Todos conhecem o velho debate evolucionismo x criacionismo, que ainda tem rendido embates, o mais conhecido deles é a tentativa de se eliminar o ensino da evolução nas escolas, ou de, pelo menos, que as duas supostas “teorias” tenham o mesmo tempo de dedicação nas salas de aula.
Sthephen Jay Gould foi um destacado paleontólogo, biológo evolucionista e filósofo da ciência, que lecionou em Harvard, e faleceu em 2002. Seu nome é freqüentemente ligado a argumentos contra a Teoria da Evolução, sendo utilizado por muitos “do lado” do criacionismo. Isso principalmente pela teoria do equilíbrio pontuado, que desenvolveu junto a Niels Eldredge, propondo um mecanismo diferente ao de Darwin para a mudança evolutiva.
A ironia é que Gould foi um dos nomes mais influentes na derrota de leis que permitiam o ensino do criacionismo nas escolas em lugar do evolucionismo nos EUA. Sua obra tem sido mal-interpretada e usada a favor do criacionismo por aqueles que pouco entendem de ciência.
No livro “Pilares do tempo”, Gould trata da relação entre ciência e religião. Longe de ter uma atitude radical contra a religião, Gould, que nesse livro se diz agnóstico, propõe uma solução para o conflito entre ciência e religião, sem desvalorizar nem atacar nenhuma delas.
O próprio admite que não é uma idéia original. Muitas pessoas têm em mente que ciência é uma coisa, religião é outra, cada uma deve ficar restrita a seu lugar, e pronto. É exatamente isso que ele propõe, ou seja, uma separação respeitosa. Apesar de alguns outros acharem que o ideal seria uma unificação entre ciência e religião, Gould é cético:
“Não vejo como a ciência e a religião podem ser unificadas, ou mesmo sintetizadas, sob qualquer esquema comum de explicação ou análise: mas tampouco entendo por que as duas experiências devem ser conflitantes. A ciência tenta documentar o caráter factual do mundo natural, desenvolvendo teorias que coordenem e expliquem esses fatos. A religião, por sua vez, opera na esfera igualmente importante, mas completamente diferente, dos desígnios, significados e valores humanos – assuntos que a esfera factual da ciência pode até esclarecer, mas nunca solucionar. De modo semelhante, enquanto os cientistas devem agir segundo princípios éticos, alguns específicos à sua profissão, a validade desses princípios nunca pode ser deduzida das descobertas factuais da ciência” (p. 12).
Sua proposta é simples: a não interferência respeitosa, em que ambas seriam magistérios não-interferentes. A palavra magistério se refere aqui a uma área de autoridade acadêmica; um magistério é uma área em que um modo de ensinamento tem suas ferramentas apropriadas para um discurso e solução significativos.
O autor chama a atenção para a falácia da guerra entre a ciência e religião, que diz ter sido forçada muitas vezes. Por exemplo, na questão da terra plana. Na escola, ouvimos a história de que Colombo, o fiel representante da ciência, lutou bravamente contra as trevas da religião e ousou navegar numa Terra que os medievais acreditavam ser plana. Gould diz que todos os maiores pensadores acreditavam que a Terra era esférica, e que não houve esse embate entre Colombo e Igreja, não do modo como nos foi contado, para forçar uma batalha.
São citadas duas obras, de Draper e White, que forçam uma suposta guerra entre ciência religião, e ambas iniciam com o exemplo da terra plana. Essa guerra foi se desenvolvendo como um tema-chave da história ocidental, e nos é ensinada nas escolas. É como se as duas fossem incompatíveis, não pudessem existir juntas, e a humanidade tivesse que escolher entre uma delas. A idéia que nos é passada é a de que a ciência significa liberdade e progresso, por oposição à repressão, escuridão e ignorância da religião. Esse ponto de vista ainda é adotado por muitos intelectuais.
Gould prefere uma visão menos maniqueísta, em que ambas têm a sua importância, suas características e seu lugar na vida humana (na plenitude da vida!). O ponto de vista dos magistérios, em que cada uma se restringe ao seu âmbito, impediria maiores conflitos.
A imposição do criacionismo nas escolas é um claro exemplo de não-separação-respeitosa, pois a religião invade o que é terreno da ciência. Por isso, Gould lutou bravamente contra as leis americanas que permitiam que isso ocorresse. Ele deixa claro que não lutou contra a religião, e sim pela invasão de um magistério por outro.
“ (...) nossa batalha com o criacionismo é política e específica, de modo algum religiosa, nem sequer genuinamente intelectual. (Perdoem minha agressividade, mas, até onde pude perceber, o criacionismo da Terra jovem não oferece nada que tenha algum mérito intelectual – apenas um punhado de alegações julgadas dentro do magistério da ciência e desacreditadas de maneira conclusiva há mais de um século)” (p.102).
“O inimigo não é a religião, mas o dogmatismo e a intolerância, uma tradição tão antiga quanto a espécie humana e impossível de ser extinta sem uma eterna vigilância (...)” (p.118).
O autor mostra que a resistência contra a teoria de Darwin aparece também porque as pessoas tiram lições morais de fatos científicos. “(...) a verdade factual, da maneira como for constituída, não pode ditar nem sequer sugerir a verdade moral.”, interpretando que o darwinismo é uma defesa da guerra, dominação e exploração doméstica. Esse seria um exemplo de invasão da ciência para outros magistérios, não só a religião, como os valores sociais e culturais. “(...) a ciência não pode ditar uma política social” (p.133).
Referência
Gould, S.J.(2002) Pilares do tempo. Rocco: Rio de Janeiro.






