terça-feira, 10 de novembro de 2009

Ciência e religião - a saída pacífica de Stephen Jay Gould

Todos conhecem o velho debate evolucionismo x criacionismo, que ainda tem rendido embates, o mais conhecido deles é a tentativa de se eliminar o ensino da evolução nas escolas, ou de, pelo menos, que as duas supostas “teorias” tenham o mesmo tempo de dedicação nas salas de aula.


Sthephen Jay Gould foi um destacado paleontólogo, biológo evolucionista e filósofo da ciência, que lecionou em Harvard, e faleceu em 2002. Seu nome é freqüentemente ligado a argumentos contra a Teoria da Evolução, sendo utilizado por muitos “do lado” do criacionismo. Isso principalmente pela teoria do equilíbrio pontuado, que desenvolveu junto a Niels Eldredge, propondo um mecanismo diferente ao de Darwin para a mudança evolutiva.


A ironia é que Gould foi um dos nomes mais influentes na derrota de leis que permitiam o ensino do criacionismo nas escolas em lugar do evolucionismo nos EUA. Sua obra tem sido mal-interpretada e usada a favor do criacionismo por aqueles que pouco entendem de ciência.


No livro “Pilares do tempo”, Gould trata da relação entre ciência e religião. Longe de ter uma atitude radical contra a religião, Gould, que nesse livro se diz agnóstico, propõe uma solução para o conflito entre ciência e religião, sem desvalorizar nem atacar nenhuma delas.


O próprio admite que não é uma idéia original. Muitas pessoas têm em mente que ciência é uma coisa, religião é outra, cada uma deve ficar restrita a seu lugar, e pronto. É exatamente isso que ele propõe, ou seja, uma separação respeitosa. Apesar de alguns outros acharem que o ideal seria uma unificação entre ciência e religião, Gould é cético:


“Não vejo como a ciência e a religião podem ser unificadas, ou mesmo sintetizadas, sob qualquer esquema comum de explicação ou análise: mas tampouco entendo por que as duas experiências devem ser conflitantes. A ciência tenta documentar o caráter factual do mundo natural, desenvolvendo teorias que coordenem e expliquem esses fatos. A religião, por sua vez, opera na esfera igualmente importante, mas completamente diferente, dos desígnios, significados e valores humanos – assuntos que a esfera factual da ciência pode até esclarecer, mas nunca solucionar. De modo semelhante, enquanto os cientistas devem agir segundo princípios éticos, alguns específicos à sua profissão, a validade desses princípios nunca pode ser deduzida das descobertas factuais da ciência” (p. 12).


Sua proposta é simples: a não interferência respeitosa, em que ambas seriam magistérios não-interferentes. A palavra magistério se refere aqui a uma área de autoridade acadêmica; um magistério é uma área em que um modo de ensinamento tem suas ferramentas apropriadas para um discurso e solução significativos.


O autor chama a atenção para a falácia da guerra entre a ciência e religião, que diz ter sido forçada muitas vezes. Por exemplo, na questão da terra plana. Na escola, ouvimos a história de que Colombo, o fiel representante da ciência, lutou bravamente contra as trevas da religião e ousou navegar numa Terra que os medievais acreditavam ser plana. Gould diz que todos os maiores pensadores acreditavam que a Terra era esférica, e que não houve esse embate entre Colombo e Igreja, não do modo como nos foi contado, para forçar uma batalha.


São citadas duas obras, de Draper e White, que forçam uma suposta guerra entre ciência religião, e ambas iniciam com o exemplo da terra plana. Essa guerra foi se desenvolvendo como um tema-chave da história ocidental, e nos é ensinada nas escolas. É como se as duas fossem incompatíveis, não pudessem existir juntas, e a humanidade tivesse que escolher entre uma delas. A idéia que nos é passada é a de que a ciência significa liberdade e progresso, por oposição à repressão, escuridão e ignorância da religião. Esse ponto de vista ainda é adotado por muitos intelectuais.


Gould prefere uma visão menos maniqueísta, em que ambas têm a sua importância, suas características e seu lugar na vida humana (na plenitude da vida!). O ponto de vista dos magistérios, em que cada uma se restringe ao seu âmbito, impediria maiores conflitos.


A imposição do criacionismo nas escolas é um claro exemplo de não-separação-respeitosa, pois a religião invade o que é terreno da ciência. Por isso, Gould lutou bravamente contra as leis americanas que permitiam que isso ocorresse. Ele deixa claro que não lutou contra a religião, e sim pela invasão de um magistério por outro.


“ (...) nossa batalha com o criacionismo é política e específica, de modo algum religiosa, nem sequer genuinamente intelectual. (Perdoem minha agressividade, mas, até onde pude perceber, o criacionismo da Terra jovem não oferece nada que tenha algum mérito intelectual – apenas um punhado de alegações julgadas dentro do magistério da ciência e desacreditadas de maneira conclusiva há mais de um século)” (p.102).


“O inimigo não é a religião, mas o dogmatismo e a intolerância, uma tradição tão antiga quanto a espécie humana e impossível de ser extinta sem uma eterna vigilância (...)” (p.118).


O autor mostra que a resistência contra a teoria de Darwin aparece também porque as pessoas tiram lições morais de fatos científicos. “(...) a verdade factual, da maneira como for constituída, não pode ditar nem sequer sugerir a verdade moral.”, interpretando que o darwinismo é uma defesa da guerra, dominação e exploração doméstica. Esse seria um exemplo de invasão da ciência para outros magistérios, não só a religião, como os valores sociais e culturais. “(...) a ciência não pode ditar uma política social” (p.133).


Referência


Gould, S.J.(2002) Pilares do tempo. Rocco: Rio de Janeiro.


quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Simpósio em Psicobiologia





Para inscrição online: www.cb.ufrn.br/simpsicobio

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Você prefere ganhar R$ 100,00 hoje ou R$ 200,00 no mês que vem?


Muitas pessoas respondem que preferem ganhar R$ 100,00 hoje, mesmo que o valor no mês que vem seja maior. Por quê?

A preferência por uma recompensa imediata a uma maior, mas mais tarde, é um dos comportamentos mais conhecidos no reino animal. Não são só os humanos que o fazem, como também os outros animais. Pombos famintos que têm que escolher entre bicar um aparato que lhes fornece comida imediatamente por dois segundos ou um que lhes fornece comida por seis segundos, porém 10 segundos mais tarde, preferem a primeira situação.

Foi feito um experimento com crianças pequenas, que tendo que optar entre receber um brinquedo atrativo em cinco minutos ou um menos atrativo imediatamente, escolhiam o último (Mischel, 1984 citado em Baron, 2008).

Nós parecemos ser, de certo modo, injustos com nossos futuros, como que temporariamente míopes quando encaramos uma situação em que temos que decidir entre o agora ou o depois. Dar menos peso para o futuro do que para o presente é chamado de desconto do futuro (discounting the future). Trata-se de preferir consumir e adquirir recursos de modo mais imediato do que esperar pelo futuro – desconto do meu futuro para ter agora. Na psicologia em geral, o desconto do futuro é mais conhecido como impulsividade (Ainslie, 1975 citado em Baron, 2008). Por que isso acontece?

Para Daly & Wilson, pesquisadores envolvidos com o tema, o imediato é preferido porque o adiamento do ganho de recursos ou benefícios aumenta o risco de que ele seja perdido de alguma maneira. Sob uma perspectiva evolucionista, em condições equivalentes, a seleção natural favorecerá a reprodução que ocorrer mais cedo em comparação com a tardia. Esses autores fizeram várias pesquisas relacionadas à violência, pois tal indiferença em relação ao futuro pode encorajar formas imprudentes e violentas de comportamentos de risco.

Quanto à diferença entre os sexos, encontraram que os homens apresentam-se mais propensos que as mulheres a correr riscos e a descontar o futuro, provavelmente porque os ancestrais masculinos tinham que competir pelas fêmeas, sendo favorecidas adaptações para a competição intra-sexual e avaliação de risco. Essa hipótese, hoje em dia, parece apresentar uma resposta às evidências de diferença intersexual quanto às altas taxas masculinas de acidente, homicídio, suicídio, uso de drogas e contração de doenças sexualmente transmissíveis, em comparação às femininas (Daly & Wilson, 2001).



Baron (2008) traz um outro argumento. Para ele, o desconto do futuro faz sentido porque eventos imprevistos podem afetar a importância ou utilidade do bem de consumo (ou outra coisa) para um indivíduo. Por exemplo, no tempo decorrido entre agora e quando você conseguir ganhar R$50,00, a economia pode ser assolada por uma onda de inflação que faça com que o dinheiro valha menos, ou então você pode morrer, ou, numa versão mais otimista, você pode ganhar na loteria e se tornar um milionário, sem necessidade de tal quantia insignificante. Ainda que o desconto possa ser útil, as pessoas têm descontado seu futuro demais, de modo que pode ser danoso para elas.

Exemplos envolvem casos de violência, como os estudados por Daly & Wilson, mas também podem ocorrer em eventos mais corriqueiros, por exemplo, na hora de comer. Descontar o futuro na comida ocorre quando, por exemplo, você vai a uma festa e come muito mais do que precisaria para ficar satisfeito. Isso pode refletir, dentre outros fatores, a tendência a acumular o máximo possível de recursos de uma vez, antes que eles acabem e que haja uma chance de você não ter mais acesso a eles no futuro.

Exemplos de desconto do futuro na área econômica são fartos. Um exemplo é o estudo de Thaler & Shefrin sobre compra de ar-condicionado. Os aparelhos de ar-condicionado diferem em seu custo inicial e nas despesas de uso. Esses pesquisadores encontraram que as pessoas prestam mais atenção ao custo inicial do que nas despesas de uso, que só serão pagas no futuro, depois que o ar-condicionado já tiver sido instalado. Essa mesma situação provavelmente ocorre na compra de muitos outros produtos: carro, computador, geladeira etc.

Muitas pessoas são conscientes da dificuldade de auto-controle e de sua tendência a negligenciar o futuro. Quando vêem uma situação que requer auto-controle, normalmente dão um jeito de se auto-restringir (bind themselves), mesmo se tiverem que pagar para fazer isso. O auto-controle é assunto para outro post...

Referências

Baron, J. (2008) Thinking and deciding. Cambridge university press.

Daly, M. & Wilson, M. (2001) Risk-taking, intrasexual competition, and homicide. Nebraska Symposium on Motivation, v. 47, p. 1-36.

Daly, M. & Wilson, M. (2005) Carpe Diem: Adaptation and Devaluing the Future. The Quarterly Review of Biology, v. 80, p. 55–60.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Cognição social


Para falar dessa área de estudo pouco conhecida por essa denominação, que é a cognição social, é preciso falar de outras, que a precederam. Uma é a psicologia social, que pode ser entendida sucintamente como o estudo do modo como os pensamentos, sentimentos e ações das pessoas são influenciados pelo ambiente social. Um famoso experimento da psicologia social é o de Milgram (1974), sobre a obediência.

Outra área é a da psicologia cognitiva, que é o estudo das habilidades mentais, como a percepção, a linguagem, a memória, a aprendizagem, a resolução de problemas, em que a mente é pensada numa analogia com um computador, uma processadora de informações. Um estudo famoso da área é sobre o fenômeno stroop (Stroop, 1935).

A cognição social nasceu da soma da psicologia social com a psicologia cognitiva, e é o estudo de como as pessoas fazem sentido do seu mundo social: como percebem, representam, interpretam e lembram de informação sobre elas mesmas e sobre outros indivíduos e grupos. As teorias e as metodologias da psicologia cognitiva são aplicadas às questões da psicologia social clássica.

O que a cognição social pode estudar? Um exemplo é o fenômeno de estereotipia. Na psicologia social clássica temos experimentos sobre competição e aprendizado social e influência da norma. A cognição social foca no processamento de informações, introduzindo novas metodologias e teorias. Por exemplo, no fenômeno de estereotipia pode ser citado o estudo sobre o fenômeno stroop e a percepção de pessoas (Karylowski, Motes, Curry & Van Liempd, 2002), em que nomes de pessoas famosas negras e brancas foram escritos com as cores branca e preta. As pessoas liam mais rapidamente a cor em que as palavras estavam escritas quando correspondia à cor da pessoa famosa do que quando não correspondia.

Outros possíveis estudos são: o que leva as pessoas a verem o copo “metade cheio” ou "metade vazio”? Por que tendemos a achar que estamos acima da média? Por que achamos errado comermos nossos animais de estimação, mas não as vacas?

Para Lewis e Carpendale (2008), o termo cognição social é enganosamente simples. Aparentemente se refere ao entendimento do mundo social, mas esconde um longo debate entre os modelos cognitivos do comportamento social e o desenvolvimento, e tem, ainda, a pretensão de entender as origens sociais da cognição.


Referências


Karylowski, M.A. Motes, D.C., Van Liempd. (2002) In what font color is Bill Cosby's name written? Automatic racial categorization in a Stroop effect. North American Journal of Psychology.

Lewis, C., Carpendale, J. (2008) Social cognition: introduction. Cognitive systems research 9, 375-393.

Milgram, S. (1974). Obedience to authority. New York: Harper & How.

Stroop, J.R. (1935). Studies of interference in serial verbal reactions. Journal of Experimental Psychology, 18, 643–662.

domingo, 27 de setembro de 2009

Publicar em Psicologia - disponibilização de livro


Vários autores colaboraram para a confecção do livro Publicar em Psicologia, que tem o objetivo de auxiliar estudantes, autores, editores e demais interessados na publicação científica em Psicologia. Estou falando desse livro aqui no blog porque os autores fizeram um blog sobre o livro, e disponilizaram o livro inteiro para download!!

Ainda não tive a oportunidade de lê-lo, mas o farei assim que possível. Pelo gabarito dos autores, com certeza é uma boa publicação.

Muitos bons pesquisadores, seja da graduação, pós-graduação e até mesmo pessoas mais experientes e há mais tempo na área científica às vezes têm dificuldades para publicar. Para os mais experientes, a maior dificuldade costuma ser ter o artigo aceito para publicação, porque muitos são recusados. Para os mais novos, a dificuldade pode ser: como escrever? como organizar meu texto? em que língua escrever? em que revista publicar?

Fora que há questões mais específicas sobre a área da psicologia, e penso que o libro também teve esse intuito. Há, no mercado, muitos manuais de ajuda em escrita científica, mas é difícil encontrar algum voltado para a psicologia, que tem suas características específicas. É comum os manuais citarem exemplos da área da física, química e biologia, falando menos das Ciências Humanas. Além disso, a psicologia está num campo de intersecção entre vários campos de conhecimento, envolvendo as humanas, as biológicas e as exatas.

Enfim, gostaria de parabenizar os autores e organizadores pela iniciativa de disponibilizar o livro inteiro para download gratuito, além de criarem um blog para a discussão e trocas de ideias. Boas iniciativas como essa merecem divulgação.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Finanças comportamentais

Já ouviu falar em finanças comportamentais [em inglês, behavioral economics]? Ou o título foi tão inesperado que o levou a ler esse texto? Bem, finanças comportamentais é um ramo de estudo que envolve áreas como a administração, a economia e a psicologia. Como o próprio nome sugere, trata-se de estudar o comportamento financeiro das pessoas.

Comportamento financeiro pode ser tudo o que se relaciona com o uso do dinheiro; por exemplo, algumas perguntas que podem ser feitas são: por que algumas pessoas economizam mais do que outras? Os mais velhos tendem a gastar menos ou mais que os jovens? Como uma pessoa decide onde investir seu dinheiro, se, por exemplo, na poupança ou na bolsa de valores? O que conta na hora de alguém decidir abrir seu próprio negócio? Como uma dona (ou dono) de casa organiza e lida com a renda e os gastos? Como um acionista decide onde investir e onde não investir? Como decidimos no que gastar nosso dinheiro e no que não gastar? Etc e etc.

Todas as pessoas, a partir de uma certa idade, têm que administrar suas finanças pessoais. Desde muito cedo, em nossa sociedade, muitas crianças já têm que raciocinar sobre dinheiro e se comportar com relação a ele: alguns ganham trocados dos pais sem fazer nada em troca, outros precisam realizar tarefas; alguns mantêm cofrinhos, outros gastam tudo assim que ganham; precisam decidir se compram doces ou brinquedos etc.

O estudo das atitudes e comportamento financeiros das pessoas pode servir a uma dupla função: (1) Para entidades financeiras, como: empresas, para um entendimento das atitudes e comportamentos dos clientes, e para órgãos governamentais, pois pode auxiliar no planejamento de políticas públicas, evitando perdas financeiras, e (2) para as pessoas, pois entender a maneira com que lidam com o seu dinheiro é importante para que sejam elaboradas estratégias para evitar sofrimentos, dívidas, dificuldades na administração e uso etc.

A base das finanças comportamentais se relaciona ao trabalho de dois psicólogos: Amos Tversky e Daniel Kahneman. Os trabalhos destes pesquisadores, elaborados entre os anos 1974 e 1979, representam a base teórica para a análise do comportamento financeiro. Antes deles, havia um pensamento dominante na área das finanças, que é conhecido como hipótese de racionalidade ilimitada dos agentes, oriundo da teoria neoclássica.

Esse nome complicado pode ser simplificado da seguinte forma: achava-se que as pessoas eram racionais sempre, todo o tempo, ilimitadamente... Logo, seu comportamento quanto ao dinheiro era totalmente racional, pensado inteligentemente de modo a atingir a melhor escolha, como se um computador interno fizesse complicados cálculos matemáticos, estatísticos e probabilísticos e chegasse à melhor opção, e agíssemos de acordo com isso.

Como você deve desconfiar, essa hipótese não é adequada, pois as pesquisas indicam que as pessoas não pensam ou se comportam sempre de um jeito considerado “racional”. Na área da psicologia, há algum tempo fala-se que as pessoas não são racionais (Freud o disse, só para citar um nome conhecido), mas isso não era idéia corrente em todos os círculos, nem mesmo na psicologia, muito menos na economia, a principal área a estudar o comportamento financeiro.

As finanças comportamentais procuram relaxar a hipótese de racionalidade radical, e consideram inadequado conceber o indivíduo como simples autômato, calculista objetivo de problemas de otimização condicionada, refém de uma lógica inexorável. Buscam incorporar os aspectos psicológicos dos indivíduos no comportamento financeiro, evidenciando a irracionalidade das pessoas.

Na definição de Camerer (2003), a essência das finanças comportamentais é a convicção de que aumentando o realismo dos fundamentos psicológicos humanos quanto às finanças, a própria economia irá melhorar, pois se gera insights teóricos, faz-se melhores predições dos fenômenos, e sugere-se melhores formas de lidar com ela. Para esse autor, a teoria neoclássica não é completamente inútil, porque provê os economistas de uma estrutura teórica que pode ser aplicada muitas vezes, além de provê-los de predições refutáveis.

Quero chamar a atenção para a questão dos pontos de vista. Camerer e a maioria dos autores desse ramo são da economia e de áreas afins, e muitas vezes partem de um ponto de vista das empresas, com o objetivo número 1 que citei no começo, por exemplo, de otimizar lucros e evitar perdas. Querem pesquisar para entender como nossa cognição funciona, de modo que diminuamos os erros e aumentemos os acertos, para evitar perdas financeiras, para empresas, bolsa de valores, órgãos de financiamentos e órgãos governamentais gerais que lidam com dinheiro. Há também outro ponto de vista, o número 2, que é o foco nas pessoas, em como entender e melhorar a forma como lidamos com nossas finanças. Existem, ainda, estudos que unem esses dois pontos de vista.

Voltando na história, os trabalhos de Tversky e Kahneman foram essenciais para dar força a uma hipótese contrária a da racionalidade ilimitada: a da racionalidade limitada [bounded racionality], como nomeou outro pesquisador, o Simon (1957). As pesquisas desses autores fundamentaram a idéia de que os seres humanos estão sujeitos a vieses comportamentais que, muitas vezes, os afastam de uma decisão centrada na racionalidade. Portanto, muito do que sabemos sobre vieses cognitivos, vêm de pesquisas sobre tomada de decisão.

Simon (1957) argumenta que pessoas que têm que tomar decisões (1. tomadores de decisão, o termo mais utilizado; 2. Decisões como, compro o carro ou não? Invisto meu dinheiro nisso ou não?) têm limitações em suas habilidades no processamento de informações. Conseqüentemente, os tomadores de decisão não podem ser perfeitamente racionais da maneira descrita pela teoria neoclássica. Ao invés disso, os tomadores de decisão tentam fazer o melhor que podem dadas as limitações a que estão sujeitos.

A maior contribuição conceitual de Simon é a noção de que as considerações do processamento de informação (ou seja, como as informações são processadas em nossas mentes) representam um importante papel no entendimento do processo decisório humano. Deste modo, como nossa capacidade é limitada no processamento de informações, em condições de incerteza, usamos “regras práticas” ou heurísticas [heuristics] para tomar decisões.

Neste contexto, no final dos anos 60 e início dos anos 70, uma série de artigos escritos por Tversky e Kahneman revolucionou a pesquisa acadêmica em julgamento humano. A idéia central do programa “heuristics and biases” e que julgamentos em situações de incerteza freqüentemente são baseados em um número limitado de heurísticas simplificadoras em vez do processamento algoritmo mais formal e extensivo e este conceito influenciou diversas teorias e pesquisas. Os erros de cognição têm sido considerados em pesquisas de diversos campos de conhecimento, como análise de decisão, estratégia empresarial e finanças (Schwenk, 1984).

Esses trabalhos introduzem a possibilidade de que, nas suas tomadas de decisão, agentes financeiros empreguem processos heurísticos, podendo incorrer sistematicamente em vieses cognitivos. A partir dessas idéias, nas últimas duas décadas, tem aumentado o interesse não somente da comunidade acadêmica e do ambiente empresarial, pelas associações entre psicologia dos julgamentos que as pessoas realizam, e o processo de tomada de decisão (Mendes-da-Silva & Yu, 2009).

A literatura de finanças comportamentais aborda alguns dos vieses cognitivos, como esses:

- Representatividade. Inicialmente examinada por Tversky e Kahneman (1974), indivíduos que utilizam essa heurística tendem a fazer julgamentos baseados em estereótipos previamente formados. Esse viés cognitivo induz um comportamento de ignorar o papel do tamanho de uma amostra, por exemplo; ou melhor, na intuição de algumas pessoas, o tamanho da amostra não é fator relevante, apesar de constituir matéria essencial em estatística.

- Ancoragem ou ajustamento. As pessoas tendem a fazer julgamentos a partir de um valor inicial, que será ajustado para a obtenção de uma resposta final. O ajustamento realizado freqüentemente não oferece condições para considerar racional a escolha do agente. Desse modo, decisões tomadas em contextos similares podem apresentar-se diferentes, em decorrência de valores de referência distintos.

- Disponibilidade. Os eventos mais freqüentes são mais facilmente lembrados. Adicionalmente, os eventos mais prováveis são mais lembrados que os improváveis. Esta heurística, segundo Bazerman (2002), pode induzir o agente a erros sistemáticos na tomada de decisões gerenciais.

Esses autores argumentam ainda que ganhos e perdas são avaliados relativamente a um ponto neutro de referência, e que a dor associada à perda de um valor $X é maior que o prazer associado ao ganho dos mesmos $X, existindo uma tendência de superavaliar eventos de pequena probabilidade e subavaliar eventos de média e grande probabilidade.

Esse pequeno texto introduziu as finanças comportamentais. Note que apesar do nome do ramo se referir ao comportamento, muito do que é estudado é cognição. Portanto, as finanças comportamentais abrigam uma gama de estudos que se referem a comportamento, atitudes, expectativas e cognição com relação a finanças, sendo bastante ampla e abarcando múltiplas possibilidades.
Para saber mais, consulte a bibliografia citada e procure outras.

Referências

Bazerman, M. H. (2002). Judgment in managerial decision making (5th ed.). New York: Willey.

Camerer, C.F. (2003). Behavioral economics: past, present, future.

Junior, F.P.O. (2009). Finanças comportamentais no Brasil. Monografia apresentada como requisito parcial para obtenção do título de Graduado em Matemática, através da Universidade Estadual Vale do Acaraú - UVA, sob a orientação do Prof. Ms. José Hamilton Máximo de Almeida. Sobral, Ceará.

Mendes-da-Silva, W. M., Yu, A.S.O. (2009). Análise Empírica do Senso de Controle: Buscando Entender o Excesso de Confiança. RAC, Curitiba, v. 13, n. 2, art. 5, p. 247-271.

Schwenk, C. R. (1984). Cognitive simplification processes in strategic decision-making. Strategic Management Journal, 5(2), 111-128.

Simon, H. A. (1957). Models of Man. New York: John Wyler and Sons.

Tversky, A. and Kahneman, D. (1974). `Judgment under uncertainty: Heuristics and biases', Science.