimento pelo incentivo àquilo que motiva e não apenas no processo de cura atrelada à dor. Isso descola o psicólogo daquele papel de “curador psíquico” e o coloca num lugar mais popular, fato que também me deixou mais confortável. Mas um dia ainda quero voltar a poder atuar nesse papel, mais próximo de desenvolver outras pessoas.

     CientíficaMente - O que pensa da sua trajetória na psicologia?

Por um lado, é complicado ter um currículo tão variado, porque aparenta que eu não sabia onde queria chegar. Por outro, sei também da minha diversidade de interesses, das dificuldades que enfrentei, das lutas que eu venci. Sinto que a Psicologia é algo praticamente intrínseco a mim: desde pequena incansavelmente mergulhei na minha subjetividade e minha lente de enxergar o mundo foi esta. Isso me traz bônus e ônus. E apesar de ir para lá e para cá, garanto que meu foco é um só: o ser humano.

CientíficaMente - O que pensa da área da Psicologia em geral, sobre o mercado de trabalho, as possibilidades de atuação? Como era antigamente e como está hoje?

A Psicologia é o mundo dos sonhos. A realidade é bem diferente. Acredito que a Psicologia deveria ser difundida de um jeito que arrancasse os preconceitos e aquilo que é vendido como Psicologia e não é. As pessoas ainda têm uma ideia muito irreal da Psicologia: ou você é um santo ou é o demônio... Ou ainda é alguém que vai falar de mim o que eu já sei, então para que pagar? Mas o importante é perceber que não dá para estudarmos as coisas e as situações como algo à parte ao ser humano: aquilo que estudamos veio de alguém e vai para alguém. A transferência é um fenômeno fortíssimo em nossas vidas. E o papel da Psicologia é nos possibilitar uma maior expansão da consciência, para esclarecer nossas ideias, refinar nossas escolhas, ao percebermos melhor a nós mesmos e aos outros. Enfim, dar aos nossos olhos, novas lentes que nos mostrem outras possibilidades.

Gostaria de agradecer novamente a Cris pela disposição em ser entrevistada.


domingo, 20 de maio de 2012

Educação na prática


Hoje vou falar sobre educação, um assunto do qual gosto bastante. É praticamente  consenso que a educação é importante, que muda as pessoas, que as ajuda a se desenvolver, a ter uma vida melhor, é algo que em geral se busca. Porém, as variadas teorias nessa área divergem em vários aspectos: como alguém pode aprender melhor, o que deveríamos aprender, o que se pode aprender, como lidar com as diferenças individuais, todos podem aprender?, enfim, essas são algumas das questões que linhas teóricas costumam dar respostas variadas.

                Nessa complexidade da área da educação há muito desentendimento, conflitos e confrontos. No meio disso, encontrei um livro muito interessante, que gostaria de comentar. O título me atraiu porque eu estava em busca de algo para me auxiliar na minha prática como professora. “Aula nota 10”, de Doug Lemov, me atraiu. O título era bastante simples, porém ao folhear o livro percebi que a forma simples pela qual foi escrito continha uma profundidade que outros livros concorrentes não possuíam.

                Lemov partiu de uma visão prática e utilitarista: o que os bons professores têm de diferente? O que eles fazem em sala de aula que os outros não fazem? Simples. Ele filmou as aulas de professores considerados acima da média em escolas de bairros pobres nos Estados Unidos. Da análise da filmagem, definiu 49 técnicas que podem ser utilizadas para tornar uma aula exemplar. No livro ele explica de forma compreensível e didática as técnicas, e na versão brasileira três professoras de escolas públicas ajudaram na adaptação. O público-alvo dessa edição brasileira são os professores de escola pública, do que não discordo, porém eu, como professora autônoma de inglês, pude aproveitar muito do que foi exposto. Por isso penso que o livro tenha serventia para qualquer pessoa que ministre aulas.

                Lemov acredita que dar aula é uma arte, e que como tal, pode e deve ser aprimorada. Ser um bom professor não é um dom, intuição ou inspiração, depende de esforço, trabalho, planejamento, aprimoramento. E ele quer prover ferramentas para que essa arte seja aprimorada, com técnicas concretas, em vez de conhecimentos teóricos que não permitem aplicação clara e precisa no cotidiano escolar. Por exemplo, “espere o máximo dos alunos todos os dias”, “construa o conhecimento”, “ensine crianças, não conteúdo” parecem ser ótimas frases para guiar um professor, porém nada falam sobre como fazer isso. O autor foi atrás de atitudes aplicáveis, específicas e concretas, que realmente faziam a diferença nas escolas de periferia e permitiam que os alunos mais pobres tivessem um desempenho como o de alunos de escolas ricas.

                Ele chama justamente de técnicas por serem específicas. Estratégias, diz ele, são boas, mas não te levam a onde você quer. Por exemplo, em uma corrida a sua estratégia pode ser correr o mais rápido possível, porém as técnicas são, por exemplo, inclinar o corpo para a frente. É a técnica que te faz correr mais rápido, e não a estratégia, e o mesmo na educação: são as técnicas que fazem os bons professores, e não as estratégias como “dar uma boa aula”. Por isso, o autor se preocupa com o que funciona, o que faz diferença para o aprendizado, e não quais técnicas estão de acordo com certas teorias, ou quais são glamourosas ou politicamente corretas.

                Vou expor apenas algumas das ideias e técnicas de Lemov, resumidamente. Destaco a ideia de que os bons professores examinam as respostas erradas que os alunos deram para entender como eles pensam, e assim planejar ações para evitar esses erros de modo mais eficaz.  Procuram utilizar o tempo de modo eficaz em sala de aula, e planejam como o tempo será usado cuidadosamente, como se fosse (e é!) o recurso mais escasso e importante na sala de aula. O autor vai na contramão de vária teorias e diz que existem respostas mais certas do que outras, e que o professor deve conduzir o aluno, de maneira intencional e planejada.

                Várias linhas teóricas propõem que se tenha altas expectativas quanto aos alunos, para buscar uma profecia autorrealizada. Mas como fazer isso? Lemov oferece algumas técnicas, dentre elas a “Sem escapatória”, que consiste no fato de que o aluno não tentar responder é inaceitável. Quando o professor perguntar e o aluno não souber a resposta ou responder errado, ele pode utilizar várias maneiras de propiciar a resposta certa (pode perguntar a outro aluno, pode dar algumas dicas etc.), mas o importante é sempre voltar nesse aluno e perguntar de novo, até que ele responda o certo, mesmo que o próprio professor já tenha dado a resposta. Isso é importante para mostrar que o aluno terá que responder de qualquer maneira, que “sei lá” não é uma fórmula mágica para escapar do trabalho, e que ele é capaz de falar a resposta correta.

                Outra técnica interessante é a “Boa expressão”, em que o professor não aceita uma resposta certa, porém mal formulada, ele exige a frase completa (“Seis”. Frase completa “Há seis maçãs na cesta”.) O professor foca não apenas no conteúdo, mas na forma como esse conteúdo é exposto, de modo a melhorar a expressão dos alunos, o vocabulário, o uso da norma culta da língua. A técnica “De surpresa” garante que todos os alunos tenham expectativa de serem chamados para responder em voz alta, desse modo todos se preparam mentalmente para responder antes.  O professor tem que mostrar que pode verificar o nível de conhecimento de qualquer aluno a qualquer momento, assim todos têm que estar atentos e participando ativamente. Longe de ser uma atividade punitiva e estressante, ela mostra o que os alunos têm que fazer em sala de aula: estar nela, atentos, motivados, engajados.

                O autor chama a atenção para o fato de que os professores normalmente estão preocupados em ensinar conteúdo, mas não os hábitos e processos necessários para ser um aluno bem sucedido.  Ensinar disciplina requer planejamento, e a consciência de que os alunos não nasceram sabendo o que é ser um bom aluno, e que as vezes se comportam mal simplesmente por não saber o que fazer. Comumente se pune o aluno que se comporta mal, porém isso não é suficiente para mostrar o que um bom aluno deveria ter feito. O controle dos alunos reflete respeito, firmeza e confiança dos professores, e deve ser feito de maneira específica, por exemplo “acalmem-se” é uma maneira vaga de se expressar, melhor seria “por favor, voltem a seus lugares e comecem a escrever em seus cadernos”.

                Enfim, não há espaço para fazer um bom resumo de todas as técnicas, minha intenção era apresentar o livro e chamar a atenção para algo que falta em nossos professores: a atenção à técnica, ao aprimoramento do “como fazer”, em vez de se concentrar em teorias que são pouco práticas e mudam muito pouco a qualidade do ensino. Não que as teorias não tenham valor algum, pelo contrário, elas são importantes, porém as técnicas são o meio pelo qual o professor vai agir, e isso vai determinar seus resultados.
                Fica a dica desse livro, que preenche uma lacuna na educação: a de falta de técnicas de ensino. Um vídeo com o autor: http://www.youtube.com/watch?v=z3sFe0c7jns

                Lemov, D. Aula nota 10. Fundação Lemann. 3ª edição.2011.
                

domingo, 15 de abril de 2012

Resenha – A cientista que curou seu próprio cérebro

Este livro e sua autora ficaram muito famosos; ele foi um sucesso de vendas e ela, Jill Bolte Taylor, foi considerada uma das 100 pessoas mais influentes do mundo em 2008. No original, o título é “My stroke of insight: a brain scientist´s personal journey”. Em português, houve um apelo maior de propaganda, e o subtítulo é “O relato da neurocientista que viu a morte de perto, reprogramou sua mente e ensina o que você também pode fazer”.

                A história, por si só, é bastante atraente. Uma neurocientista que foi vítima de um derrame aos 37 anos, que prejudicou grande parte do seu hemisfério cerebral esquerdo, incluindo a área da linguagem, e que ao longo dos anos conseguiu se recuperar plenamente. Sua visão sobre o que aconteceu, incluindo o dia do derrame e a sua recuperação, são bastante únicos por ser uma especialista no assunto.

                Logo na Introdução a autora recomenda que se leia primeiro os capítulos 19 e 20, com lições básicas sobre as funções cerebrais, para que seu relato seja mais compreendido pelo público leigo. Como ela mesma previu, grande parte das pessoas não consegue fazer isso e já começa a ler a história, e não fiz diferente, até porque já tenho conhecimentos básico em neurociências.

                Os três primeiros capítulos, sobre a vida dela antes do derrame, o dia do derrame e o pedido de socorro são muito envolventes. Fui sugada pelo relato e me envolvi com a história, ficando bastante apreensiva ao longo da leitura. Creio que alguém que tenha algum conhecido que sofreu um derrame vá se identificar bastante com a história narrada por Jill.

                A intensidade da empolgação dos primeiros capítulos não continuou nos outros, pelo menos para mim. Considero que a autora tenha narrado sua recuperação de um modo confuso, o que não permite o acompanhamento linear e progressivo; fica difícil saber que parte que ela recuperou primeiro e como, e quais depois. Enfim, ela misturou muitos momentos, é possível que para ela a descrição e ordem dos eventos estivesse clara, mas para o leitor não. Talvez para que a parte da recuperação fosse melhor compreendida, um livro bem maior fosse necessário.

                O livro é voltado para o grande público, no sentido de auto-ajuda, e não focado na autobiografia. Com o propósito de vender mais, cortou partes muito interessantes, pelo menos para mim, mas que talvez não fosse cativar muita gente. Por isso, acabou passando muito rapidamente pela parte da recuperação, e gastou muitas páginas para falar como uma pessoa comum pode ser mais hemisfério direito do cérebro (mais criativo, despreocupado, feliz etc.) do que hemisfério esquerdo (mais centrado, focado em detalhes, objetivo etc.).

                Mesmo no sentido de autoajuda, creio que o livro é fraco. As dicas que da autora para darmos mais espaço para o hemisfério direito em nossas vidas são senso-comum: meditar, rezar, cantar, sorrir, não julgar os outros, aproveitar o tempo presente, perdoar, ter compaixão... O marketing do livro é falar coisas óbvias, que todos sabem, pela boca de uma neurocientista. Como neurociência virou a nova febre, e parece conter toda a verdade das coisas, o livro parece trazer grandes revelações - o que não corresponde ao que li.

                Nos últimos capítulos, me reconciliei um pouco com o livro. A autora fala de neurociência, do funcionamento do cérebro, em palavras simples, fáceis de serem compreendidas, enfim, informações bem básicas mas interessante para leigos. Gostei mais das dicas que ofereceu sobre como lidar com uma pessoa em recuperação de um derrame, para uma família que esteja com um ente nessa situação, considero leitura essencial, e embora pudesse ser muito mais completa, é melhor do que nada.

                O livro não é ruim, mas para mim foi fraco pela falta de foco em um público específico. Tentou mirar em público geral para aumentar as vendas, nisso acabou ficando muito simples para pessoas que querem saber mais sobre derrame, e muito senso comum para os que estavam atrás da autoajuda. Creio que se a autora tivesse focado em sua autobiografia, com mais detalhes de sua recuperação, seria muito mais rico em informações. Porém, nesse caso, atrairia um público menor, possivelmente de pessoas que querem saber mais sobre derrames (próprios pacientes, familiares, amigos).

                De qualquer forma, como fiz psicologia e tenho conhecimento sobre neurociência, talvez para mim o livro tenha soado superficial, mas não para um leigo no assunto. Achei o subtítulo completamente apelativo, não vi nada sobre como “reprogramar” a mente, sem ser o que todos já sabem por conhecimento popular. Acho que a autora também peca em exagerar na neurociência, como se falar toda hora em neurônios, sinapses, hemisférios cerebrais provesse legitimidade a todas as experiências humanas. Mas essa é outra discussão.

                Taylor, J.B. (2008). A cientista que curou seu próprio cérebro. Ediouro. 223 páginas. 

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Dica: cursos gratuitos online na FGV

Não sei se eu estou atrasada ou se é novidade mesmo, mas só por esses dias encontrei essa possibilidade de cursos à distância no site da FGV. Achei muito bom e queria repassar.

Alguns são gratuitos, mais simples e com poucas horas, sem certificado. Outros são mais complexos e com maior carga horária, pagos e com certificado. De qualquer forma há opções, e é muito interessante que sejam realizados online, o que facilita a vida de todo mundo, principalmente em cidades grandes cujo deslocamento toma um tempo enorme.

Alguns exemplos de cursos gratuitos são: Como organizar o orçamento familiar, Como fazer investimentos, Como planejar a aposentadoria, Ciência e tecnologia, Ética empresarial, Filosofia, Argumentação Jurídica etc. São diversas as áreas e os assuntos. Mais para a psicologia, há Recursos humanos, Motivação nas organizações, Contratação de trabalhadores etc. Trata-se mais da área de Recursos Humanos, já que a FGV é uma instituição voltada para os negócios.

Os cursos pagos também são interessantes, embora exijam maior investimento de tempo (além do investimento financeiro). No site, você pode optar entre cursos à distância (EAD) de atualização, de graduação, pós-graduação e soluções corporativas. Na área da psicologia, novamente a ênfase é em Recursos Humanos.

Encontrei um curso pago muito interessante, que se chama Docência, voltado para os profissionais que querem dar aulas no ensino superior. As matérias são Metodologia de Ensino Superior e Metodologia de pesquisa, cumpridas em aproximadamente quatro meses. Pode ser um complemento interessante para os professores. Os preços variam bastante, esse por exemplo custa R$ 2.100.

Existem datas específicas de início dos cursos mais longos, por isso tem-se que ficar atento no site. Há uma ferramenta ótima que é "Avise-me se as inscrições estiverem para encerrar", e ajuda a não perdermos os prazos.

Bom, não sei afirmar com precisão qual é o efeito desses cursos no currículo. Sei que o ensino à distância tem se tornado cada vez mais comum, portanto uma tendência. Creio que se não forem grandes diferenciais no currículo, podem ser pequenos diferenciais na atuação profissional, e afinal são os vários pequenos diferenciais que fazem cada profissional único.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Anjo x Diabo

A cena é conhecida:  de um lado, há um anjinho soprando coisas boas no nosso ouvido, e do outro, um diabinho incitando maldades. O anjo representa nossos desejos considerados bons, por exemplo, estudar, trabalhar, evitar beber álcool, não comer demais, se exercitar etc. E o diabo, nossa vontade de fazer tudo o contrário: ser preguiçoso, beber, comer muito, ser sedentário e mais uma lista longa de tentações...

                A psicanálise nomeou e caracterizou essas duas figuras dentro da teoria psicodinâmica: o super ego é bem próximo do anjo, e o id, do diabo. O super ego, ou anjo, é a instância controladora, nossos pais internalizados, que busca por perfeição e que pune o indivíduo com culpa por seu mau comportamento. O id, nosso diabinho interno, funciona pelo princípio do prazer, quer suprir nossas necessidades básicas, sem se importar com as regras sociais.

                Outro modo de nomear essas figuras é chamar o anjo de pai e o diabo de filho, em que o pai é o responsável, a autoridade, e o filho é o inconseqüente, indomável. Aliás, nas religiões monoteístas, é comum chamar Deus de pai, outra forma de definir essa entidade de controle.

Todas essas são formas de visualizar e entender a questão da seguinte situação do ser humano: a de querer coisas boas e ruins ao mesmo tempo, e a de desenvolver mecanismos de autocontrole para nos prevenir de abandonarmos as coisas boas e irmos para as ruins. Algumas vezes pode parecer que temos duas pessoas dentro da gente, e elas querem coisas opostas, e nós temos que calar uma delas. Para isso, desenvolvemos formas de autocontrole. Algumas formas práticas de autocontrole incluem deixar o cartão de crédito em casa (para não correr o risco de gastar em supérfluos e poupar dinheiro), não comprar guloseimas (para que quando a fome bata à noite, não tenhamos acesso fácil a elas), ir estudar em uma biblioteca (longe do computador, onde a Internet pode ser uma distração), colocar o alarme para despertar novamente cinco minutos depois (para reforçar que temos que levantar) etc. Mas, afinal, queremos ou não queremos comer as guloseimas? Porque se desenvolvemos um modo de controle para não comê-las, significa que não queremos comer, mas se temos que fazer um método de controle, é porque queremos comer.

                Outro olhar sobre essa questão foi dado por Ainslie (1975, 1992, citado em Baron, 2008), e é muito interessante. Ele sugeriu olharmos para essa contradição humana, a de querer algo e ao mesmo tempo não querer, de uma forma diferente. Em vez de entendermos o conflito como sendo o de duas pessoas diferentes dentro da gente (anjo e diabo, pai e filho, super ego e id etc.), ele pode ser explicado como as preferências da mesma pessoa em diferentes tempos. Ou seja, ele acrescentou a dimensão do tempo à questão, elucidando a aparente contradição.

                O exemplo dado pelo autor foi o seguinte, imagine um homem que tem muitas latas de cerveja na geladeira. De manhã, ele decide que naquela noite tomará três latas, o suficiente para não ter uma ressaca no dia seguinte. À noite, quando começa a beber, percebe que talvez valha a pena tomar a quarta ou a quinta lata.  Quanto mais perto da tentação, mais fácil é de se abandonar o plano inicial, quando a tentação estava longe. Portanto, temos o conflito entre a mesma pessoa em dois tempos: no tempo 1, o da manhã, em que ele não estava sujeito à tentação e raciocinou que enfrentar uma ressaca no dia seguinte não seria bom, e no tempo 2, em que já muito perto da tentação abandonou os planos de autocontrole. Enfim, o conflito é entre dois, mas entre dois “selves”: o do presente, e o do passado, ou entre o do presente e o do futuro.

                Em nossa rotina, temos essa noção intuitiva de que temos que tomar as decisões enquanto ainda estamos longe da tentação, porque uma vez que experimentamos dela, é difícil parar. Assim, é melhor desenvolvermos mecanismos de autocontrole quando estamos  longe das tentações, e de preferência mecanismos eficazes, que não permitam que uma vez perto das tentações abadonemos o plano inicial. No caso do homem do exemplo, ele poderia ter comprado apenas três latas, o que dificultaria o acesso a mais álcool, ou poderia ter pedido a alguém que o parasse caso ele quisesse beber mais.

                Na verdade, vejo essa questão como um tríplice embate, o dos selves do passado, presente e futuro. Se pegarmos o momento presente como a hora em que ele está bebendo a quarta lata de cerveja, o passado seria a manhã em que ele havia decidido tomar apenas três, e o futuro, a manhã seguinte em que ele estará de ressaca. O conflito é que o self do passado estava pensando mais nele mesmo através do self do futuro, algo como “quero continuar saudável como estou agora amanhã de manhã, portanto....”. Já o self do presente está pensando mais nele mesmo do que no do passado e no do futuro, já que a tentação está perto demais e o prazer está vencendo. No dia seguinte, o self do futuro estará arrependido, e pensando mais nele mesmo, já que tem que agüentar as más conseqüências da farra, e acreditando que deveria ter seguido o self do passado, que era mais parecido com ele (longe da tentação), do que o do presente (perto da tentação). Caramba! Que confusão!

                Acho que para resumir, gostamos de satisfazer o self do momento presente, porque temos dificuldade de visualizar que o self do passado tinha conhecimento e sabia o que estava fazendo quando decidiu aquilo, e isso porque o self do futuro é o que vai aguentar as conseqüências. Parece que não entendemos que o self do futuro vai chegar sim, e que ele será o do presente em breve, e nós mesmos teremos que arcar com os resultados da farra do presente. É um conflito entre nós mesmos em diferentes tempos!

                Bom, essa é uma questão para lá de complexa, certamente será tema de outros posts.

Referência
Baron, J. (2008) Thinking and Deciding. Cambridge press.